Mulheres contam como a escala 6 X 1 penaliza ainda mais quem tem dupla jornada

Registro de gravação na Rodoviária de Brasília. Captação: Adriano Sarmento - ASCOM | SGPR

A rotina de Amanda, 23 anos, moradora do Distrito Federal, começa bem cedo. Todos os dias às 5h30 da manhã já está de pé, preparando café e saindo para o trabalho numa escola de Brasília. Ela está contratada na escala 6 x 1, o que significa que folga apenas uma vez, por semana, aos domingos.

“Trabalho até às 3h da tarde e quando volto é o tempo de arrumar a casa, lavar roupa, aquela correria toda de mulher, e preparar um lanche para comer em casa e não gastar na faculdade”, conta Amanda, que é casada, mas ainda sem filhos. “Se tivesse filho seria ainda mais pesado”.

Amanda
Amanda, em gravação na rodoviária de Brasília. Registro: Adriano Sarmento – ASCOM | SGPR

A rotina só acaba depois das 22h30, quando volta da faculdade, onde chegou às 19h. “Já teve dia que pensei que não ia aguentar mais”, revela Amanda. “A vida cobra mais por ser mulher. Mas também por ser mulher, boto na cabeça que vai dar certo e lembro que vou me formar no ano que vem”.

Segundo Amanda, ter mais um dia livre na semana (fim da escala 6 x 1) significa mais tempo para se cuidar. “A mulher é quem mais rala pra cuidar das coisas, é muita pressão em cima, um dia a mais vai diminuir a sobrecarga, vou poder passear, porque quando chega o domingo quero só descansar”, conta. Mas apesar de toda a labuta, Amanda considera que ser uma mulher trabalhadora “é ser independente”.

Drible nas dificuldades – Natural da Bahia e moradora de Brasília, Róssia vê a mulher na sociedade como a pessoa que tem “super tarefas”. Seu dia começa às 7h da manhã, para levar o filho na faculdade e ser a acompanhante da filha cega também na faculdade.

Aposentada, aos 59 anos, acredita que buscar a participação dos homens em casa, dividindo melhor as tarefas, deixaria tudo mais fácil para todos. “A mulher é profissional, cuidadora, dona de casa” conta Róssia. Por isso, segundo ela, a escala 6 X 1 afeta ainda mais a mulher.

Rossia
Róssia, em gravação na rodoviária de Brasília. Registro: Adriano Sarmento – ASCOM | SGPR

“O trabalho é superimportante, mas o trabalho escravo, perverso, adoece principalmente as mulheres, que têm que lidar com muitos ciclos ao longo da vida, como a gestação, a maternidade a menopausa”, afirma Róssia, para completar. “A mulher sendo cuidada, toda a família está sendo cuidada”.

Correr atrás dos sonhos – A estudante de fisioterapia, Marisa, de 45 anos, trabalhava como porteira para pagar a faculdade. “Mas como era muito puxado, mudei pra faxina três dias por semana pra conciliar melhor com os estudos e correr atrás dos meus sonhos”, explica.

Marisa conta que a rotina puxada ao longo ao longo dos anos impede de ver os filhos crescerem. Ela, que é mãe de uma menina, relembra a fase de deixar a filha na creche de manhã cedo e buscar ao final do dia, quando as duas estavam cansadas e só queriam chegar em casa para dormir.

Marisa
Marisa, em gravação na rodoviária de Brasília. Registro: Adriano Sarmento – ASCOM | SGPR

“A mulher tem dupla rotina e aí quando só tem o domingo (de folga), é pra faxinar a casa, você não tem vida”, avalia. De acordo com ela, o mundo exige mais das mulheres e ainda faz diferença. “Você se sente desvalorizada quando percebe que ainda existe diferença de salário para um mesmo serviço feito pelo homem”.

Marisa afirma que quer realizar seus sonhos por esforço próprio. “Quero ser uma mulher empoderada, que conquista por si só, sabendo que ganhei por mérito, porque estudei, batalhei e consegui”.

Escala 6 x 1 – O fim da escala 6 X 1 foi o tema da primeira edição do Debate na Rua, realizado em Teresina (PI), como parte da programação do Governo do Brasil na Rua, que acontece nesta sexta (6) e sábado (7) na capital piauiense.

O ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência da República, conversou com a população e, principalmente, esclareceu dúvidas sobre o projeto do Governo do Brasil para reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais, possibilitando dois dias de folga por semana.

“Hoje tem muita gente que trabalha seis dias por semana e tem apenas um dia de descanso. E muitas vezes, principalmente as mulheres, ainda tem que trabalhar dentro de casa, cuidando dos filhos, arrumando, sem tempo para viver e curtir a família e um lazer”, disse o ministro Guilherme Boulos, no início da Debate na Rua.

A primeira pergunta do debate com o ministro foi da Dona Valdelice, preocupada com a possibilidade de não trabalhar mais aos sábados e com isso ter diminuição de salário. “Com o fim da escala 6 X 1 que o presidente Lula está defendendo não vai haver desconto no salário e será obrigatório ter dois dias de descanso por semana”, explicou o ministro Boulos.

Fonte: Secretaria-Geral