Geriatra do Humap-UFMS explica sinais que merecem atenção
Quedas, perda de força, alterações de memória e dificuldades de visão e audição podem interferir na autonomia e merecem avaliação
Envelhecer faz parte da vida e envolve mudanças naturais no organismo. Algumas são facilmente percebidas, como o aparecimento de cabelos brancos e rugas. Outras acontecem de forma menos visível, como a redução da massa muscular e alterações na função dos rins.
Mas como diferenciar o que faz parte do envelhecimento natural daquilo que pode indicar um problema de saúde?
No contexto do Outubro Prata, mês dedicado à conscientização sobre o envelhecimento, a médica geriatra Marta Driemeier, do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Humap-UFMS), filial da HU Brasil, explica que essa diferenciação é um dos desafios da avaliação da pessoa idosa. Segundo ela, é preciso evitar tanto atribuir todas as queixas à idade quanto submeter o paciente a investigações desnecessárias.
“Precisamos de uma boa anamnese e exame físico detalhado para separar o joio do trigo”, explica.
De maneira geral, sintomas novos, persistentes, que pioram ao longo do tempo ou começam a interferir nas atividades cotidianas merecem investigação.
Quedas não devem ser consideradas normais
As quedas estão entre os sinais que não devem ser naturalizados com o avanço da idade.
Na Geriatria, a queda é considerada um evento sentinela, ou seja, um sinal de alerta que precisa ser investigado. Muitas vezes, não existe uma única causa, mas uma combinação de fatores.
Entre as possibilidades estão o uso inadequado de medicamentos, calçados inadequados, infecções, doenças neurológicas, desnutrição e sarcopenia, caracterizada pela redução da força e da massa muscular.
Quem já sofreu uma queda também apresenta maior risco de cair novamente. Por isso, além de identificar e tratar os fatores envolvidos, é importante cuidar da saúde óssea para reduzir o risco de fraturas.
Quando o esquecimento precisa de atenção?
Esquecer algo ocasionalmente, sem impacto nas atividades do dia a dia, geralmente não é motivo de preocupação. Porém, quando a própria pessoa percebe falhas de memória ou quando familiares observam mudanças, é importante buscar avaliação.
Alterações de memória podem estar relacionadas a diferentes causas, como problemas da tireoide, depressão, uso de determinados medicamentos e demências.
A avaliação não considera apenas testes cognitivos. Também é importante observar se existe impacto nas atividades cotidianas.
A família pode ter papel importante nesse processo, já que algumas mudanças podem ser percebidas primeiro por quem convive com o idoso.
Cansaço e perda de força também merecem atenção
A redução da disposição ou da força pode ter diferentes causas.
O cansaço pode estar relacionado desde noites mal dormidas até problemas cardiopulmonares, anemia e alterações hormonais, como distúrbios da tireoide.
Já a perda de força está frequentemente relacionada à sarcopenia e pode ser favorecida pelo sedentarismo, pela baixa ingestão de proteínas e por algumas doenças.
Quando esses sintomas começam a interferir na rotina, a investigação da causa pode ajudar a identificar o tratamento adequado e preservar a funcionalidade.
Visão e audição influenciam a independência
Alterações de visão e audição também podem comprometer a autonomia.
Além de aumentarem o risco de quedas, essas dificuldades podem interferir em tarefas cotidianas, como utilizar medicamentos corretamente, preparar refeições e participar de atividades de lazer.
Também podem prejudicar a comunicação e o convívio social, favorecendo o isolamento.
Autonomia também faz parte da saúde
Para a Geriatria, saúde não significa necessariamente ausência de doenças. Uma pessoa pode envelhecer convivendo com uma ou mais condições crônicas e, ainda assim, manter autonomia e qualidade de vida.
Por isso, o cuidado deve considerar não apenas quais doenças estão presentes, mas quanto elas interferem na capacidade de a pessoa conduzir a própria vida.
A família tem papel importante nesse processo. Quando o idoso mantém sua capacidade de decisão, suas escolhas devem ser respeitadas, evitando a superproteção e a realização de tarefas que ele ainda consegue executar sozinho.
A médica lembra o caso de uma paciente cujos filhos faziam as compras para facilitar sua rotina. O desejo dela, porém, era simplesmente poder ir ao mercado e escolher o próprio xampu.
O exemplo mostra que ajudar também pode significar preservar a possibilidade de escolher e participar da própria rotina.
Quando a pessoa já não possui capacidade para tomar determinadas decisões, as vontades que manifestou anteriormente também devem ser consideradas. Entre os instrumentos existentes estão as diretivas antecipadas de vontade, elaboradas enquanto a pessoa ainda está lúcida e consciente de seus desejos.
Envelhecer bem começa antes da velhice
A construção de um envelhecimento saudável acontece ao longo de toda a vida.
Atividade física, alimentação adequada e acompanhamento das condições de saúde ajudam a cuidar do corpo. Leitura, aprendizado e novos interesses estimulam a mente. Já os vínculos, amizades e momentos de convivência contribuem para a saúde emocional e ajudam a evitar o isolamento.
“Envelhecer bem não começa na velhice. É uma construção diária, feita ao longo de toda a vida”, afirma Marta.
Mais do que observar apenas a presença ou ausência de doenças, o envelhecimento saudável envolve preservar, pelo maior tempo possível, a capacidade de viver, escolher, participar e manter vínculos.
Fonte: HUMAP-UFMS

