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quinta-feira, 27 de agosto, 2026

Agro bate recorde de produção, mas enfrenta margens estreitas e crédito caro; produtora rural analisa o que pode definir a próxima virada do setor

Produtora e liderança no Matopiba aponta que produzir mais não significa necessariamente ganhar mais e defende uma nova postura de gestão para atravessar o atual ciclo

O agronegócio brasileiro vive um dos momentos mais contraditórios de sua história recente: enquanto avança em tecnologia, produtividade e produção, produtores e empresas enfrentam margens pressionadas, juros elevados, endividamento e dificuldades de acesso ao crédito. Para Cristina Gross, produtora rural, advogada, sócia-diretora do Grupo Gross e diretora financeira da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA), esse cenário precisa ser analisado para além dos números de produção.

A reflexão é tema do novo artigo assinado por Cristina, “O paradoxo do agro brasileiro: por que o setor avança em tecnologia enquanto atravessa um ciclo de margens estreitas, crédito caro e endividamento”. No texto, ela utiliza os conceitos dos ciclos econômicos de Kondratieff e Juglar para interpretar o atual momento do agronegócio e discutir quais fatores podem determinar a recuperação do setor.

A principal provocação é direta: colher mais não significa necessariamente ganhar mais. Mesmo diante da expectativa de uma safra recorde de grãos de 360,8 milhões de toneladas em 2025/26, o PIB do agronegócio recuou 2,01% no primeiro trimestre de 2026, após crescer 12,2% em 2025. O contraste evidencia o impacto da queda dos preços sobre a rentabilidade do setor e reforça a necessidade de olhar para margem, custo, geração de caixa e capacidade de investimento.

“Estar na fronteira tecnológica não impede uma crise financeira. O agro pode produzir mais, incorporar inteligência artificial, automação e novas tecnologias e, ainda assim, enfrentar um período de forte pressão sobre suas margens”, avalia Cristina.

Do recorde de produção à crise financeira

O artigo também chama atenção para a combinação entre os investimentos realizados durante o período de preços elevados das commodities e o cenário posterior de custos altos e juros elevados. Em Mato Grosso, por exemplo, a soja passou de R$ 167,95 por saca em maio de 2022 para R$ 106,58 em maio de 2026, enquanto o custo total estimado por hectare avançou de aproximadamente R$ 5,2 mil para R$ 7,7 mil, segundo o Imea.

A pressão financeira também aparece no crescimento dos pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio, que passaram de 534 em 2023 para 1.990 em 2025, segundo dados da Serasa Experian citados no artigo.

Uma possível virada exige mais do que uma safra boa

Cristina avalia que uma eventual recuperação do agronegócio deverá depender da combinação entre melhora da relação de preços e custos, redução efetiva dos juros, estabilidade do crédito, boas condições climáticas e maior capacidade de gestão. A partir de 2028, pode surgir uma recuperação seletiva, enquanto uma expansão mais ampla poderia ocorrer entre 2029 e 2031, caso esses fatores avancem conjuntamente. A produtora ressalta que se trata de um cenário condicionado, e não de uma previsão automática.

Mais do que esperar a próxima alta das commodities, a recomendação é preparar as empresas e propriedades para atravessar o ciclo. “Produzir com precisão, investir com critério e preservar capacidade para agir serão diferenciais cada vez mais importantes”, afirma Cristina.

Uma voz do campo para discutir os rumos do agro

Além da atuação como produtora rural e executiva, Cristina Gross acompanha de perto os desafios econômicos e estruturais enfrentados pelo setor, especialmente no Oeste da Bahia. Sua experiência reúne a perspectiva de quem está diretamente ligada à produção e a atuação em gestão, finanças e representação institucional.

A análise abre espaço para uma discussão que ultrapassa os limites das propriedades rurais: os impactos do momento do agro alcançam a indústria de máquinas e insumos, transporte, armazenagem, comércio e serviços dos municípios produtores, além de influenciarem investimentos, crédito, arrecadação e a própria economia brasileira.

Agro bate recorde de produção, mas enfrenta margens estreitas e crédito caro; produtora rural analisa o que pode definir a próxima virada do setor
Cristina Gross é voz ativa do agronegócio no Matopiba (Foto: Arquivo pessoal)

Fonte: Carla Letícia – Jornalista Agro