Para quem ainda não me conhece, sou Juliana Rauzer. Ao longo da minha trajetória na educação, já atuei como professora, orientadora, consultora de treinamento e desenvolvimento e psicopedagoga (entre outros).
Essas experiências me permitiram realizar uma escuta ativa das pessoas dos alunos, famílias, professores, coordenadores e equipes de gestão escolar.
Em uma dessas vivências, chamou-me a atenção a fala de uma pessoa muito respeitada dentro de uma instituição:
“Temos que incluir! Precisamos tratar todos os alunos de forma igual!”
Confesso que, inicialmente, tentei compreender aonde ela queria chegar.
No entanto, fiquei preocupada quando percebi que ela realmente estava falando sobre inclusão.
Algumas pessoas poderão interpretar mal o que vou dizer neste artigo.
Contudo, além de informativo, este texto também representa um desabafo e uma forma de protesto diante da maneira superficial como algumas crianças e adolescentes neurodivergentes estão sendo “incluídos” nas escolas.
Tenho especialização em Educação Especial, Psicologia Escolar, Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia. Essas formações, somada à minha experiência profissional, dá-me embasamento para afirmar:
Inclusão não é apenas aceitar uma matrícula.
Inclusão não é colocar um estudante com deficiência dentro da sala de aula e disponibilizar uma pessoa de apoio.
Inclusão não é fingir que ensina.
Inclusão não é fazer tudo pelo aluno, impedindo o desenvolvimento de sua autonomia.
E inclusão definitivamente não é tratar todos da mesma maneira.
Igualdade não é o mesmo que equidade
Igualdade é oferecer a todos as mesmas condições. Equidade é reconhecer que cada estudante possui necessidades, possibilidades e pontos de partida diferentes, garantindo os recursos de que precisa para aprender, participar e desenvolver sua autonomia.
O jurista e escritor brasileiro Rui Barbosa expressou esse princípio ao afirmar:
“A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam.”( Rui Barbosa, Oração aos Moços)
Embora Rui Barbosa utilize a palavra “igualdade”, sua reflexão traduz o princípio que hoje chamamos de equidade: oferecer respostas diferentes para necessidades diferentes, a fim de construir oportunidades verdadeiramente justas.
Na escola, equidade não significa favorecer um aluno, facilitar o conteúdo ou exigir menos dele. Significa identificar e remover as barreiras que dificultam sua aprendizagem.
Alguns estudantes precisarão de mais tempo para realizar uma atividade.
Outros necessitarão de materiais adaptados, recursos visuais, explicações individualizadas, tecnologia assistiva ou maneiras diferentes de demonstrar o que aprenderam.
Portanto, tratar todos da mesma maneira nem sempre é justo. Quando necessidades diferentes recebem exatamente a mesma resposta, a aparente igualdade pode produzir ainda mais exclusão.
Estar matriculado não significa estar incluído
A legislação brasileira não garante somente o acesso do estudante à escola. A Lei Brasileira de Inclusão determina que sejam asseguradas condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem. Também prevê adaptações razoáveis, medidas individualizadas, recursos de acessibilidade, atendimento educacional especializado e profissionais de apoio quando necessários.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece que os sistemas de ensino devem oferecer currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e formas de organização que atendam às necessidades dos estudantes.
Portanto, incluir não é somente permitir que o aluno entre na escola. É garantir que ele PARTICIPE, aprenda, conviva, desenvolva sua autonomia e sinta que pertence àquele espaço.
Infelizmente, já presenciei situações em que estudantes com laudo não recebiam o amparo necessário. Em alguns casos, quando havia um profissional de apoio, o professor regente delegava a ele praticamente toda a responsabilidade, como se aquele aluno deixasse de fazer parte da turma.
O profissional de apoio é importante, mas não substitui o professor. A responsabilidade pedagógica pelo planejamento, ensino e acompanhamento do estudante continua sendo do docente, em parceria com a equipe escolar.
Em outras situações, quando não havia profissional de apoio, as atividades não eram adaptadas sob a justificativa de que o professor não conseguia atender a todos.
Diante disso, surge uma pergunta inevitável: de quem é a culpa?
Não procuro culpados, mas responsabilidades
Não estou aqui para apontar o dedo e escolher um único culpado.
Gostaria, porém, que todos os envolvidos assumissem sua parcela de responsabilidade.
As famílias precisam acompanhar mais de perto a vida escolar dos filhos, estudar com eles, manter uma comunicação constante com a escola.
Quando não conseguirem ajudá-los, devem buscar a orientação de profissionais capacitados.
Também é necessário estabelecer limites para o uso das telas. Muitas crianças e adolescentes passam horas diante de celulares e outros dispositivos, substituindo momentos importantes de sono, leitura, brincadeira, movimento, estudo e convivência familiar.
A escola pode orientar, mas não consegue assumir sozinha uma responsabilidade que também pertence à família. Da mesma forma, as instituições precisam valorizar verdadeiramente seus professores. Valorizar não significa apenas elogiar o profissional ou divulgar reuniões e formações nas redes sociais. É necessário oferecer remuneração digna, escuta ativa, apoio emocional, recursos pedagógicos, formação continuada e uma quantidade adequada de profissionais.
Formação continuada não pode se resumir a encontros pontuais realizados apenas para gerar fotografias e publicações nas redes das escolas (sim, infelizmente acontece). É necessário ouvir quem está diariamente dentro da sala de aula, compreender as dificuldades apresentadas e transformar essa escuta em ações concretas.
Não existe equidade sem condições de trabalho
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Semesp, em 2024, com 444 professores da educação básica, revelou que 79,4% dos participantes já haviam pensado em desistir da docência. Entre as dificuldades apontadas estavam a falta de valorização profissional, o baixo retorno financeiro e a sobrecarga de trabalho.
Esse dado não representa apenas cansaço. É um alerta sobre o risco de perdermos profissionais experientes e enfrentarmos uma falta ainda maior de professores no futuro.
Muitas pessoas observam concursos que oferecem salários entre cinco e oito mil reais e imaginam que essa seja a realidade de toda a categoria. Não é.
Segundo a Convenção Coletiva de Trabalho 2026–2027 do SINPRO-PA, válida para a rede privada do Pará, o piso da hora-aula para professores da Educação Infantil ao 5º ano é de R$ 15,57. Do 6º ao 9º ano, o valor é de R$ 15,83. No Ensino Médio, a hora-aula mínima é de R$ 16,06.
Existem profissões que não exigem formação em nível superior e que recebem, por hora trabalhada, valores muito maiores do que aqueles pagos aos professores. Isso não significa que uma profissão seja menos importante que a outra. Todas merecem respeito e remuneração digna!
A reflexão necessária é outra: por que uma profissão que exige formação superior e assume enorme responsabilidade sobre o desenvolvimento de crianças e adolescentes continua sendo tão desvalorizada? Isso me fez lembrar uma frase do saudoso escritor Içami Tiba, que, em um de seus livros, afirmou: “A qualidade de uma escola também se revela na forma como ela reconhece, valoriza e remunera seus professores.”
Muitos professores escolheram a profissão por amor. Outros também permanecem por necessidade. Em ambos os casos, nenhum profissional deveria precisar adoecer ou se sacrificar para demonstrar compromisso com a educação.
Não existe equidade sem condições adequadas de trabalho. Exigir que um professor reconheça e atenda às necessidades individuais de uma turma numerosa, sem recursos e sem apoio suficiente, é transformar a inclusão em um discurso quase impossível de concretizar.
O bom professor deseja atender a todos. Entretanto, sem estrutura física, humana e pedagógica, como poderá oferecer um ensino verdadeiramente equitativo?
Cada estudante precisa ser reconhecido em sua singularidade
Cada criança é única e apresenta necessidades próprias. Alguns estudantes compreendem melhor quando escutam uma explicação; outros se beneficiam de imagens, exemplos concretos, movimento, experimentação ou atividades práticas. Isso não significa classificar rigidamente as crianças como auditivas, visuais ou cinestésicas. Significa reconhecer que diferentes formas de apresentar o conteúdo podem ampliar as possibilidades de compreensão e participação.
O professor precisa observar como seus alunos respondem às propostas, diversificar suas estratégias e avaliar continuamente o processo de aprendizagem. Mas como realizar esse trabalho em salas lotadas, sem recursos, sem apoio suficiente, com cobranças excessivas e remuneração inadequada?
A equidade exige que também sejam consideradas as condições oferecidas ao professor. Não podemos exigir uma educação individualizada enquanto mantemos turmas excessivamente numerosas e profissionais sobrecarregados.
Inclusão exige coragem para mudar
A inclusão não pode depender apenas da boa vontade, do amor ou do sacrifício do professor. Amor pela profissão é importante, mas não substitui estrutura, formação, recursos, profissionais de apoio e condições dignas de trabalho.
Também não basta matricular o estudante, colocá-lo dentro da sala e divulgar que a escola é inclusiva. Uma escola verdadeiramente inclusiva não deveria celebrar apenas quantos estudantes recebeu, mas quantos conseguiu fazer participar, aprender, desenvolver autonomia e sentir que pertencem àquele espaço. Se o aluno está dentro da sala, mas não tem acesso ao currículo, não recebe as adaptações necessárias e permanece isolado das experiências de aprendizagem, ele está presente, mas ainda não está incluído.
Não quero encontrar um único culpado. Quero encontrar compromisso.
Quero famílias mais presentes, professores respeitados, profissionais de apoio preparados, gestores dispostos a ouvir e políticas públicas capazes de sair do papel.
Equidade não é privilégio, favor ou facilidade. Equidade é reconhecer barreiras e agir para removê-las.
Tratar todos da mesma maneira em uma realidade profundamente desigual não produz justiça. Apenas mantém as desigualdades que já existem. Abrir a porta garante a entrada. Mas somente a equidade transforma essa entrada em verdadeira inclusão.
Até a próxima!
Psicopedagoga Juliana Rauzer
Instagram – Psicopedagoga_Juliana Rauzer

