O debate sobre o fim da escala 6 x 1 e a redução da jornada máxima semanal ganhou força no Congresso Nacional. Trata-se de um debate legítimo, mas incompleto. Embora a pauta tenha apelo social, a análise dos impactos na economia real exige olhar para os números. O principal desafio apresentado é manter o volume de produção e a viabilidade financeira das indústrias, uma vez que na indústria o tempo de máquina operando define o custo do produto. Se a jornada diminui, a empresa tem apenas duas saídas matemáticas — e ambas elevam o custo final, se constituindo em duas rotas de impacto.
Se tomarmos como base de cálculo que uma empresa hipotética leva 44 horas para a produção de 100 peças, uma das opções seria considerar a manutenção da equipe, reduzindo horas trabalhadas, com uma queda proporcional na produção. Com redução de 18% de tempo vamos ter uma redução de 18% de peças, mas o custo fixo se mantém. A outra rota de impacto seria manter a produção, contratando mais pessoas, com a criação de novos turnos de revezamento, o que representa um aumento direto na folha de pagamento e encargos. Enquanto na primeira opção o resultado é um aumento no custo unitário de cada peça, na segunda é um aumento no custo operacional como um todo.
O fato é que na indústria, menos horas trabalhadas, sem aumento de eficiência significa, obrigatoriamente, repasse de custos ou perda de margem. Menos horas sem ganho de eficiência, é igual a aumento de custo e perda de competitividade. Reduzir horas de trabalho sem equilibrar a produtividade gera um déficit imediato na operação.
Temos que considerar ainda a ilusão da comparação internacional. Defensores da redução citam países desenvolvidos como exemplo de sucesso. Mas essa comparação ignora a métrica mais importante da economia: a Produtividade por Hora Trabalhada. Além disso, há de se considerar nessa conta o peso do Custo Brasil que exerce uma pressão invisível sobre a margem, o que dificulta a competitividade antes mesmo da máquina ser ligada. Se produzir no Brasil custa cerca de 26% a mais do que em outros países, adicionar o custo de uma redução de jornada abrupta pode comprometer a sustentabilidade financeira de uma operação. A indústria brasileira não compete apenas com o mercado externo; ela compete contra o próprio ambiente de negócios do país.
Acreditamos na melhoria contínua das condições de trabalho. Mas, na matemática industrial, a ordem dos fatores altera o produto. A redução da jornada deve ser a consequência do desenvolvimento, não a causa. Precisamos de melhorar a taxa de investimento no Pais. O caminho passa necessariamente pela Educação e Qualificação.
dos trabalhadores, com um processo intensivo de formação de mão de obra técnica capaz de operar a Indústria 4.0. Passa ainda pela modernização do Parque Fabril, que requer linhas de crédito acessíveis (como o financiamento de bens de capital) para renovar máquinas. Necessário ainda reformas estruturais que permitam à indústria respirar e investir, resultando necessariamente na redução do Custo Brasil.
O resultado dessa implantação será um aumento real de produtividade, a única base segura para discutir jornadas menores. A indústria de máquinas defende a manutenção das atuais 44 horas semanais como um teto flexível e o fortalecimento da negociação individual e/ou coletiva como o caminho para a modernização das relações de trabalho, permitindo que empresas e trabalhadores construam soluções customizadas e flexíveis.
Em vez de focar apenas na jornada, podemos pensar no desenvolvimento de pilares estruturais, uma vez que a evolução das condições de trabalho deve ser fruto de negociação e diálogo, nunca de uma imposição que coloque em risco a sobrevivência de quem produz e emprega no Brasil.
*José Velloso é engenheiro mecânico, administrador de empresas e presidente executivo da ABIMAQ (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos).

