Com a entrada de Pollon e a possível inclusão de Gianni, o número de pretendentes do PL às duas vagas salta para quatro
A crise aberta no PL de Mato Grosso do Sul depois que o ex-presidente Jair Bolsonaro lançou o deputado federal Marcos Pollon como seu candidato ao Senado tem momento decisivo nesta quarta-feira (4), em Brasília.
O ex-governador Reinaldo Azambuja e o governador Eduardo Riedel (PP) se devem se reunir com o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, e com o presidente nacional do partido, Valdemar da Costa Neto, numa tentativa de salvar o acordo político que levou a dupla a deixar o PSDB e reorganizar o mapa partidário da direita no Estado.
O encontro foi provocado pela carta em que Bolsonaro deixou claro que pretende indicar pessoalmente os candidatos ao Senado do PL em todo o país, mas antecipou sua preferência por Pollon. Nos bastidores do bolsonarismo, o gesto é interpretado como sinal de que o ex-presidente, que está preso na Papudinha, em Brasília, pode ainda indicar um segundo nome — a vice-prefeita de Dourados, Gianni Nogueira.
Se isso ocorrer, a costura política construída em setembro do ano passado, quando Reinaldo se filiou ao PL, pode fazer água. O acordo firmado com Valdemar da Costa Neto previa que o partido teria como candidatos ao Senado o próprio Azambuja e o ex-deputado Renan Contar, o Capitão Contar. Com a entrada de Pollon e a possível inclusão de Gianni, o número de pretendentes do PL às duas vagas salta para quatro. Pollon e Gianni aparecem em pesquisas internas com preferência inferior a 6%.
A mudança, imposta pela intervenção direta de Bolsonaro, ameaça dividir a direita sul-mato-grossense e pode afetar inclusive o conjunto de alianças que Azambuja vinha costurando para sustentar a candidatura de Riedel à reeleição em 2026.
Uma ferida aberta desde 2022
A possibilidade de ruptura, que até então circulava apenas nos bastidores, ganhou forma com a divulgação da carta pela ex-primeira dama Michelle Bolsonaro. O gesto não apenas altera a correlação de forças dentro do partido como reabre uma ferida política ainda recente: a lembrança da eleição de 2022, quando o então presidente interferiu na disputa pelo governo estadual e acabou declarando neutralidade após um episódio que desgastou a relação com aliados locais.
Naquele momento, lideranças do então PSDB sul-mato-grossense — entre elas Azambuja e Riedel — operavam sob a expectativa de alinhamento com o Palácio do Planalto. A sinalização de apoio presidencial fazia parte da engenharia política do grupo.
O episódio deixou marcas e expôs o peso da vontade pessoal do então presidente sobre acordos regionais. Na prática, mostrou que, no bolsonarismo, a palavra final costuma vir de Brasília — ainda que isso custe a coesão local.
Depois das migrações partidárias que redesenharam o mapa político do Estado — Azambuja assumindo o comando do PL e Riedel ingressando no PP — o grupo volta a se ver diante de uma intervenção direta do ex-presidente. Até a divulgação da carta, o diretório estadual trabalhava com os nomes de Azambuja e Capitão Contar para disputar o Senado.
A entrada de Pollon com a chancela explícita de Bolsonaro transforma o que era uma articulação interna em uma disputa aberta dentro da legenda.
A engenharia da segunda vaga
Nos bastidores, dirigentes admitem que o cenário “embolou”. Uma das poucas saídas para evitar o rompimento seria convencer Bolsonaro a aceitar que Pollon dispute a reeleição para deputado federal e que Gianni permaneça como vice-prefeita de Dourados — solução que, segundo interlocutores do partido, era a tese original defendida por Valdemar da Costa Neto. A outra hipótese é um rearranjo que inclua uma indicação do PL cini candidato a vice de Riedel este ano.
Diretor do IPEMS (Instituto de Pesquisas de Mato Grosso do Sul), o analista político Lauredi Borges Sandim avalia que o desfecho é incerto, embora reconheça a experiência política de Azambuja.
“Pode haver uma reviravolta partidária, sim”, afirma.
Segundo ele, Azambuja sabe que Bolsonaro é um ator político imprevisível e dificilmente ficará esperando indefinições até a última hora.
“Ainda existe janela partidária nos próximos 30 dias. Isso permite mudança de rumo.”
Lauredi observa que, diferentemente do que se imaginava quando o comando regional foi entregue a Azambuja, a decisão final tende a permanecer concentrada em Bolsonaro.
“Quem tem voto é o Bolsonaro. O Valdemar não vai contra o que ele fala”, resume
O critério das pesquisas
Na carta divulgada nas redes sociais, o ex-presidente afirma que, “pelo caráter, honra e dedicação”, Pollon é o seu candidato ao Senado por Mato Grosso do Sul. A declaração tem peso político — mas pode não encerrar o processo.
Isso porque Gianni Nogueira também passou a ser tratada nos bastidores como possível segunda indicação do bolsonarismo para a disputa. Caso essa hipótese se confirme, o espaço político para Azambuja e para Contar dentro do partido se estreita ainda mais.
Capitão Contar evita confronto direto com Bolsonaro, mas sustenta que existe um acordo interno a ser respeitado.
“Recebi com muito respeito a manifestação do presidente. O PL é o maior partido de direita do Brasil, e é natural que novos nomes se somem ao projeto”, afirmou.
Em seguida, reforçou o critério que, segundo ele, foi pactuado com a direção nacional da legenda.
“O que está combinado desde o começo é que os dois mais viáveis, com maior pontuação em pesquisa, irão para a convenção.”
De acordo com Contar, essa tratativa envolveu Valdemar da Costa Neto, Flávio Bolsonaro e o senador Rogério Marinho.
“Quem estiver melhor em pesquisa deve ser o candidato.”
Ele também afirma não trabalhar com alternativa fora da disputa majoritária.
“Eu estou numa construção de Senado. Não tem plano B.”
A declaração evidencia o conflito que se desenha dentro do partido: de um lado, a preferência pessoal do líder nacional; de outro, a lógica da viabilidade eleitoral medida por pesquisas.
“O PL não pode perder a chance de fazer dois senadores em Mato Grosso do Sul”, acrescenta Contar.
A imprevisibilidade de Bolsonaro aparece como fator central da instabilidade.
Pressões e desconfianças
O ambiente também foi tensionado por registros atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro que mencionavam suposta pressão para que Pollon não fosse candidato. Embora todos os envolvidos tenham negado irregularidades, a circulação da anotação ampliou a desconfiança interna.
Com a janela partidária ainda aberta, o cenário permanece em movimento. Caso a preferência presidencial se consolide em favor de Pollon e Gianni, Azambuja pode buscar outro abrigo político.
Entre as alternativas discutidas nos bastidores estão uma aproximação com o PSD, onde poderia compor com o senador Nelsinho Trad, ou até mesmo uma reacomodação no PP, legenda de Riedel e da senadora Tereza Cristina.
Capitão Contar, por sua vez, é visto como pouco disposto a disputar cargos proporcionais. Seu entorno afirma que ele aposta no capital eleitoral acumulado na eleição de 2022 e no voto ideológico consolidado. Ele teve mais de 600 mil votos, quantidade suficiente para torná-lo competitivo.
Mesmo assim, o próprio ex-deputado afirma acreditar na manutenção do acordo.
“Não acredito que vá acontecer um racha. Estamos num nível muito franco de diálogo. Em política, a palavra tem que ter valor.”
Um conflito administrável?
O cientista político Daniel Miranda, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), avalia que a manifestação de apoio de Jair Bolsonaro tende a tensionar a engenharia política construída pelo grupo de Azambuja, ao reforçar internamente um nome que já mantinha atritos com o ex-governador. Segundo ele, o gesto empodera Pollon e pode tornar mais conflituosa a disputa pela segunda vaga ao Senado dentro do campo bolsonarista. Ainda assim, Miranda pondera que o movimento não deve alterar o eixo principal do tabuleiro. Azambuja que, afirma, mantém forte controle sobre o partido no Estado e tem articulação consolidada com a direção nacional. Na prática, a principal consequência tende a ser o aumento da disputa interna e da incerteza sobre quem ocupará a segunda candidatura ao Senado, sem necessariamente romper a aliança já formada.
O teste em Brasília
A reunião desta quarta-feira, em Brasília, deve servir como termômetro dessa tensão. Também indicará até que ponto Flávio Bolsonaro tem margem para conduzir negociações políticas longe da influência direta do pai.
Se o critério baseado em pesquisas for reafirmado, o PL poderá preservar a unidade no Estado. Se a preferência pessoal de Bolsonaro prevalecer sem acomodação interna, o partido corre o risco de sair dividido da disputa ao Senado — com reflexos que podem ultrapassar a eleição majoritária e atingir o próprio arranjo político que sustenta o governo estadual.
Mais do que a escolha de candidatos, o encontro em Brasília representa uma tentativa de recompor a confiança entre aliados que já experimentaram, no passado recente, o custo político de apostar em uma aliança sujeita a mudanças bruscas de rumo.
Fonte: Campograndenews

