O cenário político brasileiro tem sido marcado por um alarmante aumento na violência, com mulheres e minorias sendo desproporcionalmente afetadas. A deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) trouxe à tona a gravidade da situação ao denunciar ameaças de morte e violência sexual, evidenciando um problema crescente durante a campanha eleitoral de 2026.
Um levantamento realizado pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global revelou que 134 casos de violência política foram registrados até o primeiro turno das eleições. Deste total, 70 (52,2%) tiveram mulheres como vítimas. Mesmo representando cerca de um terço das candidaturas, as mulheres foram alvo em mais da metade dos episódios de violência direcionados especificamente a candidatos, totalizando 60 casos entre 102 episódios.
Gisele Barbieri, coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, ressalta que a violência política de gênero tem o objetivo de desqualificar e intimidar mulheres, representando uma séria ameaça à democracia brasileira. O ambiente digital, apesar de ser um foco de agressões sistemáticas, não é o único palco. Segundo Barbieri, a falta de regulação das redes sociais dificulta o combate, mas a maioria dos casos (71) ainda ocorre nas ruas.
A pesquisa, que abrangeu os 50 dias de campanha do primeiro turno, indica que o número de 134 casos é uma subnotificação, já que muitos episódios não chegam ao conhecimento público ou são denunciados devido ao medo das vítimas. Barbieri defende a criação de uma força-tarefa estatal para respostas mais rápidas e a implementação de punições ágeis com caráter pedagógico.
O número de casos representa um aumento em relação ao primeiro turno de 2022, quando foram registrados 121 casos. A coordenadora considera inadmissível a naturalização desses atos violentos, que visam intimidar propostas políticas e gerar rupturas democráticas. A ameaça foi o tipo de violência mais comum, seguida por ofensas e agressões físicas. Foram registrados ainda atentados, casos de criminalização e dois assassinatos, ambos de agentes municipais.
Entre as violências direcionadas às mulheres, o machismo ou misoginia foi apontado em 45 casos. Racismo e transfobia também foram fatores presentes. As mulheres foram vítimas em 21,9% dos episódios de violência física e em 61,9% das violências simbólicas (ameaças e ofensas). As ameaças de violência sexual tiveram exclusivamente mulheres como vítimas.
Pessoas negras representaram 44,8% de todas as vítimas de violência política. Entre as mulheres vítimas, uma em cada quatro era negra. Glaucia Marinho, coordenadora da Justiça Global, destaca que, além dos ataques por atuação política, mulheres, pessoas negras e trans sofrem também com o racismo, machismo e transfobia estruturais da sociedade brasileira.
A pesquisa também apontou que, em 19,4% dos casos, o autor identificado era um agente público, incluindo parlamentares, governantes e agentes de segurança. Até o encerramento da coleta de dados, nenhum dos 134 episódios registrados resultou em punição. Embora tenham sido tomadas medidas urgentes em alguns casos, como remoção de conteúdo e concessão de medidas protetivas, estas não representam a responsabilização efetiva dos autores.
Os estados com maior número de ocorrências foram São Paulo (16), Rio Grande do Norte (13), Minas Gerais (12) e Rio Grande do Sul (10), evidenciando a amplitude do problema em diferentes regiões do país.

