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terça-feira, 15 de setembro, 2026

Eleições 2026: por que as pesquisas eleitorais podem ‘errar’?

Presidente da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa explica que intenção de levantamentos não é prever o resultado da urna

O período eleitoral abre a temporada das pesquisas eleitorais, divulgadas quase diariamente. Nas eleições de 2026, até o início de setembro, mais de 2.200 pesquisas já haviam sido registradas no sistema do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) — e esse número deve subir. Em 2022, foram quase 3.000 pesquisas.

E uma dúvida sempre paira na mente do eleitorado: por que as pesquisas eleitorais “erram”? Isso porque, muitas vezes, os levantamentos podem ter resultado bem diferente da contagem de votos nas urnas, mesmo quando realizados pouco antes do pleito.

Para entender o processo que leva uma pesquisa de intenção de voto a “errar ou acertar” um resultado, o R7 entrevistou João Francisco Meira, presidente do Conselho de Opinião Pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep).

Por que pesquisas eleitorais ‘erram’

“Errar” o resultado das urnas é algo inerente à natureza de uma pesquisa de intenção de voto e, por isso, esse nem é o seu objetivo.

João Meira explica que processos eleitorais estão sujeitos a diversas variáveis que fazem com que o eleitor mude de ideia ao longo do tempo.

“Todas as pesquisas aspiram a ser representativas do conjunto da sociedade, mas não são”, afirma. “A resposta [de uma pesquisa de intenção de voto] é sobre uma predisposição em relação à qual eu não tenho nenhum compromisso assinado, firmado e contratado de amanhã mudar de ideia”, completa o diretor da Abep.

As propagandas eleitorais, os ataques de candidatos a opositores e as notícias que saem na imprensa são fatores que podem mudar o voto de eleitores entre uma pesquisa e outra e entre as pesquisas e o dia da votação.

Além disso, existem aspectos que as pesquisas não conseguem contornar na hora de entrevistar o eleitor. Pessoas que se recusam a responder, que mentem ou que respondem à pesquisa, mas no dia da votação não comparecem às urnas, são elementos que interferem no resultado do levantamento.

A abstenção, por exemplo, é uma grande dificuldade para os institutos de pesquisa.

Uma pesquisa BTG/Nexus de 31 de agosto deste ano levantou que apenas 3% das pessoas dizem que não devem comparecer à votação.

No entanto, a abstenção nos dois turnos das eleições de 2022 girou em torno de 21% — uma disparidade de 18 pontos percentuais.

“Ninguém chega para você faltando 50 dias para a eleição e diz: ‘Não vou votar não’. As razões para não votar são razões conjunturais, são razões de momento. Então, chega no domingo, dia da eleição, o cara tá com um filho doente, por exemplo.”

Resumindo, o objetivo de uma pesquisa de intenção de voto não é cravar o resultado ou fazer uma previsão do que sairá das urnas. Os levantamentos são fotografias que captam aquilo que o eleitor está pensando naquele momento específico em que responde ao pesquisador.

“Quando a intenção de voto coincide com o voto, ou é sorte ou é resultado de um processo cuja estabilidade já se demonstrou desde muito tempo”, afirma o diretor da Abep.

“Alguns processos eleitorais são muito estáveis e as escolhas são feitas com muita antecedência. As pesquisas vão medindo, e na eleição dá o que aquilo vinha acontecendo. E às vezes não.”

A pesquisa boca de urna

João Meira explica que a única pesquisa que não deve errar, ou que precisa errar menos, é a famosa pesquisa de boca de urna. Ela é realizada no dia da votação, na porta das seções eleitorais, e pergunta ao eleitor “em quem você votou?”, e não “em que você votaria?”.

Essa diferença faz com que ela deixe de ser uma pesquisa de opinião e passe a medir o comportamento do eleitor, levantando dados baseados em fatos concretos que já aconteceram.

“Existe uma aura em torno da pesquisa, que a pesquisa tem que acertar. É muito barulho por nada. Isso realmente apenas indica o grau de primarismo da discussão aqui no Brasil”, afirma João Meira.

Proposta de selo de acurácia

Em julho deste ano, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, propôs a criação do “Selo Acurácia Eleitoral”, para “reconhecimento e valorização” de empresas cujos resultados dos levantamentos se aproximem da contagem final das urnas.

De pronto, a maioria dos institutos de pesquisa se posicionou de forma contrária à medida. João Francisco Meira classifica o projeto como uma “péssima ideia”. “Ela desestimula os que fazem pesquisa séria a fazer pesquisa na véspera de eleição, porque corre o risco de ser ‘despremiado’”, explica o especialista.

“Ao mesmo tempo, estimula quem faz pesquisa picareta a fazer um agregador, dizer que fez uma pesquisa, jogar um número qualquer e talvez chegar perto do resultado e dizer: ‘Aí, foi bem’. Isso é péssimo”, complementa o diretor da Abep.

O TSE foi procurado pela reportagem para dar detalhes de como o projeto está sendo desenvolvido no tribunal e se ele já seria aplicado nas eleições deste ano, mas não respondeu.