Em 2021 o perfil da demanda no meu atendimento psicopedagógico sofreu alterações. Antes, crianças com dificuldades no aprender, hoje muitos são os que foram aprovados no ano de 2020, sem assimilar os conteúdos escolares. Isso é preocupante, pois neste ano as aulas na rede pública continuam no modo on-line, outros nem aula tem, apenas retiram na escola pequenos exercícios e devem estudar em casa. Pais que não tem condições de auxiliar nas atividades por inúmeros motivos, outros tentam, mas mesmo assim não possuem a didática pedagógica e nem devem se sentir culpados, afinal, não estudaram para isso. Uma defasagem de aprendizagem anunciada!

As crianças e jovens da rede particular do mesmo modo sofreram prejuízos com a pandemia, pois em 2020 praticamente não tiveram aula presencial. Não estou procurando culpados. Com certeza os professores além de se reinventarem tiveram um desafio enorme e deram o seu máximo para que o ensino continuasse, porém, a exigência de conteúdos continuaram como se tudo estivesse normal e praticamente quem “pegou, pegou” quem não compreendeu ficou com lacunas em aberto. Que dificilmente serão sanadas, pós-pandemia.

Vi crianças no terceiro ano escolar no nível Pré-silábico. Para quem não sabe, antes de se tornar alfabética a criança passa por níveis da escrita segundo Emília Ferreiro. No Portal da Educação podemos encontrar um resumo no qual personalizei:

Alerta: Defasagem na aprendizagem, pós-pandemia!

Sabendo disso, reflita comigo: uma criança que não sabe ler nem escrever no terceiro ano escolar tem condições cognitivas e emocionais para acompanhar essas aulas?

O nível de exigência da leitura, escrita, raciocínio lógico nesta série com certeza será maior. Fora que conteúdos novos serão inseridos. Em matemática já estarão entrando na ideia de multiplicar. Ela pode exercitar a multiplicação sem antes ter assimilado adição e subtração? Figuras planas, com eixo em simetria, localização de coordenadas, problemas matemáticos também serão trabalhados. Esses conteúdos poderão ser assimilados sem o educando ter adquirido conhecimentos prévios?

Em Língua Portuguesa trabalharão poesias, linguagens formais e não formais, produções textuais, sílaba tônica, acento gráfico (dentre outros). Como uma criança que está no nível Pré-silábico poderá estudar acento gráfico se nem sabe os fonemas?

Pós-pandemia o número de crianças e jovens com dificuldades na aprendizagem vai aumentar. Não por apresentarem algum distúrbio ou transtorno, mas por não terem tido uma aprendizagem correta e significativa. A procura por psicólogos e psicopedagogos do mesmo modo.

Normalmente a criança que não acompanha os conteúdos fica agitada, desatenta, frustrada, desinteressada, com baixa autoestima, alguns casos se agravam para depressão, ansiedade, agressividade, compulsividade (dentre outros). Sinais de alerta para as famílias procurarem assistência, pois quanto antes identificarem, maiores as chances de tratamento com êxito e menos sequelas negativas no desenvolvimento.

Uma maneira que encontrei de auxiliar famílias que estão com crianças em casa foi criar uma apostila personalizada. Normalmente ela faz o acompanhamento psicopedagógico comigo, mas em casa realiza as atividades da apostila com os responsáveis. Eu faço a avaliação desta criança e sei exatamente do que ela precisa para ser estimulada. Pergunto para os pais seus interesses, personagens favoritos, dentre outras peculiaridades do menor e crio exercícios e atividades personalizadas de letramento, raciocínio lógico matemático, coordenação motora e se necessitar também das demais disciplinas. Tem dado certo, inclusive para aprendentes que atendo de forma virtual em outros estados. O importante é não deixar as crianças sem estímulos, isso precisa ficar evidente para os responsáveis, do contrário ela poderá ter dificuldades para avançar e quando a pandemia acabar defasagens nas aprendizagens poderão surgir.

Outra preocupação é com o desenvolvimento social das nossas crianças e jovens. Com a pandemia alguns impactos do isolamento social podem surgir. Jovens e crianças não tem maturidade cognitiva nem emocional plenamente desenvolvida. Se para os adultos é estressante, imagina para eles. Alterações no sono, estresse, irritabilidade, ansiedade, emoções a flor da pele acontecem nesse período. Como cuidar da saúde mental? Neste contexto, manter a interação social, mesmo que a distância pode ser a chave para amenizar os efeitos negativos da quarentena.

Sei de casos em que as crianças na aula presencial infelizmente não podem se aproximar dos colegas. Não compartilham brinquedos, objetos, materiais. Sendo uma maneira de evitar a propagação do vírus. Mas já pensaram no impacto que isso vai ocasionar pós-pandemia?

É indiscutível a relevância do brincar e interagir para o desenvolvimento infantil. Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um dos seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento da criança. Para conhecimento segue os outros: 1. Conviver, 2. Brincar, 3. Participar, 4. Explorar, 5. Expressar, 6. Conhecer-se.  Impossibilitar essa interação irá impactar no desenvolvimento dos nossos pequenos. Serão mais egoístas? Menos solidários? Individualistas? Carentes de interação? Inseguros? Só o tempo irá nos dizer.

Outra maneira que procurei  (juntamente com meu marido pedagogo Maximiliano Sousa)foi auxiliar às famílias com a elaboração do E-book: REFLEXÕES SOBRE ATIVIDADES LÚDICAS EM TEMPOS DE PANDEMIA. Lá apresentamos dicas de rotina e atividades para desenvolver e estimular as crianças em casa, propiciando da mesma forma a interação social entre os familiares.

Nossa querida ex-professora do Curso de Pedagogia e autora dos livros didáticos Matemática da Minha Vida – Ana Cristina Souza Rangel, descreveu no prefácio:

O período da pandemia gestou, no casal, um melhor jeito de exercer a tarefa educativa, reafirmando seus estudos acadêmicos e a postura de educadores pesquisadores. Essa transformação foi tão animadora que os impulsionou a registrar, sistematizar e compartilhar suas experiências com outros pais que também estão enfrentando novos tempos de convivência familiar. Nasceu, então, esse E-book. Juliana e Maximiliano, articulam estudos acerca do desenvolvimento da criança e da aprendizagem, com a necessidade de se criar formas novas de relacionamento com os filhos para que estes se sintam mais seguros, valorizados e motivados à aprendizagem. […] Observa-se, ao longo da leitura, que as propostas convergem para que a aprendizagem da criança ocorra por meio de experiências que favoreçam o fortalecimento do vínculo afetivo na relação pais e filhos. Portanto, um texto agradável de ler e inspirador para as famílias que também desejam favorecer a aprendizagem de seus filhos, reinventado novos modos de conviver e de ser mais feliz. (Rauzer e Sousa, 2020 p. 07).

Acredito que se cada um de nós nos dispusermos a contribuir com nossos conhecimentos, experiências  e força de vontade nosso mundo pode se tornar melhor. Que possamos sair dessa pandemia mais fortalecidos, principalmente com a consciência tranquila que fizemos o melhor para o desenvolvimento das nossas crianças e jovens. Diminuindo ao máximo sequelas que essa pandemia pode deixar na aprendizagem dos nossos educandos.

Até a próxima semana,

Juliana Rauzer da S. Sousa

Pedagoga, Psicopedagoga, Especialista em Educação Especial e Neuropsicopedagoga.

Facebook: PSICOPEDAGOGA JULIANA RAUZER

E-book está disponível no site do Amazon, Simplíssimo, Google Play dentre outras plataformas digitais

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