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sexta-feira, 28 de agosto, 2026

Documentário conta história de aldeia de MS e de suas brigadas voluntárias

“Chamas da Tradição” aborda como a comunidade retomou sua terra e como se
reinventou criando brigadas para combater as queimadas que atingem a região

“Não tem povo sem terra, nem terra sem povo”. É esse um dos motes que norteiam o documentário “Chamas da Tradição”, produzido pela jovem cineasta sul-mato-grossense Thauanny Maíra. O trabalho, que teve financiamento da Lei Paulo Gustavo, tem a aldeia indígena Terra, de etnia terena, localizada em Miranda, como protagonista, e conta a história dessa comunidade por meio da retomada do território e da reinvenção motivada pelo fogo das queimadas, problema recorrente no Pantanal.

A comunidade Mãe Terra existe desde 2005, fruto de uma ação de retomada de um grupo de 21 famílias. O documentário começa contando essa história, dando destaque para a de ter uma terra e da ligação dos moradores com o território. “No segundo ato do filme focamos no fogo, como ele chega e acaba com tudo, deixando frágil e complicada a relação do povo com a terra, deixando mais difícil conseguir recursos”, explica a diretora.

Segundo o roteirista, Cainã Siqueira, o filme surgiu com a ideia de falar sobre os incêndios no Pantanal, mas no processo de pesquisa a equipe entendeu que não dava para falar sobre isso sem falar sobre como elas influenciavam nas comunidades indígenas. “Daí começou a surgir o argumento baseado em como essas queimadas influenciavam direta e indiretamente na terra indígena Mãe Terra, no cultivo, no dia a dia, em tudo. Mas na visita que fizemos, ficou muito claro que o fogo não era o protagonista, a Mãe Terra, com todos os seus personagens, virou a protagonista, então virou um filme sobre essa luta deles contra as queimadas, mas também sobre a retomada e sobre a aldeia em si”, resume.

A partir do problema do fogo, a Mãe Terra conseguiu se reinventar, com a criação, a partir de 2020, de brigadas voluntárias, que impedem que o fogo se alastre até a chegada do Corpo de Bombeiros e da equipe do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). Na comunidade, há inclusive a participação de mulheres nessas brigadas. Outra iniciativa destacada no documentário é a Escola Quintal, criada na comunidade na esperança de resgatar a cultura Terena. Semanalmente, a comunidade se reúne para praticar costumes antes perdidos ou até mesmo desconhecidos por gerações.

O processo de produção envolveu muita pesquisa, inclusive com uma visita prévia à comunidade, onde a equipe conheceu as famílias, sua culinária, músicas, tradições religiosas e anseios. A gravação foi feita em apenas dois dias, e a diretora lembra que até os desafios enfrentados compuseram o resultado final. “Em um dos dias ficou chovendo bastante, então a gente teve que se virar do jeito que dava para a chuva não estragar o áudio, para a gente conseguir gravar, não molhar os equipamentos… Mas quando você está fazendo o que ama, qualquer perrengue vira história para contar”, conta.

Thauanny Maíra assina o documentário em parceria com Cainã Siqueira, responsável pelo roteiro. Com apenas 26 anos, a jovem sul mato-grossense, atualmente residindo em São Paulo e trabalhando como diretora, roteirista e diretora de pós-produção, dirigiu seu primeiro documentário, “A Margem é o Centro”, sobre o bairro Moreninhas, aos 20 anos.

“Minha ligação com o documentário é conhecer outros pontos de vista, entender mais sobre as histórias, mas também apresentar para outras pessoas, para quebrar um pouco do estigma que elas criam sobre assuntos que não conhecem. O preconceito muitas vezes vem do desconhecimento, e trabalhos como esse ajudam a gente a entender o lado do outro”, afirma a cineasta.

Para a equipe, os maiores aprendizados durante a produção do documentário e as trocas com a comunidade foram a relação com o território, o cuidado com a natureza e a importância de perpetuar a cultura e os ensinamentos ancestrais.

Primeiras exibições

O documentário teve suas primeiras exibições na última semana, no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), dia 21, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), para alunos da disciplina de Análise Fílmica, dia 24, e na própria Aldeia Mãe Terra, protagonista do material, onde foi exibido para toda a comunidade no sábado, dia 22. “A importância desse documentário é que fica registrado para as crianças, que não vão conhecer mais [a história da comunidade], né? Para a preservação da nossa identidade, da língua, dos artesãos, da espiritualidade. Então, isso vale muito para a gente. Espero que grupos vejam e queiram apoiar esse trabalho de resgate da língua, revitalização das nascentes, recuperação das florestas para equilíbrio do meio ambiente”, comenta João Leôncio (Kambu), vice-cacique na Aldeia Mãe Terra.

“No IFMS foi interessante para mostrar como foi a minha trajetória até chegar nesse momento, mostrar para esses jovens que é difícil entrar nesse mercado, mas que é possível, falar sobre as dificuldades, sobre o processo criativo, apresentar uma nova perspectiva para quem se interessa. Na UFMS, tivemos a exibição para alunos do curso de Audiovisual, onde falei sobre os processos de pré e pós produção”, conta a diretora. Está prevista uma exibição em Campo Grande, aberta ao público, com data ainda a ser divulgada, e são planejadas exibições em escolas públicas, além de participações em festivais pelo mundo.

Serviço: O documentário “Chamas da Tradição” foi financiado com recursos da Lei Complementar nº 195/2022 – Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura, por meio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) – Edital nº 09/2023, órgão do Governo
do Estado.

Fonte: Raquel de Souza Jeronymo