Há seis anos, Joice Gonçalves praticamente não tinha contato com a causa animal. Não tinha cachorro e pouco conhecia a rotina de quem dedica tempo e recursos ao cuidado de cães e gatos. Isso mudou quando começou a trabalhar como gerente de uma clínica veterinária.
A convivência diária com tutores, protetores e organizações que acolhem animais mostrou a ela uma realidade que até então desconhecia. Joice passou a participar de campanhas, ações e eventos para arrecadar recursos e ajudar quem trabalha diretamente com a proteção animal.
Foi também dessa experiência que ela percebeu o peso que uma cirurgia de castração pode representar no orçamento de uma família.
“A Caravana é muito importante principalmente para a população mais carente, que não tem condições de fazer a cirurgia no seu animal, pois ela custa de R$ 600 a R$ 1,2 mil, dependendo do procedimento. Não cabe no bolso de muitas famílias, que amam seus animais, mas não fazem por não terem dinheiro”, afirma.
A Caravana da Castração, realizada pelo Governo de Mato Grosso do Sul durante a gestão de Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, levou esse procedimento gratuitamente aos 79 municípios do Estado. Ao final do ciclo, o programa alcançou 25 mil cães e gatos.
Para Joice, o impacto não está apenas na economia para os tutores. A castração também ajuda a enfrentar um problema conhecido de quem atua na proteção animal: a reprodução sem controle e a sobrecarga de organizações e protetores que recolhem animais abandonados.
“As ONGs que trabalham nesta causa já estão no limite, a demanda é muito grande. A caravana inclusive tem que continuar, tem muita gente esperando para conseguir a cirurgia”, relata.
Há cinco anos, Joice também organiza uma festa junina destinada a arrecadar recursos para entidades que cuidam de animais. Segundo ela, a última edição levantou R$ 55 mil para tratamentos veterinários e mais de 500 quilos de ração. O evento conta com apoio e parceria do Governo do Estado.
Do procedimento ao acompanhamento
A Caravana nasceu com uma meta inicial de aproximadamente 20 mil atendimentos e teve sua capacidade ampliada posteriormente para chegar aos 25 mil procedimentos. O atendimento não se restringiu à cirurgia: os animais também receberam microchipagem, medicação pós-operatória, roupa cirúrgica ou colar protetor e suporte veterinário durante a recuperação.
Nos municípios atendidos, a estrutura móvel permaneceu por períodos determinados de acordo com a demanda local. O programa também disponibilizou suporte veterinário 24 horas para eventuais intercorrências e ambulância veterinária durante as ações.
Com o aditivo destinado à ampliação de 20 mil para 25 mil cirurgias, o contrato para os procedimentos chegou a R$ 5.587.500. Desse total, R$ 5 milhões foram viabilizados por emenda parlamentar da senadora Soraya Thronicke.
Riedel relaciona a iniciativa não apenas à proteção dos animais, mas também à saúde pública e à responsabilidade dos tutores.
“Não é apenas uma causa animal, mas de saúde pública e que envolve toda sociedade. Na nossa gestão é política de Estado. Foi construído aqui um modelo que vai além da castração, pois vem acompanhado de monitoramento, microchips que fazem a diferença, assim como responsabilidade de cada proprietário”, afirmou.
A microchipagem permite identificar eletronicamente o animal e relacioná-lo ao tutor responsável. O dispositivo não funciona como rastreador de localização, mas como uma espécie de registro de identificação, ferramenta que também pode auxiliar políticas de combate ao abandono e aos maus-tratos.
Para Sonia Marly Gonçalves, do Instituto Mãe de Pets, a gratuidade ajuda justamente quem encontra dificuldade para custear o procedimento.
“Realizou de forma gratuita inúmeras castrações por todo Estado. Não podemos esquecer que castrar é um ato de amor”, afirma.
Uma política além da caravana
A ação é coordenada pela Suprova (Superintendência de Políticas Integradas de Proteção da Vida Animal), vinculada à Setesc (Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura), e integra uma estrutura mais ampla de políticas de proteção animal desenvolvida pelo Estado.
Entre essas iniciativas está o Programa MS Vida Animal, criado para reunir ações de controle populacional, identificação dos animais, educação e enfrentamento aos maus-tratos e ao abandono.
Outro instrumento é o SigPet, plataforma digital utilizada para organizar cadastros e atendimentos. Por meio do sistema, tutores registram seus animais, solicitam vagas para castração e mantêm informações relacionadas à identificação e à microchipagem.
A plataforma também permite cadastrar entidades e protetores independentes, criando uma base de informações que pode ajudar o poder público a dimensionar a demanda existente nas diferentes regiões do Estado e planejar novas ações.
Para o superintendente da Suprova, Carlos Eduardo Leite, a criação de uma estrutura específica para a proteção animal permitiu transformar demandas que antes dependiam em grande medida do trabalho voluntário em objeto de uma política pública estadual.
“Além de criar uma estrutura específica para coordenar essa área, colocou em prática projetos que chegaram aos municípios e produziram resultados concretos. É um governo que deu espaço, orçamento e capacidade de execução à causa animal”, afirmou.
O encerramento da primeira passagem pelos 79 municípios, entretanto, não elimina a demanda. Já em abril, quando a Caravana havia ultrapassado 20 mil atendimentos em 63 cidades, relatos de tutores e dados do próprio programa indicavam procura superior ao número de vagas disponíveis. O Governo previa tanto alcançar os municípios restantes quanto retornar às localidades com maior demanda.
É justamente essa procura que Joice vê todos os dias no contato com quem cuida de animais. Para ela, chegar aos 25 mil procedimentos representa um avanço, mas não encerra o trabalho. Entre famílias que não conseguem pagar pela cirurgia e organizações que continuam recebendo cães e gatos abandonados, permanece uma fila de animais — e de pessoas — esperando pela próxima oportunidade de atendimento.

