Depois de atravessar um período de dificuldades pessoais e violência doméstica, Jéssica Bittencout procurava uma maneira de reconstruir a própria trajetória. Mãe de três filhos, encontrou no trabalho uma possibilidade concreta de recuperar autonomia e renda. Incentivada por um tio, decidiu seguir por um caminho profissional que até então parecia distante: tornar-se motorista de caminhão.
“No meu pós-gestação, eu queria me sentir forte, mesmo não estando forte naquele momento. Procurando força para a minha vida, eu me tornei caminhoneira”, conta. Jéssica concluiu a habilitação necessária e trabalhou por cerca de um ano como motorista de ônibus. Mas queria voltar às estradas e aos caminhões.
A oportunidade apareceu depois de algumas passagens pela Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab). Em uma ação de empregabilidade, ela encontrou uma vaga compatível com seu perfil, participou da entrevista e foi contratada por uma transportadora.
“Estou gostando muito e me identifico bastante com o que faço profissionalmente. A Funtrab me proporcionou isso e sou muito grata por tudo. Um trabalho que gosto e garante renda em casa”, afirma.
A história de Jéssica ajuda a dar dimensão humana a um movimento que aparece nas estatísticas do mercado de trabalho sul-mato-grossense. Em 2025, Mato Grosso do Sul chegou a 1,46 milhão de pessoas ocupadas, registrou rendimento médio de R$ 3.727 e alcançou massa mensal de renda estimada em R$ 6,75 bilhões, a maior da série recente.
Ao mesmo tempo, a taxa média anual de desemprego caiu para 3%, colocando o Estado entre os três menores índices do país.
São números que, vistos isoladamente, descrevem o desempenho da economia. Na vida cotidiana, porém, significam algo mais simples e concreto: mais pessoas recebendo salário, mais famílias contando com renda do trabalho e mais trabalhadores, como Jéssica, encontrando uma oportunidade de inserção ou reinserção profissional.
Trabalho ganha peso na renda das famílias
O rendimento médio de R$ 3.727 colocou Mato Grosso do Sul na 7ª posição entre as 27 unidades da Federação em 2025. Desconsiderando o Distrito Federal, que tem características econômicas próprias e lidera o levantamento, MS aparece com o sexto maior rendimento médio entre os estados.
Também cresceu o contingente de trabalhadores. O Estado passou de aproximadamente 1,41 milhão de pessoas ocupadas em 2024 para 1,46 milhão em 2025, avanço de 4% em um ano.
Outro indicador mostra como esse movimento chega aos domicílios. Em 2025, 80,7% do rendimento domiciliar per capita dos sul-mato-grossenses veio do trabalho, ante 79,5% no ano anterior.
O rendimento domiciliar per capita — que considera os recursos disponíveis no domicílio divididos pelo número de moradores — alcançou R$ 2.369, o oitavo maior resultado do país. Diferentemente do rendimento médio do trabalhador, esse indicador procura retratar quanto, em média, está disponível para cada integrante da família.
É nesse contexto econômico que o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato aprovado em convenção partidária à reeleição, chega à disputa estadual de 2026. O desempenho do mercado de trabalho aparece como uma das dimensões mais concretas do atual ciclo de expansão econômica de Mato Grosso do Sul, mas também coloca novos desafios para o poder público.
Desemprego baixo muda o tamanho do desafio
A taxa média de desocupação de 3% em 2025 ficou atrás apenas de Mato Grosso, com 2,2%, e Santa Catarina, com 2,3%.
Em termos práticos, significa que, de cada 100 pessoas que participavam do mercado de trabalho — empregadas ou procurando efetivamente uma ocupação — aproximadamente 97 estavam trabalhando.
Os primeiros dados de 2026 mantiveram o mercado aquecido. No primeiro trimestre, a taxa de desemprego de Mato Grosso do Sul ficou em 3,8%, enquanto a média brasileira era de 6,1%.
O rendimento médio trimestral dos trabalhadores sul-mato-grossenses chegou a R$ 3.658, acima dos R$ 3.610 registrados no país. Aproximadamente 56 mil pessoas estavam sem conseguir ocupação, embora disponíveis para trabalhar, dentro de uma força de trabalho de 1,482 milhão.
Quando o desemprego se aproxima desses níveis, a natureza do problema começa a mudar. A necessidade de gerar vagas permanece, mas cresce outra dificuldade: encontrar profissionais com a formação exigida pelas empresas.
Para quem procura trabalho, isso significa que a existência da vaga não garante, por si só, o acesso à oportunidade. “É preciso aproximar experiência, capacitação e necessidades de um mercado que também está se transformando”, explica Riedel.
Emprego formal avança em diferentes setores
Os dados do Novo Caged reforçam esse cenário.
Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com 419.472 admissões e 399.716 desligamentos, saldo positivo de 19.756 empregos formais. O estoque chegou a 689.951 trabalhadores com carteira assinada, cerca de 2,9% acima de 2024.
A geração de vagas não ficou concentrada em apenas uma atividade. Todos os cinco grandes grupos econômicos fecharam o ano com saldo positivo.
A construção liderou, com 5.873 novos postos, seguida pelos serviços, com 4.835, indústria, com 4.536, comércio, com 3.258, e agropecuária, com 1.256.
A distribuição ajuda a explicar por que o mercado de trabalho se expandiu de maneira mais ampla. Cadeias ligadas à celulose, bioenergia, proteína animal e agroindústria ampliam a demanda diretamente, enquanto investimentos também movimentam construção, comércio e serviços.
A Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) identifica justamente a chegada de novos empreendimentos e a crescente necessidade de mão de obra qualificada como características do atual momento econômico.
Qualificação passa a definir quem acessa as novas vagas
A experiência de Jéssica também toca neste ponto. Para entrar em uma profissão diferente, foi necessário obter a habilitação exigida. Quando apareceu uma vaga adequada ao seu perfil, a preparação anterior permitiu que ela disputasse a oportunidade.
Os números da PNAD mostram como formação e rendimento estão relacionados.
Em 2025, Mato Grosso do Sul tinha 488 mil trabalhadores ocupados com ensino médio completo e 375 mil com ensino superior completo.
Entre quem concluiu o ensino superior, o rendimento médio chegava a R$ 6.632. Entre pessoas sem instrução, a média era de R$ 1.824 — diferença superior a três vezes.
O dado revela uma das principais fronteiras do mercado de trabalho sul-mato-grossense: em uma economia com desemprego baixo e novos investimentos, ampliar a qualificação profissional passa a ser essencial para que mais trabalhadores consigam ocupar as vagas que surgem e alcançar rendimentos maiores.
Por isso Riedel aponta a qualificação profissional, a inserção de jovens e mulheres e a atração de trabalhadores entre as prioridades para responder a essa demanda. Uma das iniciativas citadas pela administração estadual é o MS Qualifica, voltado à preparação de mão de obra.

Assim, a questão dos próximos anos deixa de ser apenas quantos empregos serão criados. “Passa também por quem estará preparado para ocupá-los e como fazer as novas oportunidades alcançarem grupos que ainda enfrentam barreiras no mercado”, aponta o governador.
Trabalho reduz dependência, mas desigualdades permanecem
Outro indicador ajuda a completar esse retrato. A proporção de domicílios de Mato Grosso do Sul com beneficiários do Bolsa Família caiu de 13% em 2024 para 9,5% em 2025, o equivalente a aproximadamente 102 mil domicílios.
É o quinto menor percentual do país e está abaixo da média brasileira, de 17,2%.
O dado, isoladamente, não permite afirmar por que determinada família deixou de receber o benefício, já que o programa possui regras de elegibilidade e outras variáveis interferem nesse movimento.
Quando observado ao lado da expansão da ocupação, do emprego formal e da maior participação do trabalho na renda dos domicílios, porém, ele ajuda a compor um cenário em que a atividade profissional ganhou peso na sustentação econômica das famílias.
Isso não significa que todos os problemas estejam resolvidos. Os próprios indicadores mostram diferenças de remuneração relacionadas à escolaridade, sexo e raça. São desigualdades que permanecem como desafio para políticas de educação, qualificação e inclusão produtiva.
A estratégia apresentada por Eduardo Riedel é utilizar o atual ambiente de investimentos e baixo desemprego para ampliar a formação profissional e conectar mais pessoas às oportunidades abertas por uma economia em transformação.
Quando a estatística entra pela porta de casa
Mato Grosso do Sul chega a esse novo estágio com 1,46 milhão de pessoas ocupadas, quase 690 mil empregos formais, uma das três menores taxas anuais de desemprego do Brasil, rendimento médio entre os maiores do país e massa mensal de renda de R$ 6,75 bilhões.
“O desafio agora é fazer com que crescimento e geração de empregos se convertam em oportunidades cada vez mais qualificadas, acessíveis e melhor remuneradas”, pontua o candidato.
É nesse ponto que histórias como a de Jéssica ajudam a explicar o que está por trás dos indicadores.
Depois de um período difícil, ela encontrou uma profissão, uma vaga e uma fonte de renda para a família. Sua trajetória não permite resumir a realidade de todo o Estado, mas mostra como uma oportunidade de trabalho pode adquirir um significado muito maior do que aquele registrado nas planilhas econômicas.
Para quem está do lado de fora das tabelas, desenvolvimento só se torna perceptível quando chega à vida cotidiana na forma de emprego, salário e possibilidade de planejar o futuro.
Em Mato Grosso do Sul, os números mostram que esse movimento avançou. O próximo passo é ampliar os caminhos para que outras pessoas também consigam encontrar, entre as vagas abertas por uma economia em expansão, uma oportunidade capaz de mudar sua própria trajetória.

