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quinta-feira, 22 de outubro, 2026

Caso Gerssica: homem matou a esposa, suspendeu o corpo e divulgou o crime nas redes

Veja o que se sabe sobre o caso; psicóloga explica como identificar relações abusivas e o que fazer para sair delas

A crueldade envolvendo a morte de Gerssica de Souza Vieira, de 31 anos, ainda assusta moradores de Funilândia, região central de Minas Gerais. A mulher foi assassinada pelo marido, João Paulo Magela Teixeira, de 28 anos, com disparos de arma de fogo, em um sítio na zona rural da cidade. Após matar a companheira, o autor ainda a suspendeu em uma corda e divulgou fotos do corpo da vítima nas redes sociais. João Paulo morreu depois de entrar em confronto e trocar tiros com a polícia.

Segundo a Polícoa Militar, já havia registros de agressões anteriores no relacionamento do casal. Psicóloga explica como identificar uma relação abusiva e como, para muitas mulheres, é difícil sair de um relacionamento onde ela é vítima de agressão ou intimidação. A profissional também dá dicas de onde buscar suporte e ajuda nesses casos.

Como aconteceu

De acordo com o tenente Rafael Santos, o sítio possui duas casas: uma utilizada pelo proprietário e outra onde o autor trabalhava como caseiro e morava com a companheira. João Paulo teria matado Gerssica a tiros na sede da propriedade. Além da marca do disparo, a mulher também tinha hematomas pelo corpo, mas ainda não se sabe a dinâmica do ocorrido. Ele teria utilizado, ainda, uma corda para tentar suspender o corpo. Depois, o homem retornou para a residência onde morava, a poucos metros do local do assassinato.

Após cometer o feminicídio, o ele começou a publicar fotos do corpo da vítima, já sem vida, em uma rede social. Em uma das postagens ele disse: “É assim que vocês vão se lembrar dela”. João Paulo também teria mandado uma das fotos para o proprietário do sítio, mostrando o que tinha feito. Foi o dono do local que, ao ver as imagens, acionou a Polícia Militar.

Confronto com a polícia

Quando os militares chegaram no sítio, encontraram o autor armado. Ele ainda teria apontado a arma na direção de um dos policiais e efetuado vários disparos. “Ele simplesmente apontou para os militares em frente ao imóvel dele e começou a efetuar diversos disparos contra os militares”, conta o Tenente Rafael.

Ainda segundo o militar, os policiais revidaram e o suspeito foi baleado. Ele morreu ainda no local. Uma espingarda calibre .22 e estojos de munição foram encontrados na propriedade. João Paulo teria trocado um veículo de sua propriedade pela arma de fogo utilizada no crime. A informação foi repassada à polícia pelo filho do proprietário do sítio.

Uma idosa, mãe da mulher assassinada, também estava em uma das casas do sítio no momento do crime. Segundo a PM, ela apresenta condições de saúde debilitadas e não percebeu o que havia acontecido. Ao encontrarem a idosa, os militares acionaram a assistência social para garantir o acolhimento, já que não havia outro familiar disponível naquele momento. Gerssica também deixa um filho adolescente, que não morava com ela.

Histórico de agressões

Segundo o tenente Rafael, a polícia já tinha conhecimento de episódios anteriores de violência doméstica envolvendo o casal. A mulher recebia assistência de uma equipe especializada e estava na fase final do acompanhamento. “Já faz muito tempo que a Polícia Militar tomou conhecimento que essa vítima passava por ciclos reiterados de violência doméstica”, afirmou o tenente.

Ainda conforme o militar, a vítima era acompanhada pela Patrulha de Proteção à Mulher, que realiza visitas e orientações para tentar interromper situações recorrentes de violência. O suspeito também era acompanhado pela equipe. A mulher estava na terceira etapa do atendimento.

Como identificar uma relação abusiva

A psicóloga Soraia Pena explica que que a violência nem sempre começa com uma agressão física: “Muitas vezes, ela se estabelece gradualmente, por meio de comportamentos inicialmente confundidos com cuidado, proteção ou demonstrações de amor. Ciúmes excessivos, controle sobre roupas, amizades e horários, monitoramento do celular, críticas constantes, humilhações e tentativas de isolamento são sinais importantes”.

Um dos fatores preocupantes na relação de Gerssica com João Paulo foi o fato relatado pela Polícia Militar de que já havia um histórico de agressão no relacionamento, acompanhamento de perto pelos policiais. Nesses casos, Soraia explica que existe uma tendência social de questionar por que a mulher não abandona o relacionamento, sem compreender os mecanismos psicológicos e as condições concretas que dificultam essa decisão.

“A violência recorrente pode comprometer progressivamente a autoestima, a autonomia e a confiança da vítima em suas próprias percepções. Em algumas relações, episódios de agressividade são seguidos de pedidos de desculpas, promessas de mudança e manifestações de afeto, alimentando a esperança de que a violência não se repita. Entretanto, a dificuldade de rompimento não se explica apenas pelo vínculo emocional. Dependência financeira, filhos, isolamento social, ameaças e medo de represálias são fatores determinantes”, conta a psicóloga.

Como sair da relação

Em relação a como sair de relações desse tipo, Soraia dá algumas dicas importantes: “O primeiro passo é reconhecer a violência e procurar uma rede de apoio confiável, preferencialmente com orientação de serviços especializados. Quando existem ameaças ou agressões anteriores, é fundamental planejar a saída considerando os riscos envolvidos, evitando confrontos ou comunicar antecipadamente a separação caso isso possa provocar represálias”.

“A mulher pode procurar Delegacias de Defesa da Mulher, centros de referência, assistência jurídica e serviços de acolhimento. A Lei Maria da Penha também prevê medidas protetivas de urgência. O acompanhamento psicológico contribui para compreender os efeitos da violência, reduzir sentimentos de culpa e fortalecer a autonomia, mas não substitui as medidas concretas de segurança. Em situações de perigo imediato, deve-se acionar o 190. O Ligue 180 oferece orientações e encaminhamentos gratuitamente, 24 horas por dia. Sair de uma relação abusiva e estar protegida não são necessariamente a mesma coisa. A segurança precisa ser considerada antes, durante e depois do rompimento”, explica.

Para a psicóloga, é essencial o apoio de familiares e amigos nesse momento. Ela conta que é preciso substituir o julgamento pela escuta. Além disso, é necessário ficar atento a qualquer mudança de comportamento da vítima, seja ela um isolamento, um medo excessivo do parceiro ou perda da autonomia. Também é importante evitar confrontar o agressor diretamente, e oferecer acolhimento a vítima a acompanhando nos serviços de proteção especializados.

“Não podemos continuar tratando ameaças, intimidação e controle como questões privadas do casal. A prevenção do feminicídio começa muito antes da violência extrema, quando os primeiros sinais de abuso são reconhecidos, levados a sério e enfrentados com medidas efetivas de proteção”, completa.

Fonte: R7