Para famílias como a da massoterapeuta Patrícia Espíndola, jornada integral ajuda a conciliar emprego, estudos e cuidados com os filhos: modelo já atende mais de 39 mil alunos em 213 escolas estaduais de MS
Quando a massoterapeuta Patrícia Espíndola começa um dia de trabalho, nem sempre sabe a que horas ele vai terminar. Autônoma, atende em salão, faz sessões a domicílio e, à noite, ainda precisa encontrar espaço na agenda para a faculdade. No meio dessa rotina está Manuela Souza, de 12 anos, sua filha, estudante da Escola Estadual Professor Henrique Ciryllo Correa, em Campo Grande.
Durante boa parte do dia, Manuela permanece na escola. Para Patrícia, isso eliminou uma das equações mais difíceis de quem precisa conciliar trabalho e cuidado: encontrar alguém para ficar com a filha quando o expediente atravessa o horário das aulas.
“A escola integral ajudou muito na minha rotina por conta do trabalho. Como sou autônoma, o fato de ela estudar o dia todo facilitou bastante, porque não preciso buscar na hora do almoço ou organizar alguém para ficar com ela”, conta.
A rotina de Patrícia ajuda a traduzir uma política que ganhou escala em Mato Grosso do Sul durante a gestão do governador Eduardo Riedel, do Progressistas e candidato à reeleição. Em 2026, a rede estadual chegou a 213 escolas com jornada ampliada, aproximadamente 62% das unidades, atendendo mais de 39 mil estudantes nos 79 municípios.
Na prática, a expansão significa mais horas dentro da escola. Mas a proposta do Governo do Estado é fazer com que esse tempo também represente aprendizagem, alimentação, atividades esportivas e culturais, acompanhamento dos estudantes e, para as famílias, uma rede de apoio mais compatível com a jornada de trabalho.
O relógio das famílias
Para milhares de responsáveis, o horário escolar interfere diretamente na possibilidade de trabalhar. Quando as aulas acabam antes do expediente, começa uma sucessão de arranjos: avós, vizinhos, cuidadores ou mudanças na própria jornada profissional.
Essa dificuldade recai com frequência sobre as mulheres, que ainda concentram boa parte do trabalho de cuidado e podem precisar reduzir horários ou até recusar oportunidades profissionais quando não existe uma rede segura para os filhos.
No caso de Patrícia, a jornada integral mudou a logística da casa. Depois das aulas, ela busca Manuela e deixa a adolescente com a avó antes de retomar os compromissos profissionais ou acadêmicos.
“Eu fico, às vezes, o dia inteiro atendendo no salão e, à noite, ainda faço atendimentos a domicílio. Também tenho a faculdade e fico conciliando tudo isso. Então, a escola ajuda bastante nessa organização”, afirma.
A permanência da filha na escola, porém, não é vista por Patrícia apenas como uma solução para a agenda. Manuela participa de basquete, badminton e xadrez e, segundo a mãe, mantém boa relação com professores e colegas.
A adolescente gosta especialmente das atividades oferecidas no fim do período escolar.
“Ela gosta bastante das atividades extras e participa de todas. Quando preciso buscá-la um pouco mais cedo, ela fica até brava comigo porque quer continuar jogando”, relata Patrícia.
Esse vínculo também aparece na disposição de Manuela para frequentar as aulas. A mãe conta que a filha tem boas notas, gosta do ambiente escolar e chegou a esperar com ansiedade pelo retorno às aulas para rever os amigos.
Mais horas precisam significar mais aprendizado
A ampliação da jornada, entretanto, traz uma exigência: manter crianças e adolescentes mais tempo na escola só faz sentido se esse período tiver qualidade.
É justamente essa a preocupação de Marcio Beretta Cossato, diretor da Escola Estadual Lúcia Martins Coelho, uma das primeiras unidades da rede estadual a adotar o modelo integral.
“Quando falamos em permanecer mais horas na escola, precisamos pensar na qualidade desse tempo”, afirma.
Na unidade, a rotina combina os conteúdos regulares com projetos e atividades culturais e esportivas. Para Cossato, a estrutura pedagógica precisa acompanhar a ampliação da jornada.
“É fundamental que a jornada ampliada esteja acompanhada de um projeto pedagógico bem estruturado, de espaços adequados e de profissionais preparados para proporcionar diferentes experiências de aprendizagem”, destaca.
A Escola Estadual Lúcia Martins Coelho está entre as unidades integralmente inseridas no modelo, com grande volume de estudantes e bons resultados na rede.
A lógica é fazer com que o período adicional permita ao estudante descobrir habilidades, desenvolver autonomia, conviver com colegas e receber apoio quando aparecem dificuldades escolares, familiares ou emocionais.
“A educação integral possibilita olhar para o estudante de maneira mais ampla. É fazer com que ele se sinta parte da escola, encontre novas possibilidades e tenha oportunidades para desenvolver suas potencialidades”, diz Cossato.
No início de 2025, mais de cem unidades estaduais já haviam passado por reformas ou adequações. O modelo também previa três refeições diárias e a presença de psicólogos e assistentes sociais. Cerca de 25 mil profissionais participaram da preparação para o ano letivo.
São condições necessárias para que a jornada ampliada não se transforme simplesmente em permanência prolongada dentro do prédio escolar.
Riedel resume essa preocupação ao afirmar que a escola não pode ser encarada apenas como um lugar onde os responsáveis deixam os filhos para trabalhar.
“A escola não pode ser reduzida a um lugar onde os pais deixam os filhos enquanto trabalham. Sua missão principal continua sendo educar. Mas uma política pública conectada à realidade compreende que a aprendizagem também depende das condições de vida e da estabilidade familiar”, afirma o governador.
Um modelo que chegou a todos os municípios
A presença da educação integral nos 79 municípios representa uma das principais mudanças na rede estadual nos últimos anos. Em 2024, Mato Grosso do Sul já havia antecipado a meta de oferecer pelo menos uma escola com jornada integral em cada cidade.
Em 2026, são 213 unidades dentro de uma rede formada por 352 escolas.
A expansão também procura reduzir uma diferença que começa fora da sala de aula. Famílias com maior renda conseguem pagar cursos de idiomas, esportes, atividades culturais e outras experiências no contraturno. Para muitos estudantes da escola pública, a própria rede de ensino é a principal porta de acesso a essas oportunidades.
Na concepção defendida pelo Governo do Estado, essa formação também está ligada ao futuro profissional.
“A criança acompanhada hoje terá melhores condições de continuar estudando, buscar qualificação e chegar mais preparada ao mercado de trabalho”, afirma Riedel.
Para as famílias, os efeitos aparecem em outra dimensão. Quando a criança permanece na escola durante uma parte maior do dia, alimentada e acompanhada, diminui a necessidade de recorrer a cuidadores ou improvisar soluções no meio do expediente.
É justamente aí que uma política educacional encontra o cotidiano de trabalhadores como Patrícia.
O desafio agora é ampliar o acesso
A chegada do modelo aos 79 municípios não significa, porém, que todos os estudantes da rede estadual tenham acesso à jornada integral.
Há unidades em que somente determinadas séries ou turmas funcionam nesse formato, enquanto outros alunos continuam estudando em período parcial.
Ampliar o número de vagas sem comprometer a qualidade é, portanto, o próximo desafio. Novas turmas exigem salas, refeitórios, alimentação, profissionais, transporte escolar e planejamento pedagógico.
Também será necessário acompanhar os resultados para além da quantidade de escolas e matrículas. Aprendizagem, frequência, abandono escolar e avaliação das próprias famílias são indicadores que ajudam a mostrar se as horas adicionais estão produzindo o efeito esperado.
Nos últimos anos, a educação integral ganhou escala em Mato Grosso do Sul e passou a ocupar uma posição que vai além da grade curricular. Ao aproximar educação, proteção social e rotina de trabalho das famílias, o modelo passou também a responder a problemas que começam antes mesmo de o estudante entrar em sala de aula.
Para Patrícia, essa diferença pode ser medida pelas horas de um dia comum. Enquanto ela atende clientes, estuda e organiza os compromissos da família, sabe onde Manuela está e o que está fazendo.
E talvez a reação da própria adolescente ajude a resumir o desafio que permanece para a política pública. Quando a mãe precisa buscá-la mais cedo, Manuela reclama: ainda quer jogar, participar das atividades e ficar na escola.
Fazer com que mais estudantes tenham essa mesma possibilidade — sem transformar mais tempo em simples permanência e preservando a qualidade da aprendizagem — é a próxima etapa da expansão do ensino integral em Mato Grosso do Sul.
Fonte: Assessoria de Imprensa | Eduardo Riedel

