A melhor forma de distribuir de renda, por José Lucas da Silva


José Lucas da Silva*

O Brasil é, sem dúvida, uma grande Nação. Rico em terras férteis, em recursos minerais, em extensão territorial e em um clima privilegiado que permite produzir mais de uma safra por ano. Soma-se a isso a maior de todas as riquezas: um povo trabalhador, criativo e resiliente. Ainda assim, essa mesma população, em sua maioria, não consegue levar uma vida verdadeiramente digna.

Faltam salários que garantam alimentação adequada, lazer, férias com a família, descanso semanal efetivo e poder real de compra. Direitos básicos, assegurados em lei, tornam-se inalcançáveis para milhões de brasileiros em razão da baixa remuneração paga por grande parte dos empregadores.

É preciso dizer isso com clareza: pagar salário justo não é favor, é dever. Remunerar o trabalhador de acordo com a importância da função que exerce, com sua produtividade e com o grau de responsabilidade assumido é uma questão de ética social. Pagar salário mínimo a profissionais que geram lucros expressivos, exercem funções estratégicas ou cuidam da segurança patrimonial e familiar de empresas pode até estar dentro da legalidade — mas está muito distante da moralidade.

Mais do que injusto, é desumano. Trata-se de pessoas que se sacrificam diariamente, muitas vezes abrindo mão do convívio familiar, da saúde e do descanso, para garantir o crescimento das empresas. Nenhum negócio prospera sozinho. Toda empresa que fatura milhões o faz graças ao esforço coletivo de seus colaboradores.

Vivemos, sim, em um país capitalista. Mas o capitalismo não pode ser confundido com exploração. O lucro não pode existir à custa da precarização do trabalho e da exclusão social. Prova disso é a realidade atual do mercado: milhares de vagas ficam abertas todos os dias porque os salários oferecidos não são suficientes sequer para cobrir as despesas básicas de uma família.

O início de um novo ano, período em que pessoas e empresas renovam metas e projetam crescimento, é também o momento ideal para reflexão. O empregador precisa repensar o valor que atribui àqueles que fazem seu negócio funcionar. Valorizar o trabalhador é investir na própria sustentabilidade da empresa e na estabilidade da sociedade.

Nesse contexto, derrubar o modelo atual de trabalho 6 x 1 é extremamente necessário, pois esse modelo é um retrocesso. A maioria do povo brasileiro defende o modelo 5 X 1, que está em tramitação no Congresso Nacional. Garantir mais tempo de convivência familiar fortalece laços, previne problemas sociais e contribui diretamente para a formação de crianças e jovens mais seguros, orientados e preparados para o futuro. Uma sociedade forte começa dentro de casa.

Defender mudanças na legislação trabalhista que promovam equilíbrio, dignidade e justiça não é radicalismo — é responsabilidade social. Assim como é urgente que o empresariado reflita com honestidade sobre uma distribuição de renda mais justa. Não é aceitável que empresas prosperem acumulando riquezas enquanto seus trabalhadores sobrevivem com salários que mal cobrem o essencial.

Salário digno não quebra empresas. Ao contrário, fortalece o consumo, reduz desigualdades, promove desenvolvimento e constrói um país mais justo. Essa é uma reflexão que o Brasil precisa fazer — agora.

*Presidente da Feintramag