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segunda-feira, 20 de maio, 2024
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Dia das Mães: O que eu aprendi com a minha mãe, por André Naves

Hoje não há nomes nem lágrimas! Todas merecem a homenagem das rosas. Será que elas mesmas não são suaves como o perfume das pétalas, mas obstinadas como os espinhos? Que bom seria um mundo livre de barreiras, obstáculos, exclusões: que agradável seria se o mundo fosse o colo de uma mãe! Sabe a mãe pelicano que, na imagem, rasga o próprio peito para dar de comer aos filhotes? A mãe nunca sente o sacrifício imposto para o desenvolvimento da autonomia e da individualidade dos seus. São almas enobrecidas pela bondade e pela dureza: são torres de sabedoria! Os exemplos valem mais do que as palavras, e elas agem, criam, choram e sorriem!

Claro que há exceções. Para tudo há. Mas para que sujar esse texto com marcas fúnebres e tenebrosas? Melhor falar da luta e não do luto. O sorriso nasce da ternura, ainda que os obstáculos sejam gigantescos. Eu fico até sem palavras para tentar homenageá-las. A preciosidade de seus gestos representa a mais límpida claridade da luz: as barreiras existem para serem destruídas! Nenhum filho ficará para trás, no que depender de sua mãe.

Quero enaltecer uma mãe em especial e, junto com ela, elevar um altar para todas! Vou contar uma história que traz a imagem de como as mães são a personificação da disciplina, da perseverança e da alteridade! Era um tempo, após o acidente que sofri, em que eu acabara de me formar. Minha recuperação era lenta e, ainda como nos dias de hoje, não é completa. Na verdade, nunca será! A falta de trabalho me incomodava. Não que eu fosse um desocupado, pelo contrário! Já às seis eu costumava despertar para iniciar minhas atividades terapêuticas. Às dez, já arrumado, começava minha rotina de estudos. Às vinte, eu dava, com minha mãe, uma caminhada noturna.

Entretanto, ainda que as terapias físicas e mentais se mostrassem valiosíssimas para meu desenvolvimento pessoal, e meus estudos fossem o sacrifício a ser feito para adentrar na senda da Defensoria Pública, eu ainda me sentia um inútil e sem valor. Eu estava construindo um bom caminho, que me trouxe até aqui e agora. Na época, no entanto, não tinha essa percepção. O desespero tomava conta de mim, assim com uma erva daninha, que quando não retirada a tempo, prejudica os campos produtivos. É por isso que sempre gosto de reafirmar minha religiosidade. Com ela eu descobri o conforto e os valores necessários para aproveitar melhor essa época atual. As cicatrizes, tenho diversas. As psicológicas são mais reais que as físicas, ainda que muito menos visíveis.

Após um dia intenso de estudos preparatórios, por volta das 8 da noite minha mãe e nosso cachorro me chamavam para uma caminhada. Eu precisava relaxar, mas também reaprender a caminhar e treinar minha marcha, além de conversar. Naquelas caminhadas, eu arrastava, e ainda arrasto, o meu pé, tropeçando nos pequenos montinhos pela trilha. Nessas horas, minha mãe falava para mim, num carinho enérgico: “A ponta do pé tem de ir para a ponta do nariz”! Era uma maneira de me lembrar dos detalhes para que o meu caminho fosse mais produtivo e proveitoso. São pequenos detalhes que, de tão importantes, acabam por se tornar os principais.

Foram tempos de solidão, em que eu, sem perceber, me isolava cada vez mais. Parecia que eu havia construído um casulo para me refugiar de tudo e de todos. Mas dentro de mim, fervilhavam reflexões e ponderações. Busquei ser útil em locais em que eu poderia fazer a diferença: asilos, organizações religiosas e políticas, além de várias iniciativas de assistência social.

O mundo precisava de refresco, e eu queria ser parte da solução e não do problema. Não era me fechando em minha caverna interior, num individualismo exagerado que beirava o egoísmo, que a vida melhoraria. Pelo contrário! É na construção de estruturas sociais justas, fundadas nos sólidos valores éticos – transmitidos pelas palavras, pelo trabalho e pelo exemplo de meus rochedos primordiais -, que teremos, todos, uma vida mais iluminada! Agora, aqui, escrevendo este artigo numa linda tarde pelo sol, consigo perceber com maior nitidez que tudo pelo que passei, as trevas mais profundas causadas pelo isolamento e pelo desespero, foram ladrilhos necessários para que meu caminho ficasse ainda mais belo.

Ainda hoje ouço minha mãe, nas nossas caminhadas noturnas, me alertando que os detalhes também são essenciais. Que nossos objetivos são construídos pelo esforço constante e consciente. “Na ponta do nariz”.

*André Naves é Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos, Inclusão Social e Economia Política; Conselheiro do grupo Chaverim; Embaixador do Instituto FEFIG; Membro do comitê de inclusão do LIDE; Autor do livro “Caminho – A Beleza é Enxergar”.