Quando se fala em Alzheimer, a conversa geralmente se concentra no espaço entre o silêncio das lembranças que se apagam e a perda progressiva de si mesmo. Mas, por trás de cada memória que desvanece existe uma pessoa com história, sentimentos e identidade e, de acordo com o neurologista Pedro Levi, coordenador do Ambulatório de Cognição do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), vinculado à HU Brasil, o Alzheimer não apaga tudo isso de uma vez.
“Quem somos nós se não sabemos onde nascemos, quem são nossos pais, com quem convivemos, nossas dores e felicidades? Felizmente, essa memória de longo prazo é tão bem protegida no cérebro que mesmo a Doença de Alzheimer pode demorar anos para chegar a comprometê-la”, ressalta o médico.
O esquecimento não apaga quem a pessoa foi
A expressão “perda de memória“, que costuma ser o sintoma popularmente relacionado ao Alzheimer, refere-se à síndrome clínica que, na neurologia, é chamada de “amnésia anterógrada”, ou seja, o prejuízo da memória de curto prazo. “Em pessoas com a doença, essa memória recente falha, e tanto o paciente quanto aqueles ao redor já notam que algo está muito estranho”, observa Pedro.
De acordo com o neurologista, o cérebro humano conta com estruturas chamadas hipocampos, responsáveis pela primeira consolidação das memórias. “Se lembramos onde guardamos um objeto ou que deixamos uma panela no fogo, isso tem relação direta com a capacidade dos hipocampos, de fazer essa primeira armazenagem. Essa função é primordial para a independência de um ser humano na sua vida cotidiana, e constitui o primeiro mecanismo a ser degenerado na maioria dos pacientes com Alzheimer”, contextualiza.
No entanto, diferente da memória de curto prazo, que depende do armazenamento nos hipocampos, as memórias biográficas e as memórias procedurais [tipo de memória de longo prazo que armazena habilidades motoras, hábitos e ações automáticas, permitindo realizá-las sem esforço consciente] permanecem armazenadas em outras estruturais cerebrais menos sensíveis a neurodegeneração em estado inicial. São elas: estruturais neocorticais frontais, sistema límbico, gânglios da base e cerebelo.
Logo, apesar de a Doença de Alzheimer destruir gradualmente a infraestrutura cerebral necessária para acessar memórias recentes, planejar o futuro e processar novas informações, isso não anula a biografia, a identidade profunda ou a essência do indivíduo. “Ainda que até a personalidade da pessoa possa mudar drasticamente em alguns casos, a história de vida, os valores arraigados e o impacto que essa pessoa deixou no mundo permanecem intactos na memória e no afeto de quem convive com ela”, explica Pedro. “Olhando por um prisma filosófico, alguém só pode ser esquecido se as pessoas ao seu redor esquecerem dele”, acrescenta.
Não lembrar x não sentir
Segundo a ciência, pacientes com Alzheimer podem não lembrar do nome de alguém, mas ainda reagir emocionalmente àquela pessoa, pois existe uma distinção neurológica entre a memória e a emoção. “O reconhecimento cognitivo e a evocação de nomes dependem de redes corticais complexas de linguagem e identificação, que se deterioram com vários tipos de demência. Porém, a memória afetiva e o processamento emocional são mediados pela amígdala e pelo sistema límbico, estruturas primitivas que costumam ser muito mais resistentes, mantendo a integridade funcional por períodos prolongados. Por isso, o indivíduo perde o acesso racional à identidade de alguém mas retém os sentimentos relacionados àquela pessoa”, explica o neurologista.
Daí vem a importância de manter na rotina de uma pessoa com a doença os elementos que fizeram parte de sua história, já que eles funcionam como símbolos capazes de ultrapassar o dano cognitivo de linguagem ou memória recente, e acessar redes neurais relacionadas aos sentimentos de bem-estar, conforto e segurança. “O cheiro de uma planta conhecida ou o som de uma música da juventude podem ser essenciais para controlar estados de agitação, facilitar o processo de adormecimento e manter positivo o estado de humor do paciente”, esclarece Pedro.
Preservar a autonomia é essencial
Para o especialista, os principais erro que podem ser cometidos por familiares e outros membros da rede de apoio de um paciente com Alzheimer são a infantilização e a exclusão precoce de decisões cotidianas, o que acelera a perda de capacidades remanescentes, além de gerar frustração. “A família também costuma superproteger, proibindo o paciente de realizar tarefas que ele ainda domina, ou ignorar suas tentativas de comunicação por considerá-las incoerentes. Para evitar essas armadilhas, deve-se adotar o princípio da validação emocional em vez de confrontar delírios, focar no que o indivíduo ainda consegue executar de forma independente e tratá-lo sempre com a dignidade correspondente à sua história de vida adulta”, enfatiza.
Nesse contexto, a preservação da autonomia exige a transição para um modelo supervisionado, que consiste em simplificar tarefas e adaptar o ambiente em vez de suprimir ações. “Isso envolve remover riscos críticos, como chaves de fogão desprotegidas ou acesso a substâncias tóxicas, mas manter escolhas cotidianas viáveis, como selecionar entre duas roupas previamente separadas ou decidir o horário do banho”, exemplifica o médico, fazendo questão de frisar que o foco deve ser criar rotinas e antecipar perigos estruturais, permitindo que o indivíduo conduza as atividades possíveis dentro de uma margem segura.
Esquecimentos comuns ou sinais de alerta?
A melhor forma de analisar se alguém está passando por episódios de falha na memória que são considerados comuns para o processo de envelhecimento é associando o esquecimento patológico ao prejuízo na capacidade funcional, ou seja, se a memória falha e as atividades cotidianas começam a não ser realizadas, ou passam a ser feitas com dificuldade, pode ser que exista um problema neurológico que deve ser investigado.
Ainda assim, a neurologia moderna oferece mais exames simples e eficazes voltados, inclusive, para o diagnóstico precoce. Portanto, se uma pessoa tem mais de 50 anos e está passando por eventuais episódios de esquecimento, ainda que esses não afetem a rotina, é recomendável procurar um neurologista. “Hoje temos ferramentas adequadas para chegar a conclusões melhores que antigamente, e isso pode mudar totalmente o quadro”, conclui o neurologista.

