Ex-zagueiro da seleção espanhola, Miguel Ángel Nadal defende mudanças estruturais no futebol brasileiro, elogia Endrick e relembra história marcante de Romário com Johan Cruyff
A eliminação precoce na Copa do Mundo 2026 manteve aberto o debate sobre os rumos da Seleção Brasileira. Para Miguel Ángel Nadal, ex-zagueiro da Espanha e do Barcelona, o problema da equipe vai além da qualidade individual dos jogadores e passa pela organização coletiva. Em entrevista à plataforma Casinostugan, o espanhol afirma que o futebol moderno exige uma estrutura muito mais sólida para potencializar o talento dos atletas.
“O futebol brasileiro tem criatividade; seus jogadores entendem o jogo à sua maneira e, por meio da individualidade, conseguem fazer a diferença. A única questão é que, hoje, tudo é estudado com muito cuidado: os movimentos e todo o restante. O Brasil precisa encaixar essa liberdade dentro de uma estrutura, porque a criatividade do futebol brasileiro existe, mas é preciso haver muito mais organização. Não vimos uma boa seleção.
É um elenco com bons jogadores que rendeu muito abaixo das expectativas, e acho que isso pode ser relacionado ao mesmo problema. Lembro, já que estamos ficando mais velhos, que a seleção brasileira de que eu provavelmente mais gostei foi a da Copa do Mundo de 1982. Ela tinha essa criatividade, mas também havia organização, porque tudo funcionava em sintonia. Hoje em dia, deixar todo mundo fazer o que quiser em campo raramente dá certo. Talvez você encontre um Messi em seu auge absoluto e pense: ‘faça o que quiser, porque qualquer coisa que você fizer será bem feita’. Mas, se você der essa liberdade para um time inteiro, no fim das contas o resultado dificilmente será bom. Então, é preciso um pouco mais de estrutura de jogo para trazer organização e permitir que todos brilhem um pouco mais”, afirma Nadal.
Endrick recebe elogios
O ex-defensor acredita que Endrick ainda não está pronto para assumir a condição de titular absoluto do Real Madrid, mas vê um futuro promissor para o atacante brasileiro. Segundo Nadal, o período por empréstimo foi importante para o desenvolvimento do jogador, que agora precisa se adaptar às exigências do clube espanhol.
“Titular absoluto, não. Ele é um jogador jovem, e esta seria sua segunda passagem. Quando chegou pela primeira vez, nos jogos que disputou mostrou lampejos de brilhantismo logo no início. É verdade que ele se portou muito bem.
Acho que sair por empréstimo fez muito bem para ele. É verdade que foi para o Campeonato Francês e foi muito bem por lá. Não é uma liga tão competitiva quanto a espanhola, mas acho que ele é um jogador com um futuro enorme. O importante é que consiga lidar com as exigências do Real Madrid, e acredito que ele tenha a ambição e a juventude necessárias para se encaixar. Mbappé é um jogador que possivelmente consegue fazer a diferença sozinho, mas, como dissemos no começo, é o time que realmente faz a diferença.
Hoje em dia, tendo um jogador com certa liberdade, mas não liberdade total, acredito que eles podem atuar juntos. É verdade que ambos são rápidos e que os dois provavelmente jogam mais por dentro do que abertos pelos lados. Eles podem se adaptar um ao outro, desde que Endrick domine esse estilo de jogo e que eles também se ajustem um pouco às exigências do futebol atual”, avalia.
A história de Romário com Cruyff
Companheiro de Romário no Barcelona, Nadal também relembrou um episódio marcante envolvendo o atacante brasileiro e Johan Cruyff. Para o espanhol, o Baixinho era um jogador diferenciado e tinha uma relação de confiança rara com o treinador holandês.
“Romário era aquele tipo clássico de brasileiro: criativo, alegre e realmente fazia a diferença em muitos aspectos. Existe a famosa história de quando ele pediu ao Cruyff uma folga para voltar ao Brasil, e eu, na verdade, testemunhei isso pessoalmente.
Antes de tudo, Cruyff costumava observar todos nós nos treinamentos, e eu sempre pensei que ele olhava para nós e imaginava algo como: ‘bom, este aqui quer…’. Provavelmente achava que o restante de nós não estava à altura, porque o nível do próprio Cruyff como jogador era de outro planeta. Mas Romário era o único jogador que ele colocava nesse mesmo patamar, o único por quem tinha o respeito de estar diante de um atleta verdadeiramente de elite.
E, por causa dessa proximidade, em determinado momento, Romário — porque a vida também precisa ser aproveitada — disse que queria voltar ao Brasil. No começo, Cruyff respondeu que não. Romário continuou insistindo e, no fim, encontrou uma maneira, embora Cruyff tenha imposto uma condição: algo como ‘faça dois gols para mim no domingo e eu lhe darei permissão’.
Ele não apenas marcou os dois gols, como depois pediu para ser substituído, porque já tinha a passagem para o Brasil comprada. Era esse o nível de confiança e de certeza que ele tinha quando disse que faria aqueles gols — e, claro, fez. Então, no meio da partida, foi até o treinador e disse: ‘me tira, me tira’. ‘Como assim, te tirar? Você está machucado?’ ‘Não, é que tenho um voo.’
Ele já tinha comprado as passagens. Mas esses são jogadores especiais, jogadores que um treinador precisa tentar fazer contribuir para a equipe. E, naturalmente, quando você tem atletas assim, o desempenho deles pode ser a diferença entre conquistar um título ou não”, conclui.
Miguel Ángel Nadal construiu praticamente toda a carreira no futebol espanhol. Revelado pelo Mallorca, viveu o auge no Barcelona, onde conquistou cinco títulos de La Liga e uma Liga dos Campeões. Pela seleção da Espanha, disputou as Copas do Mundo de 1994, 1998 e 2002, além da Eurocopa de 1996. Também é tio de Rafael Nadal, um dos maiores tenistas da história.
Fonte> Victor de Paula Rocha

