Por: Juliana Rauzer

Vamos esclarecer que responsabilidade é totalmente diferente de obrigação infantil, ok? Trago neste artigo a importância de pequenas atividades que as crianças desde cedo podem desempenhar estimulando assim o comprometimento, responsabilidade, organização, coordenação, autonomia, cooperação, engajamento com as atividades do dia a dia.

Se você pedir ajuda para separar as calcinhas, cuecas e meias o estímulo é matemático, pois estará trabalhando a classificação, além disso, ela pode classificar por tamanhos, cores. Ao dobrar (mesmo que do jeitinho dela) é coordenação motora, atenção, observação. Para guardar ela abre e fecha a gaveta, trabalhando assim noções espaciais (dentro e fora). As letras iniciais, sílabas, formas também podem ser estimulada. De um jeito divertido ela se sente útil lhe ajudando e ao mesmo tempo está construindo noções importantes para o seu desenvolvimento.

Nos atendimentos psicopedagógicos atendo algumas crianças com defasagem na aprendizagem. Algumas delas possuem comprometimento motores (07/08 anos de idade), porque não foram estimuladas previamente. Não se vestem sozinhas, não penteiam o cabelo, nem escovam os dentes e infelizmente algumas com mais de cinco anos não se alimentam sozinhas.

Os pais sem inculpabilidade acreditam que estão ajudando, fazendo por eles, mas não sabem que estão na verdade instituindo totalmente o oposto disto. Ou se sabem, justificam dizendo:

– É que ele (a) demora muito, então é mais rápido eu fazer!

– Não temos muito tempo juntos, então o pouco que estamos perto quero fazer tudo para ele (a)!

– Ele (a) não sabe fazer sozinho (a), precisa de mim!

E por aí vai… É importante compreender que a criança é um ser em construção. Realmente não vai sair fazendo tudo perfeitamente ou do jeito que o adulto gostaria, mas se não oportunizar a experiência como ela vai amplificar seus conhecimentos?

Quem nunca ouviu a frase: É errando que se aprende? Pois bem, é por aí mesmo. Precisamos oportunizar a tentativa, permitir o experimentar, controlar nossos medos, ansiedade de querer fazer tudo apressado e por eles. Incentivar mais, elogiar sempre e permitir as tentativas com paciência e amor.

Içami Tiba nos diz: não é errando que se aprende, mas sim corrigindo o erro!

Como os responsáveis vão corrigir o equívoco, se muitos deles não permitem que a criança erre? Depois querem que sejam autônomos, estudem, trabalhem, mas será que irão se adaptar a vida adulta com rotina, compromissos e responsabilidades sem dificuldades? Foram incentivadas para isso?

É preciso aceitar os pequenos equívocos. Deixe colocar a roupa do avesso, o chinelo trocado, o cabelo imperfeito. Quando a criança fizer algo sozinha elogie, diga o quanto está orgulhoso (a) dela.

Deixe a criança perceber que ao caminhar tem algo errado ali e que ela se “dê conta” que o calçado está virado. Não faça tudo por ela, se fizer pode ter certeza que não estará contribuindo positivamente para o seu desenvolvimento e dificuldades futuras poderão surgir.

Na vida adulta podemos observar pessoas que possuem dificuldades porque não foram estimuladas no tempo certo. Algumas não possuem boa noção de direita/esquerda, outros não conseguem estacionar o carro em uma vaga. Quando tentam fazer um arroz deixam queimar, não conseguem arremessar uma bola corretamente, subir em uma árvore sem dificuldades… E por aí vai… Desatenção? Sem noção espacial? Sem habilidade? Talvez, mas tenho certeza que faltou estímulo aí!

O senso de responsabilidade na infância seguirá para a vida adulta. As crianças gostam de imitar os comportamentos das pessoas que a cercam, isso porque nesta fase começa a desenvolver o senso de independência. Por isso é fundamental que os responsáveis deem bons exemplos. Por anos seremos os principais espelhos para o comportamento deles.

Dificilmente uma criança que briga frequentemente na escola tem um lar harmonioso. Se ela grita, bate nos colegas é bem provável que ela é agredida e ouve gritos em casa. Porque ela reage assim com os amiguinhos? Porque é a forma que ela compreendeu que se resolvem as coisas.

Para que as crianças e adolescentes lidem com os desafios e frustações da vida é muito importante desde pequenos serem estimuladas com deveres. Do contrário tendo só direitos podem desenvolver uma crença de que não tem obrigações e ser aquele adolescente ou jovem adulto que “não quer nada com nada”. Os famosos “sangue sugas”, filhos “parasitas”, mas será que são assim porque tem pais “hospedeiros”?

Conforme a criança vai se desenvolvendo você pode distribuir tarefas que sejam pertinentes a faixa etária. Por gostar de imitar os adultos é bem provável que vão amar participar das de cada atividade.

Não estimule a divisão de tarefas de menina e menino. Em casa, todos são responsáveis, os dois gêneros tem a mesma capacidade de executar as  atividades. Algumas famílias inclusive revezam as tarefas para que não se torne repetitiva. Ou seja, segunda-feira quem coloca água nas plantas é a menina, na terça o menino. Mas nunca dividindo as tarefas por ser homem ou mulher.

Nathalia Pontes, coordenadora educacional da plataforma PlayKids, informa que cada criança tem seu ritmo.

 “Executar tarefas de casa é como qualquer outro aprendizado para as crianças e cada um tem seu tempo. É importante que os pais se atentem a isso quando forem ensinar aos pequenos as atividades diárias. Ao introduzir as tarefas de forma gradual, arrumar a casa deixa de representar algo ruim e se torna parte da vida deles. É fundamental que essas tarefas sejam acompanhadas de um adulto, isso vai garantir que sejam executadas com segurança. Por isso, pais, mães e responsáveis precisam ser pacientes e deixar o perfeccionismo de lado, para que possam entender as dificuldades das crianças e direcionar para o melhor caminho”.

Baseado em estudos, criei essa tabela com sugestões de atividades respeitando cada faixa etária:

Artigo: Responsabilidade Infanto-Juvenil aliada ao senso de cooperação e autonomia

A educadora Bete P. Rodrigues nos diz que a quarentena é um bom momento para incentivar as crianças na cooperação. “Esta é uma excelente oportunidade de ensinar (e aprender) a se ‘virar sozinho’. As crianças e adolescentes podem se motivar a contribuir se todos estiverem fazendo suas tarefas no mesmo horário”.

Ajudar os familiares fortalece a autoestima, pois eles se sentem parte da família sendo útil na organização do lar. Várias habilidades são desenvolvidas, a noção de responsabilidade, cuidado, independência, autonomia  que são tão importantes para enfrentarem os desafios do dia a dia, pode ser ensinado por você. Mas lembre-se: “criança não trabalha, criança dá trabalho!” Como diz a música da Palavra Cantada.

Reafirmo isso para não haver confusão na hora de pedir a colaboração do seu (a) filha (a). No meu ver quem tem obrigação com casa, comida, roupas são os adultos. Essas pequenas atividades são apenas para desenvolver esses valores mencionados, mas não devem sobrecarregar a criança. Elas precisam brincar, estudar, brincar e brincar e no intervalinho ajudar, ok?

Espero ter colaborado.

Deus abençoe e até a próxima semana.

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Juliana Rauzer da S. Sousa

Pedagoga, Psicopedagoga, Especialista em Educação Especial e Neuropsicopedagoga

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