A pobreza menstrual ainda faz parte da realidade de milhões de meninas e mulheres no Brasil e vai muito além da falta de absorventes. Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), cerca de uma em cada quatro brasileiras enfrenta dificuldade para ter acesso adequado a itens de higiene menstrual. O problema também envolve falta de saneamento básico, dificuldade de acesso à informação, ausência de banheiros adequados e impactos diretos na saúde, na autoestima e na educação.
Na prática, muitas adolescentes deixam de frequentar a escola durante o período menstrual por não terem condições de comprar absorventes ou por sentirem vergonha e insegurança. Em alguns casos, a menstruação acaba se tornando um fator de exclusão social, afetando o desempenho escolar, o convívio social e até a saúde emocional.
A falta de acesso a produtos adequados também faz com que muitas mulheres recorram a alternativas improvisadas, como papel higiênico, panos, jornais ou outros materiais inadequados, aumentando o risco de irritações, alergias e infecções ginecológicas. Nos últimos anos, o tema passou a ganhar mais espaço nas discussões sobre saúde pública e direitos básicos, principalmente por afetar diretamente a dignidade e a qualidade de vida de milhões de brasileiras.
Para a Dra. Tatiana Chaves, médica e professora de Ginecologia da Afya Brasília, garantir acesso à higiene menstrual adequada é uma questão essencial de saúde. “A menstruação é um processo natural, mas a ausência de condições mínimas de higiene pode provocar infecções, irritações e alterações no pH vaginal, favorecendo a proliferação bacteriana. Muitas adolescentes acabam normalizando situações inadequadas por falta de informação ou de acesso a orientações adequadas. Infelizmente, nem todas as pré-adolescentes possuem acesso à informação profissional especializada, e muitas vezes também faltam orientações básicas dentro de casa, o que dificulta ainda mais o cuidado com a saúde íntima”, explica.
A especialista destaca que a pobreza menstrual está diretamente ligada à desigualdade social e afeta não apenas a saúde física, mas também o bem-estar emocional e a trajetória escolar de muitas adolescentes. “Muitas meninas faltam às aulas por não terem acesso a absorventes, banheiros adequados ou por medo de sofrer constrangimentos. O vazamento menstrual, por exemplo, ainda é cercado de vergonha e julgamento, quando deveria ser tratado com naturalidade e acolhimento. Esse tabu é antigo e já deveria ter sido superado, porque a menstruação é um processo fisiológico natural”, afirma.
Segundo a Dra. Mariana Ramos, professora de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, o silêncio em torno da menstruação contribui diretamente para sentimentos de exclusão, insegurança e vergonha corporal. Para ela, quando uma menina deixa de frequentar ambientes sociais, evita a escola, se afasta de atividades esportivas ou sente vergonha do próprio corpo por não conseguir lidar com a menstruação de forma segura, isso impacta diretamente sua autoestima, sua sensação de pertencimento e até a construção da própria identidade.
A psicóloga ressalta que o sofrimento emocional relacionado à pobreza menstrual vai além da falta do absorvente. “Muitas adolescentes convivem com medo de exposição, vergonha constante e sensação de inadequação. Na prática clínica, isso pode gerar ansiedade, retraimento social, insegurança emocional, dificuldade de participação coletiva e prejuízos importantes na autoconfiança. A adolescência é um período muito importante para a construção da relação com o próprio corpo, e quando esse processo acontece cercado por silêncio, culpa ou privação, os impactos emocionais podem ser significativos”, enfatiza a profissional.
As especialistas defendem que enfrentar a pobreza menstrual exige mais do que a distribuição de absorventes. O debate também envolve acesso à informação, saneamento básico, educação menstrual, acolhimento emocional, permanência escolar e políticas públicas que garantam condições mínimas de saúde, dignidade e inclusão social para mulheres e meninas.
Onde buscar ajuda e acesso gratuito a absorventes
Mulheres e adolescentes em situação de vulnerabilidade podem procurar apoio em diferentes serviços e espaços da rede pública e social. Entre eles:
- Unidades Básicas de Saúde (UBSs), que podem orientar sobre acesso a absorventes gratuitos e cuidados com a saúde íntima;
- Escolas públicas, que em algumas cidades já oferecem itens de higiene menstrual para estudantes;
- Centros de Referência de Assistência Social (CRAS e CREAS);
- Organizações sociais, projetos comunitários e coletivos femininos que realizam distribuição gratuita de absorventes;
- Farmácias credenciadas em programas de distribuição gratuita de absorventes.

