Com as Eleições de 2026 se aproximando, muitos eleitores ainda enfrentam o dilema de escolher seus representantes. Este ano, o debate sobre propostas foi ofuscado por escândalos políticos, como o caso Master e as tensões no Supremo Tribunal Federal (STF), dificultando a decisão. Especialistas apontam caminhos para um voto mais consciente, ajudando a identificar candidatos alinhados aos interesses da população e a evitar armadilhas como “puxadores de voto” e promessas genéricas.
Para fazer uma escolha informada, é fundamental compreender quem financia as campanhas, quais são as propostas de cada candidato e como elas podem impactar a vida cotidiana. A Justiça Eleitoral, por exemplo, já rejeitou cerca de 1,2 mil registros de candidatura, evidenciando a importância da análise criteriosa.
1. Autoconhecimento e Coletividade: Quem é você no cenário político?
Antes de analisar os candidatos, o eleitor deve refletir sobre sua própria identidade e contexto. Perguntas como “A qual grupo social e econômico pertenço?”, “Com quais ideologias me identifico?” e “Quais problemas públicos devem ser priorizados?” são essenciais. Interesses podem divergir: um empresário e um trabalhador podem ter visões distintas sobre uma mesma proposta econômica. A representatividade feminina, por exemplo, é um ponto crucial, considerando que as mulheres são mais da metade do eleitorado, mas sub-representadas no Legislativo.
O professor de Ciência Política João Feres Júnior (IESP UERJ) ressalta a importância de o eleitor conhecer seus próprios interesses políticos e econômicos. “Muitos eleitores não têm clareza quanto aos seus próprios interesses”, afirma, destacando que a dificuldade de acesso a informações de qualidade, muitas vezes substituídas por notícias de escândalos, agrava o problema.
2. O que um político realmente faz? Entenda as atribuições
Compreender as funções de cada cargo eletivo é um passo básico para evitar frustrações e falsas promessas. Candidatos a deputado, por exemplo, não podem prometer construir hospitais ou pavimentar ruas, pois essas são atribuições do Poder Executivo (Presidente, Governadores, Prefeitos). A socióloga Débora Messemberg (UnB) explica que legisladores têm poder sobre a destinação de verbas públicas através de aprovação de orçamento e emendas, mas não executam as políticas diretamente.
O Presidente da República administra a União, nomeia ministros e comanda as Forças Armadas. Governadores gerenciam o estado, nomeiam secretários e a segurança pública. Deputados (federais, estaduais, distritais) criam e fiscalizam leis e participam da elaboração do orçamento. Senadores representam seus estados no Congresso Nacional, aprovam leis federais e sabatinam autoridades.
3. Ações falam mais alto: Analise o histórico e as propostas
Avaliar o currículo, o histórico e as propostas de um candidato é crucial. Questões como quem financia sua campanha, quais partidos compõem sua coligação e de quais setores vêm seus principais apoios devem ser consideradas. O professor Francisco Uribam Xavier de Holanda (UFC) alerta que a análise do financiamento de campanha, muitas vezes camuflado, e a identificação dos interesses defendidos pelos candidatos são complexos, mas necessários.
Verificar como um político atuou em mandatos anteriores, como votou em projetos relevantes e se suas propostas atacam a raiz dos problemas ou são discursos genéricos pode revelar inconsistências. As propostas de governo, declarações de bens e prestação de contas estão disponíveis no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
4. Alinhamento partidário: A ideologia por trás do candidato
No sistema político brasileiro, partidos exercem influência significativa. A cientista política Naiara Sandi de Almeida Alcantara (UFPA) explica que, mesmo sem linhas ideológicas claras, espera-se um alinhamento mínimo dos filiados. A “orientação de bancada” em votações legislativas demonstra como o partido pode influenciar o posicionamento de seus membros, às vezes contrariando promessas individuais.
É importante que o eleitor conheça não apenas o candidato, mas também as posições históricas do partido, sua consistência ideológica e suas alianças. Observar como a legenda vota, quais pautas apoia e sua coerência ideológica ao longo do tempo são passos importantes para uma análise completa.
5. O fenômeno dos “puxadores de voto”
O “Efeito Tiririca” em 2010, onde um candidato popular ajudou a eleger outros correligionários, exemplifica o impacto dos “puxadores de voto” no sistema proporcional. Esse sistema, usado para eleger deputados e vereadores, considera o quociente eleitoral e os votos totais de um partido ou federação. Candidatos com alta votação podem “carregar” outros menos votados da mesma legenda.
O cientista político Rodrigo Stumpf González (UFRGS) explica que partidos buscam celebridades para fortalecer legendas. Apesar de mudanças na legislação eleitoral terem criado barreiras mínimas de votação, é essencial que o eleitor conheça a lista completa de candidatos de um partido e entenda que o número de um candidato também representa sua legenda, podendo eleger outros membros do partido.
6. No dia da votação: Orientações e direitos
No dia da eleição, 4 de outubro, cerca de 158,7 milhões de eleitores comparecerão às urnas. É permitido levar um papel com os nomes e números dos candidatos. No entanto, o uso de celular, máquinas fotográficas ou filmadoras na cabine de votação é proibido para garantir o sigilo do voto e evitar a captação ilícita.
Manifestações individuais e silenciosas de apoio são permitidas (broches, adesivos, camisetas), mas manifestações coletivas, ruidosas ou que tentem influenciar outros eleitores são proibidas. Eleitores têm direito a se ausentar do trabalho pelo tempo necessário para votar, sem prejuízo salarial. Idosos com mais de 80 anos e pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida possuem prioridades e podem receber auxílio para votar.

