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segunda-feira, 10 de agosto, 2026

‘Por que ela não vai embora?’: Agosto Lilás relembra a dura realidade de mulheres em situação de violência

Conhecido por ser um movimento nacional de conscientização pelo fim da violência contra a mulher, o Agosto Lilás surgiu para reforçar a importância da prevenção, do acolhimento e da garantia de direitos às vítimas. Passados quase 20 anos da promulgação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), especialistas reconhecem os avanços na proteção legal, mas alertam que romper o ciclo da violência ainda representa um dos maiores desafios para milhares de brasileiras, diante da dependência emocional, econômica e social que muitas enfrentam.

“O enfrentamento da violência doméstica passa pela construção de uma rede de apoio capaz de oferecer segurança, atendimento psicológico, assistência social e condições para que as mulheres reconstruam suas vidas. A pergunta frequentemente dirigida às vítimas ‘Por que ela não vai embora?’, ignora uma realidade muito mais complexa. Os relacionamentos abusivos não são marcados apenas pela violência, já que alternam momentos de tensão, agressão, arrependimento, pedidos de desculpas e uma fase de aparente tranquilidade, conhecida como ‘lua de mel’. Esse ciclo confunde a vítima, fragiliza sua autoestima e faz com que muitas se sintam presas à relação”, explica Tânia Gomes, professora do Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde (PPGPS) e do curso de Medicina da UniCesumar de Maringá (PR).

Segundo a docente, fatores como dependência financeira, filhos pequenos, dificuldade de retorno ao mercado de trabalho e o descumprimento de obrigações por parte de muitos agressores tornam a decisão de romper o relacionamento ainda mais difícil. “Imaginar que sair de uma relação violenta depende apenas de vontade é ignorar obstáculos econômicos, emocionais e sociais que ultrapassam, em muito, a violência física”, complementa.

Segundo levantamento do Anuário de Segurança Pública, a violência de gênero no Brasil segue em trajetória crescente, contabilizando 1.571 casos de feminicídio ao longo de 2025. O número representa uma alta de 4% no índice, se comparado ao ano de 2024 (1.504). Os dados são considerados históricos, visto que é a maior quantidade de registros desde a sua criação, em 2015. O indicador ainda apontou alta em outros índices que configuram a violência contra a mulher: violência psicológica, que cresceu 17%; stalking com 30% e descumprimentos de medidas protetivas, com alta de 17%.

A violência começa antes das agressões

Embora os casos de agressão física costumem ganhar maior visibilidade, a violência psicológica geralmente é o primeiro estágio dos relacionamentos abusivos. Ela se manifesta de forma silenciosa, por meio de humilhações, controle e desvalorização constante da vítima. “As agressões costumam começar com ‘brincadeiras’, piadas humilhantes e comentários que colocam em dúvida a capacidade da mulher como profissional, mãe ou companheira. Aos poucos, esse comportamento se intensifica e provoca sofrimento emocional, tristeza e adoecimento”, ressalta a Gomes.

A lei protege, mas a reconstrução depende de uma rede de apoio

Embora a Lei Maria da Penha tenha fortalecido os mecanismos legais de proteção às vítimas, a recuperação emocional exige acompanhamento contínuo. Psicólogos, assistentes sociais, profissionais da saúde e grupos de acolhimento desempenham papel decisivo para evitar que a mulher reviva situações de violência ou abandone o processo de denúncia. “A violência contra a mulher deve ser tratada como uma questão de saúde pública mundial, diante dos impactos físicos e psicológicos que provoca. Depressão, ansiedade, dores crônicas, transtornos emocionais e até ideação suicida figuram entre as consequências mais frequentes. O desafio para combater a violência passa pela construção de uma cultura baseada no respeito, na igualdade de gênero e na educação desde a infância”, afirma Gomes.