24 C
Ponta Porã
sexta-feira, 2 de outubro, 2026

Deepfakes invadem redes sociais na campanha eleitoral, apesar de proibição

Apesar das proibições e das sanções previstas, conteúdos do tipo deepfake continuam a circular amplamente nas redes sociais durante o período eleitoral. Um levantamento do projeto VigIA, da agência de checagem Lupa, revelou que pelo menos 554 vídeos e imagens manipulados por inteligência artificial (IA) foram publicados em plataformas digitais na campanha para o primeiro turno das eleições gerais de 2026.

O estudo, que monitora o uso de IA no pleito, identificou que 29 desses conteúdos foram disseminados por perfis ligados a candidatos ou partidos políticos, o que pode acarretar em penalidades legais, incluindo a cassação de candidaturas ou mandatos, conforme a legislação eleitoral.

Deepfakes são criações ou edições de vídeos e imagens que utilizam IA para manipular a aparência de pessoas reais, fazendo com que pareçam dizer ou fazer coisas que nunca ocorreram. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu essas publicações, mas a aplicação da regra exige que os conteúdos sejam caracterizados como propaganda política e possuam verossimilhança suficiente para enganar o eleitor.

O relatório do VigIA destacou que os deepfakes foram os principais tipos de conteúdo manipulados por IA e divulgados nas redes sociais durante o período eleitoral analisado. Eles representaram 60% do total de 920 publicações coletadas entre 16 de agosto e 28 de setembro, superando outras formas de conteúdo sintético.

Entre os deepfakes mais comuns, foram identificados vídeos em que jornalistas apresentavam notícias falsas e celebridades apareciam, indevidamente, declarando apoio a determinados candidatos. A maioria dessas postagens (525) foi originada de usuários comuns, muitos deles anônimos, o que apresenta um grande desafio para a fiscalização e a aplicação da lei.

Beatriz Farrugia, pesquisadora responsável pelo relatório, ressaltou a dificuldade em combater a disseminação desses conteúdos quando a maioria parte de contas anônimas. Ela apontou a necessidade de colaboração entre a Justiça e as plataformas digitais para identificar os responsáveis.

Outra prática irregular identificada pelo relatório foi a falta de sinalização do uso de IA em conteúdos criados ou manipulados. Das 920 publicações, apenas 371 (cerca de 40%) estavam devidamente rotuladas como material gerado por IA. Das 549 publicações irregulares, 75 foram feitas por candidatos ou partidos.

A pesquisa do VigIA, realizada em parceria com o Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai) da Unicamp, analisou 920 casos de uso de IA em 1.941 conteúdos político-eleitorais suspeitos. Além dos deepfakes, o estudo também abrangeu outros tipos de conteúdo sintético criado ou modificado por IA.

Cristina Tardáguila, fundadora e gerente de Inteligência e Formação da Agência Lupa, afirmou que a IA já é uma ferramenta presente na comunicação política cotidiana, e não apenas em casos pontuais. Ela alertou para o grande desafio que a falta de sinalização representa para eleitores e órgãos fiscalizadores.

A promoção de candidaturas foi o objetivo mais frequente (45% dos casos), mas ataques a candidatos ou outras pessoas também foram significativos (um quarto dos conteúdos). Conteúdos de humor ou sátira utilizando IA também corresponderam a uma parcela considerável das publicações.

No cenário nacional, com foco nas eleições presidenciais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a figura pública mais retratada em conteúdos de IA, aparecendo em 379 publicações, seguido por Flávio Bolsonaro, com 190 aparições. No caso de Lula, 39% das publicações eram de humor ou sátira e 34% visavam atacar sua candidatura. Já para Flávio Bolsonaro, 40% buscavam favorecê-lo e 28% eram de humor ou sátira.

A predominância de usuários comuns como autores das publicações se manteve, representando 47% dos casos. No entanto, perfis desconhecidos foram responsáveis por 27% das publicações, superando as contas oficiais de candidaturas (24,5%).