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terça-feira, 6 de outubro, 2026

A desinformação está atrapalhando o seu parto; entenda por quê

“Analgesia atrapalha o parto.” “A mulher perde a força.” “Pode fazer mal ao bebê.” Frases como essas ainda chegam às gestantes quando o assunto é aliviar a dor durante o trabalho de parto. O problema é que muitos desses receios estão ligados a técnicas utilizadas no passado e não correspondem ao que a anestesia obstétrica oferece hoje.

A discussão ganha peso em um país onde as cesarianas representam 60,6% dos nascimentos, conforme dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde. O cenário envolve diferentes fatores, entre eles a organização da assistência obstétrica, o medo da dor, a desinformação e o acesso aos métodos de alívio durante o parto.

Especialista em anestesia obstétrica, o médico Fernando Nani tem trajetória ligada à assistência materno-infantil e à formação de profissionais da área. No final de setembro, ele esteve em Campo Grande a convite do Servan Anestesiologia para participar do 34º Congresso de Ginecologia e Obstetrícia de Mato Grosso do Sul, promovido pela SOGOMAT-SUL. Durante o encontro, discutiu a analgesia de parto e a importância da atuação integrada entre anestesiologistas, obstetras e demais profissionais que acompanham a gestante.

Para Nani, um dos desafios é justamente desfazer conceitos que atravessaram décadas. “A dificuldade é desfazer essas informações erradas do passado. A gente já faz no Brasil uma analgesia de parto moderna há 20 anos”, afirma.

O especialista explica que técnicas utilizadas anteriormente, com concentrações mais altas de anestésicos, podiam estar relacionadas à maior necessidade de intervenções, como fórceps ou vácuo extrator. Isso, porém, mudou. Segundo Nani, as técnicas atuais permitem controlar a dor sem aumentar a incidência de cesarianas e preservando a participação da mulher no nascimento.

Mitos que atravessam gerações

Em Campo Grande, a anestesiologista Dra. Helena Berriel, do Servan Anestesiologia, acompanha essa mudança na prática. Ela lembra que a resistência não partia apenas das gestantes. Durante muito tempo, profissionais de saúde também reproduziram receios relacionados ao procedimento.

“A informação chegava de forma muito errada. Havia preocupação de que a analgesia atrapalhasse o parto, que a paciente perdesse a força ou que causasse algum mal para o bebê”, relata.

A experiência com o Humanizar, serviço especializado em analgesia de parto do Servan Anestesiologia, acompanha essa transformação. O atendimento é voltado ao controle da dor e ao suporte médico contínuo durante o trabalho de parto, com foco em uma experiência mais tranquila, segura e que preserve o protagonismo da gestante.

Helena afirma que a mudança aconteceu aos poucos, à medida que mais mulheres tiveram acesso ao procedimento e passaram a compartilhar suas experiências. “As pacientes contavam umas às outras as experiências positivas com a analgesia durante o parto normal. O boca a boca ajudou muito também a mostrar na prática que a analgesia moderna evoluiu”, lembra.

O impacto também chegou aos profissionais. Segundo Dra. Helena, obstetras passaram a observar na rotina que o alívio da dor não significava prejuízo à evolução do trabalho de parto. “Eles foram entendendo que aquilo não traz repercussões negativas e vendo também como ajuda o trabalho deles, como a paciente fica bem e como o parto evolui bem.”

Há ainda uma situação que merece atenção: quando a dor se torna tão intensa que a cesariana passa a ser considerada como uma forma de interromper o sofrimento. “A paciente não aguenta mais e acaba indo para a cesárea. E a gente fala: calma, existe uma alternativa”, diz Helena. “O trabalho de conscientização é mostrar que essa alternativa existe e que ela é segura.”

Uma conversa que começa no pré-natal

Para a anestesiologista Dra. Agne Bocchi, também do Servan Anestesiologia, o melhor momento para conhecer essa possibilidade não é quando a dor já começou. O assunto pode fazer parte do pré-natal, primeiro na conversa com o obstetra e, posteriormente, em uma consulta pré-anestésica.

“O objetivo maior é que a gente conheça essas pacientes no pré-natal, converse, tire dúvidas e, quando chegue o dia do parto, ela já tenha esse conhecimento e saiba o momento de solicitar a analgesia”, explica.

Agne destaca que aliviar a dor também não significa deixar de vivenciar o nascimento. Pelo contrário. “A analgesia não tira esse protagonismo da mulher. Na verdade, ela devolve a humanização do parto, porque você consegue vivenciar muito melhor. Consegue conversar, dar risada, comer, se hidratar. Você consegue viver o parto de fato, e não só estar ali sentindo dor.”

Para a médica, o aumento da procura observado em Campo Grande acompanha uma mudança percebida também em outras partes do país. Quanto mais cedo a gestante conhece suas possibilidades, mais preparada estará para decidir como deseja conduzir esse momento.

A tecnologia também mudou

Não foram apenas os medicamentos e as doses que avançaram. Fernando Nani destaca que hoje existem bombas desenvolvidas especificamente para a analgesia de parto. A tecnologia permite individualizar a administração do anestésico e, em determinados sistemas, possibilita que a própria paciente participe do controle do alívio da dor, sempre dentro de limites previamente estabelecidos pela equipe médica.

Para Nani, esse é um exemplo de como a assistência passou a considerar também a experiência individual de cada mulher. “Cada paciente quer ter a sua própria experiência”, resume.

É justamente aí que informação e escolha se encontram. Algumas mulheres podem querer atravessar todo o trabalho de parto sem analgesia; outras podem desejar o procedimento desde o início. Há ainda aquelas que só vão decidir quando sentirem as contrações e entenderem como o próprio corpo reage.

Nenhuma dessas escolhas torna uma mulher mais ou menos protagonista do próprio parto. Para os especialistas, o fundamental é que ela conheça as alternativas e possa decidir com orientação adequada, segurança e liberdade; sem deixar que mitos do passado façam essa escolha por ela.