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terça-feira, 22 de setembro, 2026

Nova economia muda o mapa do trabalho em Mato Grosso do Sul

Aos 19 anos, Geovana Santos Silva começa a enxergar o futuro profissional sem precisar olhar para longe de Inocência, cidade onde nasceu e cresceu. Desde setembro de 2025, ela cursa Técnico em Celulose e Papel no Senai e aprende, em laboratórios e equipamentos que reproduzem o ambiente industrial, uma profissão diretamente relacionada à transformação econômica que acontece ao redor dela.

A construção da fábrica de celulose da Arauco alterou o mercado de trabalho e a rotina do município e abriu para jovens como Geovana uma perspectiva que até pouco tempo não existia na mesma escala: preparar-se para disputar uma vaga qualificada dentro da própria cidade.

“Quero aproveitar as oportunidades que surgem com o crescimento do setor e me preparar para o futuro. A cidade está crescendo e as expectativas são as melhores possíveis. Estou absorvendo todo conhecimento na teoria e na prática. É incrível ter este contato com laboratório, equipamentos que reproduzem o ambiente industrial. Quero garantir o emprego e seguir me qualificando dentro do segmento”, afirma.

A experiência de Geovana ajuda a traduzir um dos principais desafios colocados pela transformação econômica de Mato Grosso do Sul: fazer com que os grandes investimentos que chegam ao Estado não produzam apenas fábricas, obras e estatísticas, mas também oportunidades acessíveis aos trabalhadores que já vivem nos municípios onde esse novo ciclo se instala.

É nesse ponto que a gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, procura articular atração de investimentos, infraestrutura e qualificação profissional. A proposta é aumentar as condições para que uma parcela maior das vagas abertas pelas novas indústrias e cadeias produtivas seja ocupada por trabalhadores formados no próprio Estado.

Quase 20 mil empregos em um ano

Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com saldo positivo de 19.756 empregos formais e 689.951 vínculos com carteira assinada, crescimento de 2,91% em relação ao ano anterior.

O avanço não ficou concentrado em apenas uma atividade. A construção civil liderou o saldo anual, com 5.873 empregos, seguida pelos serviços, com 4.835, indústria, com 4.536, comércio, com 3.258, e agropecuária, com 1.256.

Os números revelam uma economia em processo de diversificação. Mas também expõem uma questão que se torna cada vez mais importante à medida que novos empreendimentos chegam ao Estado: quem está preparado para ocupar as vagas de maior qualificação?

Inocência oferece uma fotografia desse desafio.

Nos primeiros meses de 2025, o município registrou 1.385 admissões e saldo positivo de 730 empregos, resultado que o colocou entre os maiores geradores de vagas de Mato Grosso do Sul naquele período. A mudança levou também à instalação de uma unidade da Casa do Trabalhador, criada para aproximar empresas e profissionais.

Geovana faz parte da geração que tenta entrar nesse novo mercado pela qualificação. Em vez de acompanhar a expansão econômica apenas como espectadora, procura adquirir a formação técnica exigida por uma indústria que chega trazendo postos de trabalho, mas também novas exigências profissionais.

O Vale da Celulose e a transformação das cidades

A cadeia florestal tornou-se uma das expressões mais visíveis dessa mudança.

Em 2025, Mato Grosso do Sul possuía aproximadamente 1,75 milhão de hectares de florestas plantadas, área mais de cinco vezes superior à registrada dez anos antes. Os investimentos previstos no setor podem superar R$ 70 bilhões até 2028.

O impacto ultrapassa os limites das fábricas. Produção florestal, transporte, manutenção industrial, alimentação, alojamento, comércio e fornecedores passam a integrar uma cadeia que, no início de 2025, já reunia mais de 14,9 mil empregos diretos e aproximadamente 12 mil indiretos.

Em Inocência, o projeto da Arauco foi aprovado com investimento estimado em US$ 4,6 bilhões, equivalente a cerca de R$ 25 bilhões na cotação divulgada em 2025. A unidade deverá ter capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano.

Em Bataguassu, outro empreendimento prevê investimento de US$ 4 bilhões, aproximadamente 10 mil empregos durante as obras e cerca de 3 mil postos na fase de operação.

Em maio de 2025, uma lei estadual oficializou a denominação Vale da Celulose e autorizou políticas integradas de desenvolvimento sustentável, logística e qualificação profissional.

A escala dos investimentos, porém, traz um problema que acompanha praticamente todos os ciclos de expansão acelerada: uma vaga criada em determinado município não significa necessariamente uma vaga ocupada por quem já mora ali.

“A criação de empregos, porém, não elimina automaticamente as desigualdades locais. Grandes obras atraem profissionais de outras regiões quando os municípios não dispõem de trabalhadores qualificados em quantidade suficiente. Essa é uma preocupação constante de nossa parte”, afirma Riedel.

É justamente nessa fronteira que a experiência de Geovana ganha dimensão mais ampla. Ter uma fábrica instalada na cidade cria oportunidades; possuir a formação necessária para atravessar seus portões é outra questão.

Crescimento que se espalha pela economia

A celulose é o exemplo mais evidente, mas não é o único setor responsável pela transformação do mercado de trabalho sul-mato-grossense.

Em maio de 2025, o Estado reunia uma carteira estimada em R$ 105 bilhões em investimentos privados anunciados ou em andamento.

Além da cadeia florestal, a expansão inclui bioenergia, avicultura, suinocultura, citricultura, amendoim, processamento de alimentos, logística e comércio exterior. O movimento amplia o peso de atividades industriais e de processamento em uma economia historicamente ligada à produção primária.

Para a doutora em economia do desenvolvimento Laís de Azevedo, a chegada de grandes empresas desencadeia um processo que ultrapassa o emprego diretamente criado pelo empreendimento.

“Uma indústria, uma planta de processamento ou um grande empreendimento precisa contratar fornecedores, transportadoras, serviços de manutenção, alimentação, hospedagem, tecnologia, construção civil e diversos outros serviços. Grande parte dessas demandas pode ser atendida por pequenas e médias empresas locais”, explica.

O dinheiro pago em salários e contratos também volta a circular.

“Quando novos empregos são criados, as famílias passam a consumir mais no comércio, nos serviços e no setor imobiliário. Esse movimento beneficia desde pequenos comerciantes até profissionais autônomos”, afirma a economista.

Segundo Laís, é essa cadeia que transforma um grande investimento em algo maior do que os empregos existentes dentro dos portões de uma fábrica.

O risco de crescer sem incluir

O avanço do emprego formal não elimina, contudo, uma das fragilidades do mercado de trabalho estadual.

Em 2025, 62,8% da população ocupada de Mato Grosso do Sul estava no mercado formal, enquanto 37,2% permanecia na informalidade.

Isso significa que a abertura de vagas representa apenas uma parte do desafio. A qualidade do emprego, a estabilidade, a remuneração e a possibilidade de construir uma trajetória profissional também determinam se o crescimento econômico efetivamente melhora as condições de vida.

Há ainda uma diferença importante entre as fases de implantação e operação dos grandes empreendimentos.

As obras costumam demandar grande contingente de trabalhadores, inclusive em funções temporárias. Quando a fábrica entra em funcionamento, o perfil das vagas muda e cresce a necessidade de profissionais técnicos e especializados.

Sem qualificação, parte dos trabalhadores que encontra emprego durante a construção pode perder espaço justamente quando o empreendimento entra em sua fase permanente.

“Por isso, as políticas de qualificação precisam alcançar também adultos que deixaram a escola, informais, mulheres que desejam retornar ao mercado e moradores de cidades pequenas”, afirma Riedel.

Desenvolvimento também pressiona as cidades

Os efeitos de um grande empreendimento também aparecem fora do mercado de trabalho.

A chegada de milhares de trabalhadores aumenta a demanda por moradia, saúde, escolas, transporte, saneamento, segurança e infraestrutura urbana. Em cidades pequenas, a mudança pode ocorrer em velocidade suficiente para pressionar aluguéis e serviços públicos e alterar rapidamente a rotina dos moradores.

O crescimento, portanto, produz uma dupla tarefa para o poder público: criar condições para receber investimentos e, ao mesmo tempo, preparar os municípios para as consequências desses investimentos.

A política conduzida pela gestão Riedel procura tratar esses dois movimentos como partes do mesmo processo. A lógica é que a instalação de uma indústria não se encerre na fábrica, mas seja acompanhada por infraestrutura, qualificação de trabalhadores e capacidade de inserir fornecedores e serviços locais na nova cadeia econômica.

O desafio ganha ainda mais peso para famílias que não estão em situação de extrema pobreza, mas enfrentam aluguel elevado, alimentação, transporte, crédito caro e dificuldade para financiar cursos particulares. Nesse grupo, a passagem para um emprego mais qualificado pode representar a diferença entre administrar o orçamento mês a mês e conquistar maior estabilidade.

Fazer o emprego encontrar o trabalhador

Com quase 20 mil postos formais acrescentados em 2025, Mato Grosso do Sul chega à etapa seguinte desse processo: aproximar as oportunidades das pessoas capazes de ocupá-las.

Isso passa por identificar antecipadamente as profissões que serão exigidas pelos novos empreendimentos, oferecer qualificação nos próprios municípios, criar caminhos para quem precisa retornar aos estudos e conectar empresas e trabalhadores.

“Mato Grosso do Sul já demonstrou capacidade para atrair grandes investimentos. A etapa seguinte é fazer com que essa mudança apareça no salário, na estabilidade e na trajetória profissional de quem vive no Estado”, afirma Riedel.

Em Inocência, Geovana ainda está no início dessa trajetória. Sua expectativa não nasce apenas da presença de uma fábrica bilionária no município, mas da possibilidade de adquirir o conhecimento necessário para encontrar um lugar dentro da economia que cresce ao seu redor.

O laboratório onde aprende hoje reproduz parte do ambiente industrial que poderá encontrar amanhã.

É nessa passagem — entre investimento e profissão, entre crescimento econômico e oportunidade individual — que está um dos principais testes do novo ciclo vivido por Mato Grosso do Sul: fazer com que a transformação das cidades também possa ser percebida na vida de quem já estava nelas antes da chegada das fábricas.