Praticantes, líderes religiosos e estudiosos apontam que as religiões de matriz africana e afro-brasileira não se sentem representadas nas campanhas eleitorais atuais. Apesar do crescimento expressivo no número de adeptos, que triplicou entre 2010 e 2022, atingindo 1,8 milhão de pessoas segundo o IBGE, a comunidade afro-brasileira é deixada de lado, contrastando com o intenso foco dado aos eleitores cristãos.
Especialistas e religiosos de matriz afro, como a advogada e umbandista Lívia dos Santos, atribuem essa falta de interesse e baixa representatividade ao preconceito e à intolerância religiosa. Segundo ela, a sociedade brasileira ainda tem dificuldade em conhecer e aceitar essas religiões, devido a um histórico de marginalização e criminalização dos seus praticantes.
Lívia dos Santos destaca a dificuldade de se ver representado pelos políticos e aponta que o combate à intolerância religiosa é uma pauta fundamental para a democracia. O Código Penal Brasileiro prevê pena de um a três anos para o crime de discriminação religiosa, conforme o Artigo 208.
Embora representem uma parcela menor da população em comparação com católicos e evangélicos (que somam cerca de 80% dos brasileiros), o eleitorado de matriz afro não deve ser negligenciado, segundo o pai de santo e pesquisador Leonardo Vieira, da UFF. Ele critica a concepção errônea de que os povos de terreiro não possuem capacidade de organização política.
Vieira explica que a política está intrinsecamente ligada à existência dos terreiros, manifestando-se em suas relações comunitárias e na organização coletiva de aspectos como economia, saúde, educação e tecnologia. Essa forma de fazer política, segundo ele, difere da convencional, mas é igualmente válida e organizada.
Candidatos que se identificam com a matriz afro ou que demonstram aproximação com o segmento são os que conseguem, de fato, atrair o apoio e os votos desse eleitorado. A dificuldade em realizar grandes mobilizações públicas, comparáveis aos eventos de outras religiões, é agravada pela intolerância religiosa no país, que ainda representa um risco de violência para os praticantes de religiões afro.
Dados do Disque Direitos Humanos (Disque 100) reforçam a urgência do tema: entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, foram registradas 2.774 denúncias de intolerância religiosa. O serviço funciona 24 horas, todos os dias, e oferece atendimento gratuito e imediato. As denúncias são encaminhadas aos órgãos competentes, e em casos de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190.

