A cada Copa do Mundo, a atenção do público se concentra nos grandes craques. São eles que estampam capas de jornais, movimentam torcidas e protagonizam os lances que ficam para a história. Mas quem acompanha o futebol de alto nível sabe que o talento, por si só, raramente é suficiente para conquistar um título.
As seleções que chegam às fases decisivas costumam compartilhar características menos visíveis aos olhos do torcedor: planejamento, preparação, análise de adversários, gestão de riscos e capacidade de adaptação. Em um torneio curto, no qual um único erro pode significar a eliminação, improvisar custa caro.
No ambiente empresarial, a lógica é bastante semelhante. Empresas também operam em cenários de elevada competitividade, convivem com mudanças regulatórias, oscilações econômicas, transformações tecnológicas e riscos que nem sempre podem ser previstos com exatidão. O diferencial competitivo não está apenas na qualidade de seus produtos ou na competência de seus profissionais, mas na capacidade de tomar decisões consistentes diante da incerteza.
É justamente nesse ponto que o Direito deixa de exercer um papel exclusivamente técnico e passa a integrar a estratégia do negócio. Ainda persiste em muitas organizações a percepção de que o departamento jurídico deve ser acionado apenas quando surge um problema: um contrato em disputa, uma autuação, um processo judicial ou uma crise regulatória. Essa visão, embora comum, já não corresponde às necessidades do mercado.
Assim como uma comissão técnica não entra em campo apenas para reagir aos erros da equipe, a atuação jurídica mais eficiente é aquela que participa da construção das decisões desde o início. Avaliar riscos, estruturar contratos, antecipar impactos regulatórios e fortalecer mecanismos de governança significa ampliar a qualidade das escolhas empresariais antes que os problemas apareçam.
A Copa também ensina outra lição importante: estratégia não elimina riscos. Mesmo as seleções mais preparadas podem sofrer um gol inesperado, enfrentar lesões ou encontrar adversários que mudam completamente o rumo da partida. O planejamento não existe para impedir o imprevisto, mas para aumentar a capacidade de resposta quando ele acontece.
Nas empresas, ocorre exatamente o mesmo. Nenhum modelo de governança impede integralmente crises, litígios ou mudanças de cenário. O que diferencia organizações mais maduras é a rapidez com que conseguem reagir, minimizar impactos e preservar sua capacidade de crescimento.
Essa preparação exige integração entre diferentes áreas. Da mesma forma que uma equipe campeã depende da coordenação entre comissão técnica, departamento médico, analistas de desempenho e atletas, uma empresa precisa alinhar suas áreas jurídica, financeira, operacional e de compliance para que as decisões sejam tomadas com visão estratégica e não de forma isolada.
O ambiente econômico atual reforça essa necessidade. Projetos cada vez mais complexos, novas exigências regulatórias, expansão da inteligência artificial, proteção de dados, sustentabilidade e mudanças constantes nas relações comerciais tornam insuficiente uma atuação jurídica limitada à resolução de conflitos. O valor está, cada vez mais, na prevenção, na organização e na capacidade de transformar conhecimento jurídico em vantagem competitiva.
No futebol, dificilmente uma seleção conquista uma Copa apenas porque possui o melhor jogador do mundo. Os campeões normalmente são aqueles que conseguem transformar talento individual em inteligência coletiva, disciplina tática e capacidade de execução.
Nas empresas, o princípio é semelhante. Boas ideias continuam sendo fundamentais, assim como profissionais qualificados e oportunidades de mercado. Mas são a governança, o planejamento e a gestão adequada dos riscos que permitem transformar potencial em resultados consistentes.
Ao final, talvez a principal lição que a Copa oferece ao mundo corporativo seja simples: títulos e bons resultados não são fruto do acaso. Eles são consequência de decisões bem construídas antes mesmo de a partida começar. E, nesse processo, o Direito deixou de ser apenas um mecanismo de proteção para assumir um papel essencial na construção da estratégia empresarial.
Por
*José Maria Franco de Godoi Neto – advogado, mestre em direito USP/SP, mestre em Gestão de Risco FEA/USP e especialização em Finanças pela FGV/SP, sócio do Franco de Godoi Advogados e membro fundador da STRUCTURA Investments.

