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terça-feira, 8 de setembro, 2026

A casa que resistiu à cheia no Nepal, por Wilson Aquino

Não foi sorte. A pequena casa verde que permaneceu de pé, ilhada em meio ao mar de lama e pedras que devastou o distrito de Nuwakot, no Nepal, na manhã de 26 de agosto de 2026, tornou-se o símbolo mais comovente de uma tragédia que chocou o mundo. Enquanto a enxurrada devastava comunidades no Nepal e no Tibete, destruindo quase 30 mil casas, aquela construção de dois andares resistiu à violência da correnteza. E resistiu com vida: a família que se abrigava em seu interior, vista no balcão superior, em oração, enquanto a destruição passava ao seu redor, foi resgatada e sobreviveu.

Por que aquela casa não caiu? A resposta dos engenheiros que analisaram as imagens não é mistério, é lição. Diferentemente das construções tradicionais de pedra da região, a casa verde foi erguida sobre um alicerce bem fundamentado, com estrutura de concreto armado, colunas e vigas interligadas por barras contínuas de aço, formando um único esqueleto rígido. Quando a fúria das águas a atingiu lateralmente, a estrutura inteira absorveu o impacto e o transferiu para a fundação, em vez de desmoronar parede por parede. Somou-se a isso a sabedoria da localização: erguida em terreno levemente mais alto e afastada do leito principal do rio, a casa deixou que a correnteza se dividisse e contornasse seu corpo compacto.

Essa imagem percorreu o mundo e, para milhões de pessoas, trouxe à memória o ensinamento do Mestre: o homem prudente que edificou sua casa sobre a rocha, e desceu a chuva, e vieram os rios, e sopraram os ventos, e a casa não caiu, porque estava fundada sobre a rocha (Mateus 7:24-25). As centenas de moradias que desapareceram naquele dia não sucumbiram por falta de sorte, mas por falta de fundamento. E o salmista já advertia: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Salmos 127:1).

A lição, porém, não fica na engenharia. Ela nos interpela pessoalmente: como estamos alicerçando nossos valores morais e espirituais? Sobre que terreno estamos construindo nossa vida? Somos convictos de nosso propósito na Terra, de que somos filhos especiais de Deus e parte de Seu plano de salvação, que consiste em enfrentar as adversidades de cabeça erguida, conscientes de que não estamos sós nessa jornada? Ensinamos aos nossos filhos esses valores que os fortalecerão por toda a vida? Quando se dobram os joelhos em comunhão com o Senhor, mesmo na infância, os milagres acontecem. Ensinamos isso aos nossos filhos?

No último domingo, a Conferência da Estaca Campo Grande, de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, teve como tema as palavras do profeta Josué: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24:15). Ali, muitos testemunharam que enfrentaram grandes dificuldades, mas se sobressaíram a perigos e armadilhas porque decidiram, com sua casa, servir a Deus. Essa decisão não livra ninguém das tempestades da jornada, mas garante a tranquilidade e a segurança de que nunca estaremos sós. E é exatamente aí que os milagres acontecem, como certamente aconteceu com a família da casinha verde.

O Senhor também nos ensina sobre a importância da preparação na parábola das dez virgens: cinco foram prudentes e reservaram óleo para suas lâmpadas; cinco foram imprudentes e, quando o noivo chegou, não estavam prontas (Mateus 25:1-13). A casa verde estava pronta porque seu alicerce foi construído com antecedência, com materiais nobres e cuidado. A fé também se constrói assim, dia após dia, antes da tempestade, não durante.

Que a imagem daquela casinha verde permaneça em nossa memória como um convite: fortifiquemo-nos nos verdadeiros valores da vida, que não são materiais, mas espirituais, para vivermos de forma honesta, digna e honrada, alicerçados nos bons princípios morais, alcançando a verdadeira felicidade agora e a salvação no futuro. Porque, no fim, não é a casa que nos protege, é o alicerce sobre o qual a construímos. E o único alicerce que resiste a todas as cheias é a rocha, que é Cristo.

Jornalista, Professor e Escritor