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Junho de 2013: cinco anos depois, parte das medidas para responder aos protestos não saiu do papel

‘Ampla’ reforma política e tornar a corrupção um crime hediondo estavam entre as medidas prometidas, por exemplo

13/06/2018 16h10 – G1

Segunda-feira, 17 de junho de 2013. Mais de 250 mil pessoas saem às ruas em dezenas de cidades de todo o país. Em Brasília, a marquise do Congresso Nacional é tomada por manifestantes, e a cena ilustra a escalada do movimento que nasceu em atos contra o reajuste de tarifas de transporte e revelou uma longa lista de insatisfações dos brasileiros.

“De fato, está difícil entender”, afirmou, na manhã seguinte, o então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho (PT).

“Nós somos acostumados com mobilização com carro de som, com organização, com gente com quem negociar e liderança com quem negociar e poder fazer um tipo de acordo”, acrescentou o ministro, à época responsável pela interlocução do governo com os movimentos sociais.

Cinco anos depois, parte das medidas anunciadas pelo governo e pelo Congresso segue no papel:

“Ampla e profunda” reforma política;

Pacto pela responsabilidade fiscal;

Investimento de R$ 50 bilhões em mobilidade urbana;

Tornar a corrupção crime hediondo.

Outras ações se concretizaram, entre as quais:

Criação do programa Mais Médicos;

Sanção da lei que destina 75% dos royalties do petróleo para educação e 25% para a saúde;

Arquivamento da PEC 37, que retirava o poder de investigação do Ministério Público.

Para a classe política, o maior desafio à época foi tentar identificar o que desejavam aqueles grupos de pessoas que iam às ruas protestar. Governo e Congresso se viram em uma situação diferente da habitual.

Isso porque as manifestações não tinham liderança nem pauta definidas. Foram, na ocasião, organizadas nas redes sociais e com vetos a bandeiras de partidos políticos ou sindicatos.

Redução de passagens no transporte público, combate à corrupção, mais segurança e serviços públicos no “Padrão Fifa” foram alguns dos temas que apareceram no mosaico de reivindicações e que ainda aguardam uma resposta contundente das autoridades.

O “padrão Fifa” foi usado em cartazes porque um ano depois o Brasil sediaria a Copa do Mundo de futebol da Fifa.

Pactos

Presidente da Câmara em junho de 2013, o então deputado Henrique Eduardo Alves (MDB-RN), hoje um dos presos da Lava Jato, apontou o dever de a classe política “fazer a leitura correta” sobre os protestos.

À época presidente do Congresso, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) declarou: “Para excesso de democracia, mais democracia”.

Há cinco anos, ambos colocavam em votação uma lista de projetos para tentar contemplar os desejos variados das ruas. O Palácio do Planalto também reagiu. Na oportunidade, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o governo estava “ouvindo essas vozes pela mudança”.

Para a então presidente, os brasileiros enviavam uma mensagem direta por “mais cidadania, por melhores escolas, melhores hospitais, postos de saúde, pelo direito à participação”.

A presença de 1,25 milhão de pessoas nos protestos, em mais de 100 cidades, na quinta-feira, 20 de junho, levou a presidente a fazer um pronunciamento na TV e a convocar uma reunião com os 27 governadores e os 26 prefeitos de capitais. No encontro, Dilma propôs cinco pactos:

Responsabilidade fiscal;

Reforma política;

Saúde;

Transporte;

Educação.

O que dizem os analistas

Passados cinco anos desde as manifestações, especialistas ouvidos pelo G1 avaliam que a resposta do governo e do Congresso não resultou em mudanças profundas.

Para esses analistas, os brasileiros não percebem melhoras nos serviços públicos. O avanço da Lava Jato expôs a corrupção entre empresários e políticos, fazendo com que a população viva um momento de descrença na política, às vésperas de eleger um novo presidente da República.

Para o sociólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP) Rodrigo Augusto Prando, os pactos propostos por Dilma e as votações no Congresso foram uma tentativa de demonstrar que os políticos não estavam desconectados da sociedade.

Professor de ciência política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Adriano Oliveira reforça o argumento sobre a necessidade de reformas. Ele ainda destaca que a sociedade brasileira vive um “paradoxo”, como exigir pagar menos impostos, mas sem apoiar redução de despesas.

Para a cientista política Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a resposta da classe política às manifestações foi “opaca”. Na avaliação dela, as pessoas desejavam uma renovação política “brutal”, o que não se verificou.

“A mensagem basicamente era: ‘Não queremos mais do mesmo, não queremos uma classe política que procure só os seus próprios interesses, queremos uma classe política democrática, que responda a população'”, disse.

Na opinião da professora, a resposta aos protestos passaria por uma aliança de grupos políticos para aprovar reformas amplas, porém, Dilma não teve força para liderar esse movimento.

Esther identific como legado positivo das manifestações de junho de 2013 uma maior politização da sociedade, em especial dos jovens.

O cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer concorda com a análise. Para ele, as jornadas de 2013 também deixaram lições de como organizar grandes movimentos, o que foi utilizado nas manifestações que incentivaram o impeachment de Dilma.

FOTO: Maria Luiza Ribeiro Pereira Araujo/VC no G1