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domingo, 14 de abril, 2024
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Cultivar hortaliças no sistema conservacionista reduz custos, beneficia o ambiente, e os produtos 

O produtor de hortaliças pode obter vários benefícios ao adotar técnicas da olericultura conservacionista, como o plantio direto na palha. Os resultados são observados em pesquisas desenvolvidas pelo Instituto Agronômico (IAC) e pela Agência Paulista de Tecnologias do Agronegócio (APTA). O estudo reúne metodologias direcionadas ao preparo adequado do solo e à semeadura de plantas de cobertura e grãos, que podem ser adotadas na rotação de cultura. Há também informações sobre as tecnologias de transplantio e estabelecimento das mudas de hortaliças sobre palha de plantas de cobertura. Dentre os ganhos desse sistema estão a redução dos custos de produção, o aumento da qualidade das hortícolas e a melhora da saúde do solo e da água.

“Há uma redução de 15% dos custos só com o diesel, devido à eliminação do preparo convencional do solo. Na irrigação, há economia de 20% com despesas envolvendo água e energia elétrica. Outros ganhos podem vir com o amadurecimento do sistema”, comenta Roberto Botelho Ferraz Branco, pesquisador do IAC, que desenvolveu a pesquisa juntamente com Andréia Cristina Silva Hirata e Humberto Sampaio de Araújo, ambos cientistas da APTA, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Além desses impactos positivos diretos, os métodos da agricultura conservacionista podem levar à estabilidade ambiental por proporcionar vários benefícios agrossistêmicos. Dentre eles estão a conservação da água e do solo e o aumento de sua fertilidade. Essa metodologia também abre possibilidade para o agricultor alcançar a sustentabilidade da produção e a certificação por boas práticas agrícolas, concedida pelos órgãos competentes.

A agricultura conservacionista se caracteriza pelo mínimo revolvimento do solo e/ou o uso do plantio direto, rotação de culturas e manutenção permanente de resíduos vegetais na superfície do solo. As recomendações técnicas e suas vantagens estão reunidas no Boletim Técnico IAC 231, disponível gratuitamente no site do IAC.

As plantas de cobertura do solo recomendadas, dentre elas milheto, crotalária, aveia e tremoço, têm o sistema radicular vigoroso. Essa característica favorece a melhoria da qualidade do solo em perfis mais profundos e protege a sua superfície devido à elevada produção de biomassa da parte aérea da planta.

De acordo com Branco, para fazer a cobertura do solo na olericultura, é comum o uso de resíduos da indústria, como bagaço da cana-de-açúcar, cascas de amendoim e de arroz. No entanto, essas opções podem trazer sementes de plantas daninhas, além de pragas e doenças. Outro ponto negativo é o custo com a compra e o transporte desses resíduos agroindustriais até a área de cultivo de hortaliças.

Ressalta-se que no sistema conservacionista não há um padrão para todas as hortaliças. Cada especificidade deve ser considerada. No caso das folhosas, por exemplo, cultivadas em sua maioria por produtores familiares, recomenda-se dividir a área em talhões para incluir as plantas de cobertura dentro do planejamento de rotação de culturas.

Equilíbrio natural pode ser alcançado com moderna produção

Segundo os pesquisadores, o ideal é que as práticas agronômicas proporcionem um cenário que simule o que ocorre no ambiente natural, isto é, uma atividade agrícola que incorpore camadas de resíduos vegetais na superfície do solo para protegê-lo e que viabilize a reciclagem de material orgânico produzido pela fotossíntese das plantas. Com o tempo, esse resíduo passará pelo processo de decomposição, elevando a matéria orgânica do solo e, posteriormente, pelo processo de mineralização da matéria orgânica, que disponibilizará nutrientes às plantas.

Esses fenômenos acontecem devido à ação de macrorganismos, como ácaros, insetos e minhocas, e microrganismos, como fungos, bactérias, nematoides habitantes do solo. Dessa forma, com o tempo e a técnica bem conduzida, haverá melhoria nos atributos de qualidade física, química e biológica do solo. “Por isso, pesquisamos e divulgamos sistemas modernos de produção agrícola que possibilitam a produção de alimentos, fibras e energia, aliados à conservação dos recursos ambientais e da biodiversidade, que são muito desejáveis para a sanidade e prosperidade do planeta”, diz Branco.

O objetivo é desenvolver uma atividade agrícola de modo a manter a vitalidade natural, assim como ocorre em uma floresta. Neste ambiente, as funções ecossistêmicas vão desde a infiltração de água no solo, fixação dos vegetais no solo, transpiração, fonte de alimentação para macro e microfauna do ambiente e ciclagem de nutrientes.

Como praticar a olericultura conservacionista

O olericultor que adota a prática conservacionista precisa trabalhar com outras espécies vegetais usadas na rotação de cultura com as hortaliças, como as plantas de cobertura do solo e/ou cultivo de cereais. Para ter bom desempenho com esses plantios, ele terá que desenvolver maior habilidade no manejo de diferentes cultivos agrícolas.

A prática em si é simples: primeiramente é necessário produzir biomassa em quantidade suficiente para cobrir a superfície do solo. É preciso ainda contar com uma semeadora com tecnologia de plantio direto na palha. “Existem no mercado máquinas que atendem à necessidade do pequeno produtor para essa finalidade. Caso ele não a tenha, a semeadura pode ser feita à lanço manualmente ou com auxílio de distribuidor de calcário. O importante é ter bom estande de plantas para produção de palha”, comenta.

Na etapa seguinte, há necessidade de ‘deitar’ as plantas de cobertura sobre o solo no momento adequado. Essa prática de rolagem pode ser realizada por roçadeiras, rolo faca ou até mesmo deitando as plantas com troncos de eucalipto atrelados ao trator. Após a produção de palha na superfície do solo, é hora de plantar as mudas de hortaliças. Para isso, é feita uma pequena abertura no solo, onde são colocados os adubos e as sementes ou mudas. A palha da planta de cobertura é mantida integralmente sobre o terreno. A abertura das linhas de plantio pode ser feita com auxílio de semeadora de plantio direto que corte a palha de forma a facilitar o plantio das mudas. “Pequenos produtores podem recorrer ao modelo desse implemento de uma ou duas linhas, que podem ser acopladas a microtratores e são muito eficientes”, orienta.

Antes de começar o processo conservacionista, o produtor deve fazer um diagnóstico da área a ser cultivada, avaliando o tipo de solo, a topografia, a fertilidade química e o grau de compactação do solo. “A correção do solo com uso da calagem e a descompactação por subsolagem devem ser feitas, se necessário, no início da implantação do sistema”, recomenda.

Ao término de um cultivo comercial, a orientação é deixar a área descansar com o solo coberto por palha, até a semeadura da planta de cobertura ou de algum cereal em plantio direto sem revolvimento do solo. “Devem ser usadas plantas de cobertura entre cultivos comerciais. Essa prática garante a reposição do material orgânico de alta qualidade produzido no local do plantio das hortaliças, evitando o custo com aporte externo de matéria orgânica, além dos benefícios da proteção do solo e rotação de culturas”, afirma.