Mesmo com expectativa de safra melhor, estoques apertados, câmbio e exportações ainda sustentam os preços.
O brasileiro que passou o último ano pagando mais caro pelo café ainda terá de esperar para ver um alívio nas prateleiras. Apesar das projeções de uma safra maior, especialistas e representantes da indústria afirmam que a redução não acontece de forma imediata e depende de uma combinação de fatores no Brasil e no exterior.
Dados recentes da Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café) mostram que o preço alto não é só uma sensação do consumidor: há efeito direto no consumo. Entre novembro de 2024 e outubro de 2025, o consumo da bebida no Brasil caiu cerca de 2,31%, passando de 21,9 milhões para 21,4 milhões de sacas de 60 kg.
A retração ocorre em meio a um cenário de forte alta acumulada. Nos últimos cinco anos, a matéria-prima subiu mais de 200% — 201% no conilon e 212% no arábica —, enquanto o café no varejo aumentou em média 116% no período. Esse contexto ajuda a explicar por que o mercado segue cauteloso em relação a quedas rápidas.
Para Roberta Paffaro, mestre em economia e gestão do agronegócio pela FGV (Fundação Getulio Vargas), a melhora nas estimativas não significa oferta disponível de um dia para o outro.
“Expectativa não é oferta. Safra maior no papel não enche armazém amanhã. O preço só cede de forma consistente quando a melhora aparece no mundo real: clima confirmando, colheita acontecendo, café entrando na cadeia”, afirma.
Segundo ela, enquanto houver risco de problemas climáticos ou surpresas na produção mundial, o mercado mantém uma espécie de prêmio embutido nas cotações. “É por isso que os preços podem cair um pouco, mas raramente cairão de uma vez”, diz.
O câmbio também continua sendo peça-chave. Como o café é uma commodity negociada globalmente, a formação do preço no Brasil passa pelas bolsas internacionais e pelo dólar. “Se o dólar sobe, o café em reais resiste a cair, mesmo quando o mercado lá fora alivia”, resume a especialista.
Quando a queda chega ao supermercado?
Mesmo quando há algum recuo nas negociações entre produtores e indústria, o consumidor é o último da fila a perceber a diferença. “Quando o custo mais baixo entrar na nota fiscal da indústria — não quando o preço oscilar na tela. O varejo trabalha com estoque, contrato e reposição. Na prática, o consumidor sente antes promoções e descontos pontuais do que uma queda real de tabela”, explica Roberta.
Segundo o diretor executivo da Abic, Celírio Inácio, as redes ainda comercializam produtos adquiridos em momentos de preços mais altos.
“O varejo ainda está vendendo café comprado a custos elevados e formados em um período de preços altos da matéria-prima. Além disso, a cadeia segue operando com estoques curtos, o que impede reduções imediatas nas gôndolas”, afirma.
De acordo com ele, a recomposição leva tempo e não depende apenas de uma safra favorável. “Normalmente, é preciso mais de um ciclo produtivo positivo e vários meses após a colheita para que o mercado se sinta confortável”, diz.
Para 2026, a entidade prevê um ambiente menos pressionado, mas ainda sem espaço para recuos bruscos. “A expectativa é de maior equilíbrio, mas o varejo ainda pode sofrer ajustes pontuais de preço, dependendo do custo de reposição, do câmbio e da pressão logística. Não se espera uma queda abrupta no curto prazo”, afirma.
Produzir muito não garante café barato
Embora o Brasil seja o maior produtor mundial, isso não significa preço automaticamente menor para o consumidor local. “O Brasil joga num mercado global: se o exterior paga mais, o grão tem rota de saída — e isso segura o piso de preços aqui dentro”, afirma Roberta.
Além da matéria-prima, outros custos também entram na conta do supermercado, como embalagem, energia, logística, impostos e distribuição, o que pode atrasar ou suavizar eventuais quedas.
O que precisa acontecer para o preço cair
Para que o consumidor veja valores menores de forma mais clara, seria necessário um conjunto de condições favoráveis. “Seria preciso um ciclo positivo completo: safras maiores e regulares, recomposição de estoques, redução consistente do custo da matéria-prima e ambiente competitivo no varejo”, afirma Celírio.
Na avaliação de Roberta, mesmo em um cenário otimista, o consumidor não costuma ser o primeiro a sentir o movimento. “O consumidor não é o primeiro a sentir a alta — e não é o primeiro a sentir a queda”, conclui.
Fonte: R7

