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sexta-feira, 6 de novembro, 2026

Crise política no Paraguai pode afetar investimentos empresas e a indústria brasileira; entenda os riscos

Especialistas apontam possíveis impactos sobre cadeias produtivas integradas e empresas com operações no país vizinho

A renúncia do presidente do Paraguai pode provocar reflexos nas relações econômicas com o Brasil, especialmente no comércio bilateral, nos investimentos e nas negociações no âmbito do Mercosul. Economistas avaliam os possíveis impactos para empresas brasileiras, exportações e setores que mantêm relações comerciais com o país vizinho.

O presidente paraguaio, Santiago Peña, renunciou ao cargo nessa quinta-feira (5), em meio a uma crise política e financeira desencadeada pela liquidação e intervenção de um banco digital, que bloqueou as contas de milhares de correntistas. Peña era acionista da instituição.

Crise política no Paraguai pode afetar investimentos empresas e a indústria brasileira; entenda os riscos

O professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ Leonardo Paz avalia que a instabilidade pode atingir empresas brasileiras que transferiram parte de suas operações para o Paraguai em busca de custos menores de produção, benefícios tributários e proximidade geográfica.

Segundo ele, o país vizinho se tornou um destino relevante para investimentos brasileiros, especialmente de indústrias que buscam aproveitar a mão de obra mais barata e a carga tributária reduzida.

“Tem muita indústria brasileira, muita empresa brasileira indo produzir lá. O imposto é baixo, a mão de obra é muito barata, é próximo, obviamente, do Brasil. Então, eu acho que o primeiro momento, a grande questão é como as empresas vão segurar o seu investimento”, afirma.

Paz considera que a renúncia, por si só, não deve provocar necessariamente uma ruptura institucional, uma vez que a expectativa é de continuidade política com a chegada do vice-presidente ao comando do país. Para ele, o principal desafio imediato será reorganizar o sistema financeiro e garantir condições para a recuperação dos recursos dos correntistas afetados pela liquidação do banco.

A preocupação, segundo o professor, é que uma eventual restrição ao acesso a empréstimos, seguros e outros serviços financeiros prejudique empresas paraguaias que dependem de insumos brasileiros e companhias nacionais que mantêm subsidiárias no país.

“Um problema no Paraguai é a incapacidade das empresas paraguaias de conseguir acessar o mercado financeiro, pagar seus funcionários, contrair empréstimo, rolar dívida, contratar seguro. Se isso atrapalhar as empresas que têm subsidiárias no Paraguai, atrapalha a sede do Brasil”, explica.

O especialista destaca que setores como o de máquinas e equipamentos e o automobilístico podem sentir os efeitos de uma eventual deterioração do ambiente econômico paraguaio, devido à integração das operações produtivas entre os dois países.

Indústria e agronegócio

O Brasil e o Paraguai mantêm cadeias produtivas integradas, com circulação de insumos industriais e agrícolas. O Paraguai também atrai empresas brasileiras por meio de incentivos tributários e custos de produção menores.

Um dos mecanismos que favorecem essa integração é a chamada Lei das Maquilas, que estimula a importação de peças e componentes para montagem de produtos em território paraguaio, destinados posteriormente ao mercado brasileiro e a outros países do Mercosul.

O mestre em Finanças e professor do Ibmec Brasília Marcos Sarmento afirma que a indústria e o agronegócio estão entre os segmentos brasileiros que podem ser afetados por mudanças nas políticas econômicas do país vizinho.

“Os principais setores que podem ser afetados são a indústria e o agronegócio. O Paraguai compra insumos semi e industrializados para montar produtos em seu território. Há também forte fluxo de insumos e produtos agrícolas”, afirma.

Apesar dos riscos, Sarmento avalia que a possibilidade de mudanças profundas na política econômica paraguaia é pequena. Segundo ele, os dois países mantêm uma relação bilateral consolidada, sustentada por acordos comerciais e contratos que oferecem proteção às operações.

O professor também pondera que o mercado consumidor paraguaio tem dimensão limitada para as exportações brasileiras. Com aproximadamente 7 milhões de habitantes, o país representa uma parcela pequena do destino das vendas externas do Brasil.

Itaipu e Mercosul entram no radar

Outro ponto importante da relação econômica entre os países é a Usina Hidrelétrica de Itaipu, compartilhada por Brasil e Paraguai. Cada país tem direito à metade da energia gerada. Como o Paraguai não consome toda a parcela a que tem direito, o Brasil compra parte desse excedente.

De acordo com Sarmento, a disponibilidade de energia a um custo menor no Paraguai, somada aos incentivos tributários, contribui para atrair empresas brasileiras interessadas em produzir no país.

A mudança no comando do governo também pode ter reflexos nas negociações do Mercosul. Como membro fundador do bloco, o Paraguai participa das decisões e dos acordos comerciais firmados com outros mercados e blocos econômicos.

Para Sarmento, uma eventual mudança de orientação política em relação à integração regional poderia dificultar negociações em andamento e afetar interesses comerciais brasileiros.

“Uma visão de governo que seja desfavorável ao Mercosul pode provocar dificuldades em negociações que estão em curso”, afirma.

Leonardo Paz, por outro lado, considera pouco provável que a crise provoque atrasos significativos nas negociações comerciais com a União Europeia neste primeiro momento. Ele ressalta, porém, que um aprofundamento da instabilidade política, com novos conflitos entre governo e Congresso, poderia tornar as decisões mais complexas.

Impacto para o Brasil

A avaliação sobre os efeitos da crise paraguaia para a economia brasileira também depende da capacidade do sistema financeiro local de absorver os problemas provocados pela intervenção bancária.

O professor de Economia do Ibmec Brasília Willian Baghdassarian avalia que, caso a crise fique restrita à instituição financeira envolvida, os reflexos para o Brasil devem ser limitados. O cenário seria diferente se os problemas se espalhassem pelo sistema bancário e atingissem o financiamento de empresas e operações comerciais.

“Caso haja uma crise sistêmica, ela poderá impactar toda a economia paraguaia e trazer impactos de segunda ordem sobre a economia brasileira, principalmente no que diz respeito ao comércio exterior dos dois países. Por outro lado, se a crise for localizada, provavelmente o impacto não será grande sobre a nossa economia”, afirma.

O economista considera que, mesmo diante das incertezas, os efeitos sobre a atividade brasileira tendem a ser reduzidos em comparação com os problemas enfrentados pela própria economia nacional.

“O impacto da crise do Paraguai sobre a economia brasileira deverá ser muito limitado e muitas ordens de grandeza inferiores aos problemas que já ocorrem em nossa economia e aos problemas que deverão acontecer nos próximos anos”, avalia.

Para os especialistas, portanto, o principal fator a ser acompanhado nos próximos meses será a velocidade da reorganização política e financeira do Paraguai. A capacidade do novo governo de restabelecer a confiança no sistema bancário e preservar as condições de financiamento das empresas será determinante para evitar que a crise ultrapasse as fronteiras e afete as relações comerciais com o Brasil.

Fonte: R7

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