Não foram apenas 1,7 mil quilômetros deixados para trás. O trajeto de ônibus desde Barquisimeto, na Venezuela, até Boa Vista, em Roraima, significou uma transformação profunda na vida do casal Raúl, 39 anos, e Marian Viscaya, de 35, e da filha, Leah, de 8. Movidos pela esperança, eles deixaram a terra natal e familiares, levando consigo apenas histórias e memórias.
“Viemos em busca de uma melhora, devido à situação econômica da Venezuela”, explicou Raúl, que é técnico em informática e tem um irmão já estabelecido em São Paulo, destino final da viagem da família.
Professora e cuidadora, Marian busca estabilidade financeira, sobretudo pensando no futuro da filha. “Mais do que tudo, por ela, porque nós já somos adultos”, afirmou, enquanto aguardava, no Posto de Triagem de Boa Vista, a documentação necessária para residir no Brasil.
A mesma esperança acompanha Yarumi Cótez, 34 anos, que atravessou a fronteira pensando no futuro do filho Elias, de 10 anos, que sonha em ser jogador de futebol. “É trabalhar para garantir qualidade de vida e um futuro melhor para meu filho”, disse.
Vestindo a camisa da seleção “Vino Tinto”, o pequeno torcedor do Monagas, time de seu estado natal, afirmou que sabe um ‘pouquinho’ de português. Já o discurso como atleta está afinado. Qual posição você joga? “A que me colocar eu jogo”.
Com familiares em Rio Verde (GO), Yarumi elogiou a organização e o tratamento recebido desde a chegada ao Brasil. “Entramos pelo posto de triagem de Pacaraima. Nos trataram muito bem, é tudo bem organizado.”
A reunificação familiar é uma das modalidades da Operação Acolhida, que, entre 2018 e dezembro de 2025, promoveu a interiorização de mais de 156,65 mil migrantes e refugiados que chegaram pela fronteira norte. Eles foram encaminhados para 1.112 municípios brasileiros. Esse, no entanto, não foi a escolha de Del Valle González, 46 anos, que decidiu fixar raízes em Boa Vista.
“Meu marido começou a entregar currículo em supermercados e em uma empresa de construção. Estamos aguardando uma oportunidade para alugar uma casa e empreender. Meus filhos estudam aqui há um ano”, contou Del Valle, que chegou à capital de Roraima após passar seis anos sem enxergar.
“Na Venezuela, me disseram que eu poderia ser operada no Brasil. Ouvi relatos de pessoas que vieram, fizeram a cirurgia e ficaram bem”, recordou. Ela viajou com o marido, uma filha de 14 anos e um filho de 12.
Ao se instalar no abrigo Rondon 1, o maior da América Latina, Del Valle deu entrada no processo para a cirurgia. “Começamos a fazer exames e ir à clínica. Os médicos me deram a esperança de que iam me ajudar a voltar a enxergar, porque estava muito jovem”, relatou. “Foi incrível. Depois de seis anos sem enxergar, voltar a ver é fantástico. Eu falava para os meus filhos: como estão grandes, quanta diferença.”
Atualmente, Boa Vista conta com seis abrigos, sendo metade destinada ao acolhimento de indígenas venezuelanos. Há ainda dois alojamentos de trânsito, sendo um na capital do estado e outro em Pacaraima (RR), município que é a primeira parada de quem entra no Brasil por terra. No posto da fronteira, os migrantes passam pela triagem em saúde, recebem vacinas e iniciam o processo de documentação.
No Posto de Triagem (Ptrig) de Boa Vista, os migrantes são recebidos em uma etapa inicial de orientação, que inclui uma apresentação sobre os serviços disponíveis, conduzida pelas agências que atuam na Operação Acolhida.
As pessoas podem dar encaminhamento ao pedido de residência ou refúgio, além de contar com atendimento da Polícia Federal e da Receita Federal, o que facilita o acesso à documentação para entrar e morar no país.
Quem necessita de abrigamento é encaminhado para unidades destinadas a não indígenas ou indígenas, conforme o caso. As ações de acolhimento e interiorização são coordenadas pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).
“A orientação do presidente Lula é sempre trabalharmos juntos. E aqui, trabalhamos também com organismos ligados à ONU, parceiros importantes de entidades, com experiência, para garantir melhor condição de acolhida e para que essas pessoas possam ter a oportunidade de trabalhar”, explicou o ministro Wellington Dias.
Com gestão compartilhada entre o MDS e a AVSI, o abrigo Rondon 1 conta com 361 unidades habitacionais e capacidade para 2.242 pessoas. “No momento que chegam aqui, a gente explica as normas do abrigo, leva para uma das unidades habitacionais e faz a inserção dos dados deles no registro. Assim, a gente busca receber da melhor forma possível, com um tratamento humano e carinhoso”, explicou Lázaro de Almeida, coordenador do Rondon 1.
Os profissionais que trabalham na gestão do abrigo também promovem a integração com a rede de serviços públicos, como os Centros de Referência de Assistência Social (Cras). “O Governo do Brasil mantém uma forte parceria com estados, municípios e agências de cooperação para acolher migrantes e refugiados”, destacou o secretário nacional de Assistência Social do MDS, André Quintão. “É um trabalho coletivo, em rede, que assegura dignidade humana e esperança de vida a milhares de pessoas”, concluiu.
Interiorização
A interiorização é o deslocamento voluntário dos acolhidos para outras cidades. A estratégia prevê quatro modalidades, que seguem critérios rigorosos de proteção social:
1- Institucional: acolhimento em abrigos de parceiros fora de Roraima;
2- Reunificação de Famílias: acolhimento por familiar já estabelecido fora do estado, com apoio mínimo de três meses;
3- Reunião Social: acolhimento por amigo já estabelecido, também com apoio mínimo de três meses;
4- Vaga de Emprego Sinalizada: o imigrante tem a oportunidade de uma vaga de emprego ofertada por empresas.
Assessoria de Comunicação – MDS
Fonte: Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome

