De repente tudo mudou. O ensino passou a ser virtual. Um desafio para as escolas, alunos e famílias

Por Juliana Rauzer

As crianças possuem um período curto de concentração. Isso porquê o cérebro está no processo de desenvolvimento das Funções Executivas que pode estar “pronto” por volta dos vinte e cinco anos, segundo especialistas. Essas funções são responsáveis também pelo foco e atenção. Por este motivo muitas famílias precisam “vigiar” e exigir atenção da sua criança ou adolescente nas aulas virtuais.

Como ajudar no estímulo da atenção?

Para que a capacidade de concentração seja ampliada o treinamento é fundamental. Pode-se oportunizar jogos de quebra cabeça para estimulação, mas lembre-se: o foco precisa estar só no jogo! Por tanto, nada de televisores ligados, utilização de celulares e outros recursos que possam desviar a atenção.

Prepare o ambiente para ser confortável. Com exercícios as Funções Executivas serão instigadas. Outras opções que beneficiam o aumento da atenção são jogos de xadrez, passatempo com labirintos, jogo da memória, sete erros, entre outros, inclusive existem aplicativos que ajudam a treinar as habilidades de memória, atenção, foco, raciocínio lógico. Um exemplo é o PEAK- TREINAMENTO CEREBRAL. O aplicativo oferece 25 jogos onde á agilidade mental, linguagem, resoluções de problemas são disponibilizadas.

A rotina é fundamental

Antes de treinar a atenção é fundamental uma rotina organizada. Os estudantes precisam compreender que mesmo não estando na escola eles terão horários e deverão seguir a risca. A hora da aula é a oportunidade de aprender, mas também de tirar dúvidas, interagir com colegas e professores. Após a aula tirar um tempo livre é indicado, porém a rotina de estudos deve continuar com exercícios, leituras, revisões, pois a aprendizagem é adquirida conforme estudamos, treinamos e assimilamos os conteúdos. O ambiente de estudo precisa ser adequado.

Aulas remotas não são para todos!

Vivemos em um país com uma desigualdade social descomunal. Grande parte da população não tem acesso a uma internet de qualidade, e algumas famílias nem possuem. Como esses aprendentes tem realizado os estudos? Infelizmente muitos não estão. Alguns vão trabalhar com os pais, outros ficam em casa, mas sem acesso aos conteúdos didáticos. O que futuramente pode prejudicar ainda mais a sociedade carente que não tem a mesma oportunidade dos outros estudantes. Sendo um grande desafio para as escolas que atendem crianças e jovens de baixa renda.

E o psicológico dos professores?

Para os professores o desafio também é enorme. Já não basta o estresse com a Pandemia, sua maneira de lecionar mudou bruscamente. É muito diferente uma aula presencial do ensino à distância. Esses profissionais tiveram que se reinventar. O Home Office sempre existiu para o professor, ele nunca parou de trabalhar depois que saía da escola. Múltiplas eram suas obrigações após o expediente: realização de planejamento mensal, semanal, correções de provas, textos, exercícios, confecção de materiais, atividades, etc. É um pouquinho do que ele fazia em casa e continua, só que agora com mais desafios, fora os custos extras. Muitos estão em jornada dupla sendo cobrados a todo o momento. A pressão aumentou e muito.

É diferente quando se tem quatro aulas de ensino presencial onde existe a interação, olho no olho, risadas, pega na mão para auxiliar na escrita correta. Agora às quatro horas em frente da tela é no mínimo desafiador. Tanto para os professores quanto para aos alunos. Porém foi a forma que encontraram de amenizar os “prejuízos” causados pelo COVID-19.  Se é acertado ou não só o tempo vai nos dizer.

Como deve estar o emocional e o psicológico desses professores? E dos pais que em grande maioria não tem formação pedagógica e tão pouco psicóloga para lidar com os desafios do ensino remoto?

Existe estresse para os familiares e estudantes

Tenho escutado no consultório que o estresse é gigante. Pais não tem paciência para ensinar, filhos estão sem interesse para aprender o que pode gerar conflito familiar e refletir negativamente na aprendizagem do aluno. É uma realidade desconhecida para todos. Sentimentos de angustia e frustração fazem parte do cotidiano pandêmico.

O que me preocupa são as crianças em processo de alfabetização. Elas irão passar de ano, mas será que assimilaram os requisitos básicos para adentrar em uma nova série escolar?

Costumo dizer para os pais dos meus aprendentes:

“Nossas crianças são como um prédio, se a base não está boa com certeza o edifício sofrerá prejuízos, podendo até mesmo desmoronar”.

Os estudantes de famílias mais abastadas tem suporte de professores particulares, estrutura aconchegante para estudo em casa, acesso à internet de qualidade, familiares alfabetizados, materiais e recursos próprios para auxiliar o aprender. E as que não tem a mesma oportunidade? As que sofrem com violência doméstica? trabalho infantil? Ficarão mais atrasadas, aumentando ainda mais a desigualdade social. Infelizmente.

Estimulem o desenvolvimento infantil

É importante que chegue para famílias mais carentes a importância dos estímulos básicos para o desenvolvimento infantil. Muitos pais trabalham em dupla, tripla jornada e quase não tem tempo para cuidar do desenvolvimento do filho. Alguns familiares cuidam das crianças, mas nem sempre estão preparados para desenvolvê-los corretamente. Quando escrevemos o E-book Reflexões sobre atividades Lúdicas em tempos de Pandemia foi com essa intenção: auxiliar famílias a estimularem suas crianças, pois lá na frente poderá surgir dificuldades que foram causadas pela falta de atividades adequadas para a faixa etária. Nele meu marido pedagogo, Maximiliano e eu citamos:

“Por meio das brincadeiras a criança articula conhecimentos relativos ao tempo, espaço, objetos, corpo e também expressa seus sentimentos e o que vivencia. Ao brincar ela exprime seus medos, angústias, desejos e problemas que esteja enfrentado”. (RAUZER E SOUSA, 2020 p. 14).

A psicomotricista Cacilda Velasco, em seu livro Brincar: o despertar psicomotor complementa nosso raciocínio:

“Brincando a criança desenvolve suas capacidades físicas, verbais ou intelectuais. Quando a criança não brinca, ela deixa de estimular, e até mesmo de desenvolver as capacidades inatas podendo vir a ser um adulto inseguro, medroso e agressivo. Já quando brinca a vontade tem maiores possibilidades de se tornar um adulto equilibrado, consciente e afetuoso.” (VELASCO, 1996 p.78)

Portanto, além das aulas remotas devemos nos atentar sobre a importância dos estímulos que devemos proporcionar para que nossas crianças e adolescentes tenham um bom desenvolvimento.

Deus abençoe e até a próxima semana!

Juliana Rauzer da S. Sousa

Pedagoga/Psicopedagoga/Especialista em Educação Especial

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