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Parte do prédio que apresentou estalos será demolido
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Parte do prédio que apresentou estalos será demolido

Após realização de vistoria da Defesa Civil no prédio interditado após estalo na estrutura , ocorrido nesta quinta-feira, dia 10, técnicos constataram que o 3º e o 4º andar terão que ser demolidos. A operação será realizada nesta sexta-feira, às 9h, por meio da Coordenadoria Técnica de Operações Especiais (COOPE) e da Coordenadoria Geral de Operações Especiais (CGOE). Os agentes da Defesa Civil do Rio de Janeiro também interditaram preventivamente um prédio de quatro andares que fica ao lado, mas tem previsão de liberação após demolição na manhã desta sexta.

A Secretaria de Assistência Social está fazendo o cadastramento das famílias impactadas pelas interdições e avaliando suas necessidades. Bombeiros foram acionados, às 16h59, para uma ameaça de desabamento em Rio das Pedras, comunidade na Zona Oeste do Rio. Segundo a corporação, homens do quartel de Jacarepaguá foram até a região do prédio, que fica na Rua Estrela Dalva, número 185, na localidade do Areal, e coordenaram a evacuação total da construção, que será analisada pela Defesa Civil. Em um primeiro momento, o órgão não vê risco imediato de queda estrutural, mas uma perícia mais aprofundada continua sendo realizada. Na mesma favela, há exatamente uma semana, a pouco mais de um quilômetro a pé dali, um edifício de quatro andares ruiu e matou pai e filha.

Pouco antes, moradores tentaram retirar pertences do prédio, que abriga 15 famílias, como informou uma página de notícias local, a Lume RP.”A gente estava arrumando tudo para sair de lá antes de desabar”, postou um rapaz nas redes sociais. Ainda segundo informações de moradores, o prédio teria estalado, e alguns vidros quebraram.

“Estou a caminho. Fiquei sabendo que estalou, e o pessoal saiu rápido. Pode ser que tenha gente ainda impressionada com o desabamento recente. Estamos indo para o local para entender exatamente o que ocorreu”, disse ao Globo Andreia Ferreira, gerente executiva local de Rio das Pedras, cargo vinculado à Prefeitura do Rio.

Já a Subsecretaria municipal de Proteção e Defesa Civil divulgou uma nota, no início da noite, na qual informa que “uma equipe técnica está no local”. Segundo o órgão, uma vistoria está sendo realizada para “verificar a existência de possíveis riscos estruturais na edificação.

Aline Dionísio, de 18 anos, moradora da rua onde o prédio estalou, conta que foi ouvido um grande estrondo pouco antes das 17h. Segundo ela, uma parte da fachada do edifício de três andares chegou a cair. A Associação de Moradores da comunidade também acompanha todos os trabalhos na região.

“Ouvi um barulho muito alto e saí de casa com meus pais, que moram comigo”, relatou a jovem.

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Desabamento fatal

O prédio que caiu na última quinta-feira, também em Rio das Pedras, foi construído por um morador da comunidade para abrigar a sua família. A estrutura, que possuía quatro pavimentos, sendo um apartamento por andar, foi feita aos poucos, ao longo de mais de uma década. O último andar foi construído há cerca de oito anos. As informações foram repassadas por vizinhos e parentes das vítimas à equipe da 32ª DP (Taquara), que investiga o caso.

De acordo com os policiais, o responsável pela obra foi o comerciante Genivan Gomes Macedo, que tem um mercadinho na região. Seu filho, Nathan Gomes de Souza, de 30 anos, morreu soterrado; sua neta, Maitê Gomes Abreu, de 2 anos, também morreu. Sua nora, Maria Quiaria Abreu Moita, de 26 ano, foi socorrida e continua internada em estado grave no Hospital Municipal Miguel Couto. Os três estavam em um dos apartamentos do prédio que desabou.

Histórico de problemas

A combinação da atuação de milícias — que chegam a erguer prédios de vários andares sem qualquer fiscalização — com a ocupação de terrenos instáveis ou áreas de proteção ambiental, dizem especialistas, é a bomba relógio que pode fazer com que desabamentos como o da Muzema, que matou 24 pessoas em 2019, e o da última quinta-feira, em Rio das Pedras, se repitam.A esses aspectos, soma-se um componente geológico, que torna a ocupação da região um fenômeno ainda mais arriscado. O solo arenoso, com 15 metros de argila mole acumulados ao longo de milhares de anos, faz com que erguer qualquer construção segura seja uma tarefa complexa e muito cara.

A má qualidade do solo é apontada como um dos motivos para que, mesmo durante a explosão imobiliária na região da Barra da Tijuca, essa área, bem como outras no entorno, tenha ficado à margem. Acabaram estabelecendo-se em Rio das Pedras, em moradias improvisadas, muitos imigrantes nordestinos que vinham em busca de trabalho em um dos muitos empreendimentos no bairro nobre ao lado. Hoje, meio século depois, são mais de 60 mil pessoas vivendo ali.

A ocupação da localidade conhecida como Areinha, onde ficava o prédio que caiu na semana passada, é mais recente, mas igualmente reflexo de falhas em políticas públicas. Em março de 1991, centenas de famílias invadiram 15 prédios do Conjunto Residencial Delfin Imobiliária, cujo início do projeto — parte dele vinculado ao Banco Nacional de Habitação (BNH) — remontava a quase 15 anos antes. Construídos sobre um manguezal, os edifícios vazios tinham rachaduras visíveis, mas mesmo assim foram tomados por pessoas em busca de um lar.


A desocupação só ocorreu quase um mês depois, após semanas de intensa negociação com o governo de Lionel Brizola. Ao saírem, muitas famílias se instalaram temporariamente em um terreno alagado ao lado do conjunto, onde acabariam permanecendo até hoje. Era o começo de duas das subáreas da atual Rio das Pedras: o Areal II e a Areinha. Esta última se manteve por anos como um dos trechos mais precários e carentes da comunidade. Sobre um solo tipo turfa, de característica pantanosa, são centenas de pessoas de frente para o antigo condomínio, que continua abandonado.

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