Educação ambiental: 9 em cada 10 brasileiros apoiam que o tema oceano deve estar no currículo escolar

Escolas azuis têm sua importância mais reconhecida por quem vive próximo ao litoral, mas também são reconhecidas por quem mora longe do mar

Nove em cada 10 brasileiros (89%) concordam que a educação sobre o oceano deve fazer parte do currículo escolar. No campo das políticas públicas, o Brasil conta com a Política Nacional de Educação Ambiental Escolar (Pneae) e é pioneiro ao assumir um compromisso formal para implementar o Currículo Azul, que inclui a cultura oceânica nas escolas públicas, que já conta com 679 “Escolas Azuis” em todos os estados.

O dado é do estudo “Oceano sem Mistérios: a relação dos brasileiros com o mar – evolução de cenários”, realizado pela Fundação Grupo Boticário em cooperação com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e o projeto Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O apoio à inclusão do tema varia conforme escolaridade e território. Pessoas com ensino médio ou superior demonstram adesão entre 6% e 9% maior à proposta, em comparação a quem tem menor nível de escolaridade. Segundo o levantamento, quanto maior a compreensão sobre a importância do conhecimento, maior a valorização da educação das futuras gerações.

A proximidade com o mar também influencia os resultados. Moradores de municípios localizados até 150 quilômetros do litoral apoiam cerca de 5% a mais a educação oceânica. A vivência com o oceano, aponta a pesquisa, reforça a percepção sobre a necessidade de aprendizado relacionado ao tema.

O estudo investigou ainda quais estratégias são consideradas mais eficazes para aproximar estudantes do oceano. Atividades em campo lideram as preferências, citadas por 45% dos entrevistados, seguidas por palestras (37%) e feiras de ciências (32%). “Os dados indicam que experiências práticas e a interação direta com o ambiente costeiro-marinho são vistas como formas mais eficientes de aprendizagem sobre o mar”, afirma a gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, Janaína Bumbeer.

Para Ronaldo Christofoletti, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e um dos principais nomes no desenvolvimento da Educação Oceânica no Brasil, incluir o currículo azul nas escolas é uma medida importante para enfrentar os desafios ambientais contemporâneos.

“Como dizia Paulo Freire: a educação não transforma o mundo diretamente; ela transforma as pessoas, e são as pessoas que transformam o mundo. Em um contexto de mudanças climáticas constantes, o que precisamos é de mudança de comportamento de indivíduos e instituições. E para mudar comportamento, é preciso conhecimento. Ele é a base. Por isso, a educação, que é um processo de longo prazo, é essencial”, afirma.

Currículo Azul

O compromisso para a implementação do Currículo Azul nas escolas foi oficializado em abril de 2025, com a assinatura de um Protocolo de Intenções em Brasília, com apoio da UNESCOe articulação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Ministério da Educação (MEC). Com isso, o Brasil tornou-se o primeiro país a se comprometer formalmente com a educação oceânica.

Embora a proposta tenha ganhado impulso no contexto da Década do Oceano (2021–2030), a iniciativa brasileira é resultado de um processo participativo. Em 2020, oficinas regionais realizadas nas cinco regiões do país reuniram mais de 2 mil contribuições da sociedade civil, da comunidade científica e do setor educacional para definir prioridades nacionais para a Década. Em todos os relatórios, a inclusão do tema oceânico no currículo escolar apareceu como um ponto central.

“O Currículo Azul alinha uma demanda que vem da base com uma meta global da comunidade científica e das universidades. A iniciativa nasce da escuta ativa e plural da sociedade brasileira”, afirma Christofoletti.

Segundo o especialista, a implementação ocorre em um momento decisivo para o enfrentamento da crise climática, com o aquecimento do oceano atingindo níveis recordes e impactos para a sociedade, como a intensificação de eventos extremos. Problemas como poluição, acidificação das águas, perda de biodiversidade e branqueamento de corais reforçam a urgência do tema.

A Escola Municipal Diva do Carmo Alves de Lima, localizada em Itanhaém (SP), aderiu ao projeto Escolas Azuis em 2024. À época coordenador da unidade, o professor Tiago Monteiro Dionizio implementou um projeto multidisciplinar que teve como objeto final um corredor temático sobre o fundo do mar, que envolveu crianças de 3 a 11 anos, educadores e famílias.

A ação rendeu uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que ajudou a patrocinar o Clube de Cultura Oceânica, que envolveu alunos do 4º e 5º anos do ensino fundamental. Entre as atividades desenvolvidas estiveram visitas técnicas ao Parque Amazônia Paulista, em Itanhaém, e ao Rio Negro, com foco na observação de espécies nativas do mangue e da Mata Atlântica. As ações culminaram na produção de um curta-metragem sobre microplásticos.

“A escola atende uma comunidade muito diversa, e parte dos alunos não tem acesso a viagens e passeios. As atividades despertaram a curiosidade das famílias e contribuíram para uma postura mais ecológica de toda a comunidade”, afirmou o professor.

O Colégio Amorim, em Guarulhos (SP), integra a rede de Escolas Azuis desde 2022. Professor de Química e coordenador de Olimpíadas Científicas da instituição, Silvio Raimundo de Faria relata que a incorporação da cultura oceânica ao projeto pedagógico ampliou o engajamento da comunidade escolar com a preservação dos oceanos e o uso responsável dos recursos naturais. Segundo ele, houve redução significativa no uso de materiais como TNT, EVA e outros resíduos em trabalhos escolares e atividades culturais.

“Temos um grupo de alunas, as Embaixadoras do Oceano, que promovem campanhas de conscientização por meio das redes sociais da escola, alcançando milhares de pessoas”, conta Sílvio, que participou de uma imersão de 17 dias a bordo de um navio da Marinha, onde colaborou na preparação de atividades pedagógicas voltadas ao Currículo Azul.

Sobre o estudo Oceano sem Mistérios

Foram realizadas 2 mil entrevistas presenciais com adultos de todos os gêneros e classes sociais, em todas as regiões do país. A coleta foi conduzida pela Zoom Inteligência em Pesquisas no primeiro semestre de 2025. Do total de entrevistados, 62% residem em capitais e 41% vivem em cidades litorâneas. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

Fonte: Tamer Comunicação