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segunda-feira, 29 de junho, 2026

Projeto de pesca artesanal divulga novos boletins de monitoramento realizado em cinco municípios do Tocantins

Esses informativos são editados e têm se constituído em fonte segura de informações sobre a cadeia produtiva da pesca artesanal 

O projeto “A bioeconomia da pesca artesanal nos estados de Tocantins e Roraima: caminhos seguros para a inclusão socioeconômica e estruturação da cadeia produtiva”, ou Propesca, publica mais boletins informativos do monitoramento realizado em cinco municípios tocantinenses. Periodicamente, esses informativos são editados e têm se constituído em fonte segura de informações sobre a cadeia produtiva da pesca artesanal em Araguacema, Araguatins, Couto Magalhães, Esperantina e Xambioá, todos às margens do Rio Araguaia. São coletados e agrupados dados como número de desembarques, produtividade média por pescador, espécies mais capturadas, receita bruta e destino de comercialização do pescado.

Adriano Prysthon é pesquisador da Embrapa e coordena o Propesca. Segundo ele, “em 2025, o Ministério da Pesca e Aquicultura publicou o boletim da produção pesqueira dos anos de 2023 e 2024. Esse documento foi um marco histórico porque há mais de uma década o Brasil não publicava dados estatísticos oficiais sobre a produção pesqueira, principalmente a artesanal. Pela primeira vez na história, o Tocantins e Roraima aparecem nas estatísticas, mostrando que o setor é uma importante cadeia produtiva nesses estados. Isto só foi possível devido ao trabalho realizado pelo projeto, que subsidiou diretamente o boletim. A saída da invisibilidade é, sem dúvida, a principal relevância deste monitoramento. Pois não basta monitorar, tem que ser visto e valorizado”.

Onivaldo Rocha é engenheiro de pesca e participa do Propesca desde o início. “A pesca artesanal, como um todo, é uma atividade ainda invisível para o estado e para a sociedade. Ainda há imprecisão em apontar qual a produção de pescado proveniente da pesca artesanal no Tocantins ou o quanto a atividade gera de renda a partir da exploração dos recursos pesqueiros ou se o esforço de pesca está além da capacidade de suporte do ambiente, bem como quantas pessoas são impactadas direta e indiretamente com a cadeia produtiva da pesca artesanal e qual esse impacto na comunidade”, entende. E emenda: “a pesca artesanal é responsável por garantir segurança alimentar e renda a milhares de famílias no Tocantins. A partir de informações qualificadas, poderão ser desenvolvidas políticas públicas que fortaleçam a atividade pesqueira e as pessoas que dela vivem”.

Acesse os novos boletins do Propesca, divulgados neste mês de junho:
Araguacema
Araguatins
Couto Magalhães
Esperantina
Xambioá

Estrutura: O Propesca baseia-se na coleta sistemática de dados sobre a atividade da pesca artesanal. Esse trabalho de acompanhamento é realizado pelos monitores pesqueiros, pessoas da própria comunidade que são contratadas pelo projeto. Há um padrão de fichas para todos os municípios e, mensalmente, elas são agrupadas e organizadas pela Embrapa. Periodicamente, os dados agrupados e organizados retornam a cada comunidade no formato de devolutivas. Para Adriano, esses momentos “têm um papel importante não apenas de devolver e validar as informações com os pescadores, mas, sobretudo, de provocar um ciclo virtuoso de discussão permanente acerca dos desafios e das oportunidades enfrentados pela pesca artesanal”.

Sobre mudanças onde o projeto está acontecendo, Onivaldo cita “o início de um debate sadio a respeito da valorização da atividade pesqueira e do próprio pescador. São informações valiosas que podem ser utilizadas para melhoria de infraestrutura, projetos de crédito para o fortalecimento da atividade etc.”. E Adriano defende que “a metodologia participativa do Propesca favoreceu um processo de autoconfiança dos pescadores em se enxergarem enquanto geradores de trabalho, renda e segurança alimentar, mostrando o valor da cadeia produtiva da pesca artesanal nos territórios onde ocorre”. O pesquisador da Embrapa considera que, com adaptações que considerem contexto pesqueiro, relações de governança e diferenças culturais, é possível utilizar a metodologia participativa do Propesca em outras regiões do país.

A experiência de uma monitora: Sunamita Lopes é monitora pesqueira em Couto Magalhães. Para relatar a realidade daquele município e como o projeto tem acontecido por lá, ela elaborou, juntamente com um aplicativo, o seguinte texto:

O Fortalecimento da Pesca Artesanal em Couto Magalhães: Monitoramento e União Transformam a Realidade Local
A pesca artesanal em Couto Magalhães vai muito além de uma atividade econômica; ela é a identidade, o sustento e a tradição de dezenas de famílias que encontram no rio a sua história. Nos últimos anos, essa realidade ganhou um aliado fundamental: o monitoramento pesqueiro. O trabalho de acompanhar de perto o dia a dia dos pescadores artesanais tem se provado um divisor de águas para a sustentabilidade, a gestão financeira e o reconhecimento da categoria na região.

A Evolução do Monitoramento e o Aprendizado no Rio
Essa trajetória de monitoria começou com Irenovan Lopes dos Santos. Mais tarde, em 2025, devido aos problemas de saúde de Irenovan, Sunamita Rodrigues Feitosa Lopes assumiu o posto de monitora. “Para nós, é uma satisfação muito grande participar desse projeto. Nos ajuda a saber quais são as espécies mais pescadas do rio e qual é o nosso gasto real, descobrindo a nossa despesa semanal e mensal”, destaca Sunamita.
O impacto preencheu lacunas históricas na rotina dos trabalhadores. O preenchimento das fichas de monitoramento pesqueiro trouxe luz a dados que antes passavam despercebidos. “Coisas que a gente não sabia, passamos a saber. Essas fichas nos mostram o quanto a gente não tinha noção do que gastava mensalmente e semanalmente”, relata a monitora. Esse choque de realidade gerou um profundo interesse coletivo: o projeto começou com a adesão de apenas dez pescadores, mas o sucesso foi tão grande que logo o número cresceu. Hoje, todos os pescadores ativos que realmente vão para o rio fazem parte do monitoramento.
Grande parte desse sucesso se deve ao apoio técnico e humano. A comunidade expressa uma gratidão profunda à Embrapa e, de forma muito especial, à Carolyne, ao Adriano e ao Onivaldo. “São pessoas que nos ajudam, nos ensinam, aprendem com a gente e a gente aprende muito com eles”, reforça a liderança local, valorizando a troca genuína entre o conhecimento científico e os saberes e fazeres do campo.

A Força da Colônia de Pescadores
No coração de toda essa engrenagem está a Colônia de Pescadores de Couto Magalhães, que trilha uma história de união e liderança desde a sua fundação, em 2001. O primeiro presidente a conduzir os passos da instituição foi Cláudio Pereira de Araújo. Mais tarde, a presidência passou para as mãos de Irenovan Lopes dos Santos, que liderou a categoria por mais de uma década, permanecendo no cargo de 2011 até o ano passado, quando precisou se afastar por motivos de saúde. Foi nesse momento de transição que Sunamita assumiu também a presidência da Colônia, acumulando as funções e dando continuidade ao fortalecimento da categoria.
Atualmente, a Colônia conta com 139 pescadores associados. Desse total, 84 estão ativos e recebendo o seguro-defeso. Houve uma pequena redução no número de segurados este ano em decorrência da aposentadoria de alguns membros, mas a expectativa da gestão é que, já no próximo ano, o número de pescadores ativos recebendo o benefício retorne ao patamar habitual.

Um Apelo pelo Futuro da Pesca
Diante de tantas melhorias práticas trazidas pelo Propesca e pelo monitoramento diário, a comunidade pesqueira de Couto Magalhães deixa um recado claro e urgente para as autoridades nacionais. Fica o pedido ao Governo Federal para que mantenha o projeto ativo e garanta a sua continuidade. O desejo da Colônia é que a iniciativa continue gerando frutos, permitindo que os pescadores cresçam ainda mais, protejam o rio e continuem contribuindo ativamente com a economia e o sustento de toda a comunidade.

Fonte: Clenio Araujo