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quinta-feira, 24 de setembro, 2026

Especialistas veem Escudo das Américas como estratégia dos EUA para conter influência chinesa

Uma nova coalizão de segurança hemisférica, denominada Escudo das Américas e liderada pelos Estados Unidos com a participação de 14 nações latino-americanas, estaria utilizando o combate ao narcotráfico como fachada para exercer influência e conter o avanço econômico da China na região. Essa é a análise de especialistas em relações internacionais consultados pela Agência Brasil.

Danilo Enrico Martuscelli, professor de ciência política na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), descreve a iniciativa como uma tentativa de reaproximação com a América Latina sob uma perspectiva geopolítica de disputa comercial e tecnológica com a China, comparando-a a um processo de “anexação colonial ou imperial”.

Durante a 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, os países membros divulgaram um documento com a intenção de levar a proposta do Escudo das Américas para dentro da Organização dos Estados Americanos (OEA). O documento também classifica 24 grupos de narcotráfico, incluindo PCC e Comando Vermelho, como “terroristas”.

Martuscelli questiona a eficácia da política de combate ao narcotráfico dos EUA, citando o caso do ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, que recebeu indulto de Donald Trump após ser condenado por envolvimento com o tráfico de cocaína. “Eles querem combater o narcotráfico, mas no quintal dos outros. Internamente, o que eles fazem para controlar o controle desse crime organizado?”, questionou.

Robson Valdez, professor de relações internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), aponta que o foco principal do Escudo das Américas é a legitimação de intervenções na América Latina sob o pretexto do combate ao narcotráfico. “E, indiretamente, isso sinaliza para a China que a manutenção das suas relações com os países da região teria de ser revista e sob a perspectiva da política externa norte-americana”, comentou.

Valdez acredita que a coalizão busca, sobretudo, “legitimar a presença física de tropas americanas na região a pretexto de combater o crime organizado”.

O Brasil, que não foi formalmente convidado a participar da iniciativa, observa o Escudo das Américas com cautela, embora mantenha a cooperação internacional em segurança. Brasília teme que a iniciativa possa ser usada por Washington para forçar alinhamentos econômicos automáticos e restringir a presença chinesa na América Latina.

A coalizão, formada pelos EUA, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, visa também, segundo o governo Trump, “manter as ameaças externas afastadas, incluindo as influências estrangeiras malignas provenientes de fora do Hemisfério Ocidental”.

A proposta de levar o tema à OEA, com base no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), visa pressionar países como Brasil, México, Uruguai e Canadá a aderirem à iniciativa, buscando dar “legitimidade institucional a essa política de pressão imperial aberta”, segundo Martuscelli.

O documento conjunto da coalizão também associa o combate às drogas à “cooperação econômica”, incluindo a proteção de “cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis”. Estes minerais são essenciais para as indústrias de tecnologia, defesa e transição energética, áreas centrais na disputa comercial entre EUA e China.

Valdez acrescenta que o Escudo das Américas pode servir para impor a venda de equipamentos militares norte-americanos, limitando a autonomia dos países da região na escolha de seus fornecedores de armamento.