Ponta Porã, Terça-feira, 25 de abril de 2017
24/12/2016 08h20

Artigo: Uma catedral para a auto adoração do ego (monólogo)

Por: José Alberto Vasconcellos

Divulgação: Dora Nunes
 
 

Sozinho no quarto, sentado sobre a cama e diante do espelho, o político e magnata cinqüentão — olhava-se, ou melhor: admirava-se — dialogando com seus botões. Analisava-se com o intuito de localizar-se dentro do mundo moderno, tentando entender as críticas da imprensa que o qualificava como um Mamute e vinham corroendo seu bom humor.

—Sinto-me compungido a reconhecer! Dizia para si mesmo. A ostentação sempre me foi vexatória. Tenho tentado disfarçá-la, tenho empenhado-me em escondê-la, mas a minha presença em qualquer lugar, por mais despojado que esteja, sempre tenho comigo alguma coisa que chama a atenção, que desperta a curiosidade no seio da populaça.

— Essa curiosidade, esse controle sobre os meus movimentos, essa ânsia popular em analisar-me produz comentários e municia a imprensa, que vive de fofocas. Desvairada e graciosamente, a mídia termina atacando-me sem dó ou piedade, satisfazendo-se com minha depressão.

Prossegue o monólogo: —Nunca foi e nem é minha intenção menosprezar a pobreza, mais especialmente aquela parcela que me tem prestigiado com seu voto; bem sei que sem o voto do pobre, nenhum político chega ao paraíso. E eu estou no paraíso há muito tempo, por obra e graça dos votos dos pobres, que prestigiaram meu avô, meu pai e a mim agora, para conduzir a bandeira da Pátria. Mas... convenhamos: quem nasceu para a pobreza, pobre é! O político não possui a força que imaginam, para mudar o destino das pessoas.

—Tenho que gastar o dinheiro que me chega! Já nem sei o que fazer com essa dinheirama toda! Já possuo um volume considerável — aliás, bastante considerável — estocado! Toda vez que verifico minha conta bancária, nela há um novo depósito efetuado pelo Congresso Nacional. O que eu posso fazer? Lei é lei, e ela me confere esses direitos, essas vantagens pecuniárias que, em última análise, fazem-me muito bem.

-—Muitas pessoas, seguramente movidas pela inveja, pela incapacidade, ignorantes e frouxas, incapazes de entender o que seja berço de nascença, dizem com suas bocarras desprovidas de dentes, quase rosnando: "—Onde já se viu? Recebem para comprar roupa, para comprar gasolina, para comprar estampilhas, para pagar contas telefônicas, apartamento para morar e mais verba para pagar hotel de luxo, onde realmente moram. Passagens aéreas e outras tantas despesas que atendem com o dinheiro público, tudo autorizado por Leis que eles mesmos fizeram.

—Cobrem as despesas com suas concubinas e com as proles bastardas que geram com dinheiro surripidado! Disfarçam os descarados adultérios, providenciando empregos para suas amásias em órgãos públicos; tudo custeado com o dinheiro do povo, protegidos por Leis que eles mesmos aprovaram, para justificar o próprio interesse, dizem com desdém. Divertem-se, "cascando a ripa no lombo dos políticos! Tenho sofrido com isso!

-—Não fossem nossas imunidades e vantagens pecuniárias, estaríamos a mercê das invejas nefastas e das mentes retrógradas, dessa gente! Como se imagina que ficaria a imagem de um parlamentar mal vestido, movimentando-se num veículo velho e voltando para sua base eleitoral de ônibus? O luxo, a ostentação — está provado!— deslumbra a pobreza e a mantém a distância, de cócoras.

— Somos ungidos para sermos o "Pai-da-Pátria"! É nossa função, não podemos, todavia, interferir no cumprimento de uma sina, de um fadário que impõe aos pobres carregar o fardo da miséria!

—Imagine mais — disse para si mesmo, aproximando-se do espelho, para melhor enxergar os próprios olhos, e concluir: — O que faríamos sem dinheiro, sem luxo, sem ostentação, num país onde os eleitores são fracos na lembrança e tem o coração mole. E complementa: —O eleitor, como a mariposa, gravita em torno da claridade do luxo e de qualquer coisa que brilhe e por essas coisas gasta sua vida. É pecado eu ter nascido coberto de luz?

Naquele momento foi despertado do torpor pelo mordomo: — Excelência é hora de ir, o banquete terá início em poucos minutos!

Desperto da profunda introspecção, pediu ao serviçal que o ajudasse a envergar a casaca do smoking. Ajeitou a gravata borboleta e anunciou que estava pronto. Impecável, arqueado pelo peso que levava nos ombros: a certeza de ser o "Pai-da-Pátria" e a esperança da Nação — com passos firmes — foi representar seu eleitorado no banquete oferecido pela empreiteira do ano.

Pairavam, ainda, algumas dúvidas sobre o que estivera pensando, mas a sensação de desconforto foi diluída pelo uísque e o calor corporativo dos seus pares presentes, todos, indistintamente, "empenhados" em proteger o País e promover a felicidade da Nação. Cientes dessas responsabilidades — todos riram, beberam e comeram durante toda a noite — e no final da noite receberam, cada um deles, um envelope contendo um objeto institucional — o cheque!

25.01.2010/ 04.12.2016) (4.860) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br)

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