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quinta-feira, 8 de outubro, 2026

Para que o mal permaneça, basta que os bons se omitam. por Wilson Aquino

A frase que dá título a este artigo é atribuída ao filósofo e estadista irlandês Edmund Burke (1729-1797). A formulação exata, como a conhecemos hoje, não aparece textualmente em seus escritos, mas o pensamento está lá, em sua Carta aos Xerifes de Bristol (1777): “Os maus só precisam de simpatia e apoio silencioso para prevalecerem; e quando os homens bons se calam, o mal é realizado.” Mais de dois séculos depois, John Stuart Mill a condensou num apelo que ecoa até nós: “Tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada.”

Pois é exatamente disso que quero falar. Não como um tratado filosófico, mas como um grito de quem observa o Brasil de hoje e se recusa a aceitar que estejamos apenas assistindo, de braços cruzados, ao naufrágio de um país que tinha, e ainda tem, tudo para ser uma das maiores nações do mundo.

O mal, na política, raramente chega com trombetas anunciando sua intenção. Ele chega devagar, na forma de promessas que nunca se cumprem, de estatísticas maquiadas, de um discurso bonito que esconde uma prática destruidora. E só prospera porque encontra, do outro lado, uma maioria silenciosa que prefere não se incomodar, não discutir, não sair de casa, não se indignar.

O silêncio dos bons não é neutro. É uma licença, uma autorização tácita para que os maus continuem agindo sem medo de represálias, sem temor de cobrança. Quando os bons se calam, o mal não apenas continua: fortalece-se, ganha confiança, perde o pudor e passa a agir como se aquele estado de coisas fosse natural, inevitável, até desejável.

Olhemos ao nosso redor, sem paixão partidária, apenas com honestidade. Há mais de duas décadas, o Brasil vive sob a condução de um mesmo campo político que se alterna no poder, mas que, no essencial, mantém o mesmo projeto: gastar mais do que arrecada, endividar o país e cobrar do povo uma carga tributária cada vez mais pesada, sem devolver, em troca, o mínimo que se espera de um Estado que se diz responsável.

A saúde está em colapso. Filas intermináveis, hospitais sucateados, pacientes que morrem esperando por um leito, por um exame, por um medicamento que deveria ser direito básico e virou privilégio de poucos. A educação, que deveria ser a grande alavanca de transformação social, entrega crianças e jovens sem o aprendizado mínimo, com escolas que mais parecem depósitos de gente do que templos do saber. A infraestrutura, estradas esburacadas, ferrovias abandonadas, hidrovias esquecidas, portos congestionados, engole a produção e encarece tudo o que o brasileiro consome.

E o que recebemos em troca de tantos impostos, de um Estado que engole quase metade da renda nacional? Promessas. Sempre promessas. Falsas estatísticas de que “tudo está bem”, falsas promessas de que “tudo ficará ainda melhor”. Enquanto isso, o povo trabalha, produz, paga, e vê o fruto do seu esforço ser dilapidado por uma máquina que se alimenta dela mesma.

O que mais assusta, porém, não é a incompetência, que ao menos pode ser corrigida. O que assusta é a ganância, a voracidade de quem quer se manter no poder a qualquer custo, e que, para isso, vale absolutamente tudo. Corrompe-se o Legislativo com cargos de alto escalão. Corrompe-se o Judiciário com salários vultuosos e regalias abundantes. Monta-se uma teia de interesses em que o bem público é a última coisa que importa, e a permanência no poder, a primeira.

E, para garantir que ninguém reclame, mantém-se uma parcela enorme da população no cabresto. Não me entendam mal: benefício social, quando bem aplicado, é instrumento de justiça. Mas quando vira moeda de troca eleitoral, quando cria uma legião de dependentes que votam com medo de perder o auxílio, deixa de ser proteção e vira algema. É assim que se constrói o ciclo perverso: o povo empobrecido depende do governo, e o governo depende do povo empobrecido para se manter. A miséria, convenientemente administrada, é o preço do poder.

E é aqui que a indignação se torna ainda mais dolorosa. Porque o Brasil não precisa ser assim. Temos terras férteis como poucas no planeta, extensões territoriais gigantescas, um clima que permite produzir até três safras agrícolas por ano, uma dádiva que nenhuma potência mundial possui. Temos riquezas minerais em abundância, temos petróleo. E temos, acima de tudo, um povo trabalhador, aguerrido, criativo, que não foge à luta.

O que nos falta não é riqueza. É gestão. É honestidade. É a coragem de tirar do caminho aqueles que, há décadas, transformaram o Estado brasileiro em um balcão de negócios onde o que se vende é a esperança do povo e o que se compra é a permanência no poder.

Imaginem o Brasil que poderíamos ser: estradas, ferrovias e hidrovias em perfeita ordem, escoando e transformando as riquezas naturais e as riquezas produzidas pela força de trabalho do brasileiro. Saúde de qualidade para todos. Educação que forme cidadãos, e não apenas mão de obra barata. Um país que respeita o dinheiro do contribuinte e devolve, em obras e serviços, aquilo que dele cobra.

Esse Brasil existe, escondido atrás da cortina de fumaça das falsas estatísticas e das promessas vazias. E só não se realiza porque os bons, nós, continuamos nos omitindo.

Não dá mais para ficar de braços cruzados, esperando que “alguém resolva”. Esse alguém somos nós. Os bons precisam se indignar, ir às ruas, não por ódio, mas por amor ao país. Precisam conversar, debater, criticar, questionar e votar consciente. Precisam mostrar, com fatos e coragem, que não está nada bem no Brasil, que vivemos um caos econômico que cobra seu preço de cada família brasileira, e que as coisas poderão ficar muito piores se continuarmos entregando os destinos da República às mesmas pessoas e organizações que nos trouxeram até aqui.

Os bons precisam vencer a enganação de uma minoria que, com falsas estatísticas e falsas promessas, consegue enganar multidões. Porque já ficou provado, na prática, que o projeto desses que nos governam prefere manter o povo empobrecido e dependente do Estado para sobreviver, porque é assim, e somente assim, que se perpetuam no poder. A omissão dos bons é o combustível do mal. E o contrário também é verdade: a ação dos bons é a sua sentença de morte.

Há uma verdade que antecede todos os filósofos e todas as teorias políticas. Há milênios, a Palavra de Deus já descrevia com precisão assustadora o cenário que o Brasil enfrenta hoje. Está escrito no livro de Provérbios: “Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas, quando o ímpio domina, o povo geme.” (Provérbios 29:2)

O Brasil geme. Geme nas filas dos hospitais, onde a vida espera e a morte chega primeiro. Geme nas escolas onde nossas crianças não aprendem. Geme nas estradas esburacadas que engolem sonhos, safras e mercadorias. Geme no bolso de quem trabalha o mês inteiro, paga impostos de país rico e recebe serviços de país falido. Esse gemido coletivo é a confirmação, na vida real, de uma verdade proclamada há mais de dois mil anos.

Mas a mesma Palavra que anuncia o gemido anuncia também a cura. Ela diz que quando os justos governam, o povo se alegra. Não é um sonho impossível. É uma promessa, e as promessas de Deus não falham. Elas dependem, porém, de uma condição: que haja justos dispostos a se levantar, a sair da omissão e a ocupar o lugar que lhes pertence, não para proveito próprio, mas para o bem do povo.

Edmund Burke tinha razão. John Stuart Mill tinha razão. E a Palavra de Deus, que veio antes de todos, tinha razão antes de todos: os bons têm o dever de agir, porque o silêncio dos bons é o triunfo do mal.

Que os justos se levantem. Que a honestidade, o trabalho e a verdade voltem a governar este país. Que o povo brasileiro deixe de gemer para voltar a se alegrar, como promete a Escritura. Porque o Brasil tem tudo para ser um país de primeiro mundo. Só falta que os bons tomem de volta aquilo que sempre foi deles: a esperança, a indignação e a coragem de lutar por um futuro melhor.

A história não perdoa os omissos. E o Brasil não pode esperar mais. Vote! Vote certo! Vote consciente!