Se depois de passar dias enfrentando chuva e frio intenso você sente o corpo demorar um pouco para se adaptar, por vezes até ficando doente, saiba que as plantas também passam por um processo parecido. A diferença é que elas sozinhas não conseguem procurar um lugar mais fresco, beber um copo de água e nem se proteger da próxima mudança. Quando o clima vira de uma hora para outra ou se apresenta em excesso, o jardim necessita de uma atenção especial.
O problema fica ainda mais evidente em períodos como o atual. “A mudança e o extremo de temperatura estressam as plantas porque não dá tempo delas se organizarem, metabolicamente falando”, explica o paisagista e botânico Alexandre Galhego.
Por isso, mais do que ter uma rotina fixa de rega, adubação e manutenção, o cuidado também passa por observar o que está acontecendo com o jardim e entender quando é hora de mudar a estratégia. Acompanhe!
O excesso de chuva pode ser pior que a falta?
Apesar de estarmos acostumados a associar água à saúde das plantas, existe um limite para tanto. Quando chove durante vários dias e a água não consegue escoar, o excesso pode se tornar mais prejudicial do que a falta.
Para o paisagista, a drenagem deve ser considerada desde a implantação do jardim ou durante uma eventual reforma. Isso porque as características do solo interferem diretamente na capacidade de a água escoar. Em terrenos com pouca drenagem, a chuva pode permanecer acumulada durante dias e comprometer a aeração das raízes.
Para isso, a cobertura morta pode ajudar a lidar com os extremos. Alexandre indica grama picada, folhas e outros restos vegetais em decomposição que podem ser colocados sobre o solo e contribuem para conservar a umidade e proteger as raízes.
A prática, porém, não substitui uma irrigação adequada nem resolve problemas de drenagem, e sim funciona como um recurso complementar, especialmente quando o período de chuva é seguido por dias secos e quentes.
Quais plantas sofrem menos com as mudanças?
Se o clima está cada vez mais marcado por extremos, a resistência do jardim começa antes mesmo de a primeira planta ser colocada no solo. Para Alexandre Galhego, a escolha das espécies é uma das principais formas de reduzir o impacto dessas variações, especialmente quando são priorizadas plantas nativas da região.
São espécies que já estão adaptadas às condições climáticas, ao regime de chuvas e às características daquele ambiente. “A priorização das espécies nativas vem muito de encontro porque são espécies mais adaptadas tanto ao clima como ao regime hídrico, que já faz parte do clima, como à praga. Então são plantas que têm uma resiliência natural embutida”.
Todavia, a diversidade também conta. Um jardim formado por diferentes espécies e portes consegue criar relações entre as plantas, inclusive com espécies maiores oferecendo sombra para outras menores. Já a monocultura, quando o espaço concentra uma única espécie, pode deixar todo o conjunto mais vulnerável, se aquela planta sofrer com determinada condição climática ou com uma praga, o impacto pode atingir todo o jardim.
Por isso, o paisagista reforça que não existe uma receita única para qualquer espaço. “Para cada local pede um tipo de vegetação, para cada região do país pede outro tipo de vegetação, para cada regime a sua lista de espécies se altera”.
Folha murcha é falta de água?
Um dos efeitos mais curiosos das oscilações do tempo acontece com a água. Depois de vários dias de chuva, por exemplo, pode parecer estranho imaginar que uma planta esteja sofrendo, mas uma folha murcha nem sempre significa que é hora de pegar o regador.
Em um solo encharcado, o excesso de água ocupa os espaços que deveriam conter ar, reduzindo a quantidade de oxigênio disponível para as raízes. “A raiz precisa também respirar. Desse jeito, ela não respira, falta oxigênio e a planta definha”, enfatiza o paisagista.
No extremo oposto, o calor intenso acelera a transpiração e nesses momentos a planta perde água mais rápido e pode não conseguir absorver do solo na mesma velocidade. É quando também pode entrar em déficit hídrico.
Os sinais mais comuns para identificar são folhas murchas, pontas queimadas ou amareladas, queda de flores, botões que não chegam a abrir e até o surgimento de folhas novas podem apontar um problema. “Folha nova é sempre um bom parâmetro. Se elas começam a nascer menores que o habitual ou apresentam alterações, pode ser um indicativo de que a planta não está conseguindo se desenvolver normalmente”, afirma Alexandre.
Para quem cultiva espécies em vasos dentro de casa, a lógica é a mesma, a chuva que cai do lado de fora não significa que a planta precise receber mais água. Nesse caso, é importante observar o próprio substrato, já que as condições do ambiente interno, como temperatura, umidade e quantidade de luz, interferem na velocidade com que ele seca. Regar por hábito, sem verificar a necessidade da planta, pode levar justamente ao excesso de água.
A rega precisa mudar com o clima?
Quando o tempo permanece fechado por vários dias, a tendência de quem cuida das plantas é pensar que elas já estão recebendo água suficiente e, em muitos casos, é isso mesmo. Então o cuidado foca em observar o solo e as condições daquele momento, em vez de seguir uma quantidade ou frequência fixa.
“A rega é um ritmo, ela não possui uma quantidade fixa, depende da época, da temperatura, do clima. Por isso você tem que conhecer o seu jardim e observar as condições. Um calor extremo pode pedir uma rega em dois horários, o primeiro logo cedinho para garantir que a planta tenha tempo de absorver essa água e um segundo para dar mais um repique, mais pro meio ou final da tarde”, ressalta o profissional.
Quando é melhor não mexer?
As mudanças repentinas também exigem cuidado com intervenções que parecem ajudar a planta, mas podem acabar aumentando seu estresse. Quando ela está passando por um período de estresse térmico, por exemplo, Alexandre recomenda suspender a adubação, já que pode ter dificuldade para absorver os nutrientes adequadamente enquanto enfrenta condições adversas.
O paisagista explica que, em um jardim residencial, a primavera e o verão costumam ser as épocas de maior investimento na adubação. É nesse período que a planta pode formar uma espécie de reserva para enfrentar momentos mais difíceis.
“Não se pode perder nunca a janela do nutriente, que é principalmente primavera e verão. É onde forma a chamada poupança do jardim, onde ele está bem nutrido, a planta está bem sadia, então ela vai ter mais tolerância e mais força pra passar uma fase mais difícil que vier pela frente”, complementa.
Já em períodos de frio intenso, por exemplo, a poda precisa ser pensada com cuidado, principalmente quando existe possibilidade de geada. A ideia é não submeter a planta a um novo estresse justamente quando ela já está lidando com condições desfavoráveis.
No fim, cuidar de plantas durante períodos de tempo instável tem menos a ver com seguir uma rotina imutável e mais com saber quando ela precisa ser adaptada. Afinal, se nós sentimos no corpo quando o clima muda de repente, o jardim também dá seus próprios sinais, só é preciso aprender a enxergá-los.
“O jardim quando começa a ficar feio aos olhos, ele já está sendo prejudicado há muito tempo”, alerta Alexandre. Por isso, acompanhar o solo, perceber como a planta reage depois de uma sequência de chuvas e observar sua resposta quando o calor retorna são atitudes que ajudam a prevenir problemas.
Sobre Alexandre Galhego Paisagismo
Engenheiro agrônomo formado pela USP e mestre em Biologia e Botânica pela UNESP, Alexandre Galhego atua há mais de 30 anos desenvolvendo projetos de paisagismo residenciais e comerciais que unem conhecimento botânico, arquitetura e processos naturais.
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