Quantas vezes na escola você se perguntou “Onde vou usar isso?” ou “Como isso se encaixa na minha vida?” durante uma aula de física, matemática ou química? E a verdade é que todas essas áreas nos cercam e são encontradas no dia a dia, inclusive durante a maior festa do país: o Carnaval. Prova disso é que, neste ano, a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) distribuiu kits de detecção de metanol em bebidas alcoólicas destiladas para serem usados durante as festividades.
Em 2025, houve um pico de casos e mortes no Brasil em decorrência de intoxicação por metanol por meio da ingestão de bebidas alcoólicas. Até fevereiro deste ano, 16 pessoas faleceram e 62 casos foram confirmados, segundo o Ministério da Saúde. Foi nesse contexto, de acordo com o pesquisador David Fernandes, que o kit de detecção do composto químico começou a ser usado para uso geral.
“Quando começaram a aparecer casos, aceleramos essa linha de pesquisa e trabalhamos para compactar as reações que já dominávamos em um suporte sólido. A partir daí, otimizamos as condições experimentais para que o teste fosse sensível, confiável e simples, que permitisse identificar rapidamente a bebida como suspeita de adulteração por metanol”, explica o especialista vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), agência ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Os pesquisadores desenvolveram três tecnologias pioneiras de detecção de metanol: o teste colorimétrico, o teste infravermelho e os canudos biodegradáveis. Durante o Carnaval, o teste utilizado pelos técnicos será o colimétrico. “Ele é feito com algumas amostras de bebidas e reagentes em três etapas, cada uma de cinco minutos de reação. Com a ajuda de um aplicativo, a reação vai ser comparada e, dependendo da cor, vai determinar se apresenta metanol ou não”, explica.
A ação de Carnaval, em parceria com o governo do estado da Paraíba, será feita por agentes do Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) do estado treinados para utilizar o teste, que conta com quatro reagentes, dois recipientes, luvas, saco para descarte e um guia prático de uso.
Inicialmente, ainda de acordo com David, o kit foi criado para o controle de qualidade de cachaças produzidas na Paraíba. “Pela legislação, esse controle exige medir parâmetros com instrumentos sofisticados e de alta precisão, porém o acesso a essa estrutura costuma ser cara e depende de pessoal especializado, o que leva a uma demora. Então, nossos projetos já tinham o objetivo de criar métodos rápidos, de baixo custo, fácil de ser utilizado e com menor consumo de reagentes”, explica.
David, assim como a maioria, se perguntou “Onde vou usar isso?” ou “Como isso se encaixa na minha vida?” durante uma aula na escola, e, mesmo assim, ele persistiu e hoje vê a pesquisa com a qual ele colaborou sendo usada para resolver um problema nacional. “É até difícil colocar em palavras o sentimento para todo o grupo. É muita felicidade e gratidão, porque a gente percebe que o trabalho saiu do ambiente acadêmico e passou a contribuir para uma solução de um problema real, com impacto direto na vida das pessoas”, conta.

