A politização de vacinas não é fato novo. Que o diga Oswaldo Cruz, duramente atacado por Ruy Barbosa no episódio conhecido como a Guerra da Vacina, mobilizando a população contra a imunização da varíola, doença hoje erradicada. Durante uma semana, em novembro de 1904, os protestos foram crescentes, culminando com dura repressão que deixou um saldo de 30 mortos, além de quase 1.000 presos.

Logo, não surpreende o furor das hostes bolsonaristas  contrárias ao passaporte da vacina, que tomaram a Câmara Municipal de Campo Grande na audiência pública destinada a tratar o tema. Com comportamento muito distante da educação mais elementar, apupavam, vaiavam quem fosse favorável à medida, chegando ao extremo de impedirem a fala do Secretário de Estado de Saúde, Geraldo Resende.

No calor do momento, em meio a balburdia, ele pronunciou palavras incisivas, deixando claro o seu lado, em um discurso emocional, no qual reafirmou o seu radical compromisso com a Vida assumido  diuturnamente na gestão da pandemia da Covid-19 em nosso Estado, numa atuação elogiada e reconhecida publicamente.

Não por acaso, Mato Grosso do Sul apresenta há meses a maior taxa de vacinação do país, fato capitalizado pelo Governo, pois, sem dúvida, trata-se de um grande feito conduzido pelo Secretário de Saúde, com o apoio dos secretários municipais e dos trabalhadores de saúde.

Então, o governador Reinaldo Azambuja, pressionado pelas entidades que representam os interesses especialmente do comércio, desautorizou Geraldo Resende, ao afirmar que sua fala era de caráter pessoal e não representava a posição do Governo.  Atitude reprovável com um auxiliar que tem dado visibilidade positiva à gestão de V. Excia.

Na sequência o Governador desencadeia a operação recuo, com o apoio dos auxiliares que integram o Prosseguir e decreta o fim da discussão sobre o passaporte da vacina. Lamentável que não se tenha observado uma regra elementar de nosso ordenamento jurídico: a supremacia do interesse coletivo sobre o individual.

Sabemos da importância da atividade econômica para assegurar empregos, empreendedorismo, oferta de serviços públicos e tudo o que faz girar a roda da economia e das realizações públicas e privadas. Sabemos também que sem saúde, com morte, decrescem os níveis de consumo. Há que ter equilíbrio.

O impacto da vacinação sobre a doença acontece quando, no mínimo, 70% de uma população estiver imunizada e, quanto mais, melhor;  é fato que não basta a proteção individual e, portanto, a “liberdade” de não se vacinar importa em prejuízo para a coletividade; aqui há, sobretudo entre os mais jovens, resistência à vacina;  diante dessas evidências, impõe-se a adoção de medidas coatoras para se atingir a imunidade coletiva e, assim, enfrentar essa pandemia.

Há como se garantir a manutenção das atividades comerciais e, simultaneamente, pressionar os recalcitrantes a se vacinar. É possível construir um passaporte equilibrado, que contemple essas duas vertentes. Minha geração para se matricular na escola era obrigada a apresentar o atestado da vacina antivariólica; ela produzia uma grande ferida e deixava uma cicatriz que todos temos. Ninguém se sentia oprimido, ninguém morreu por conta disso. É preciso tratar esse tema tecnicamente, cientificamente, sem ideologia.

Por isso, senhor Governador, reconsidere sua posição. Sabemos que as entidades representativas das chamadas classes produtoras são poderosas, mas a cidadania também o é e deveria, também, ser considerada.

Paulo Cabral, sociólogo e professor

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