15/09/2014 08h
Tendência é manter primeira opção ou escolher o chamado voto útil
Jornal do Comércio – Porto Alegre
As pesquisas eleitorais não influenciam uma parcela significativa do eleitorado, analisam especialistas. Sondagem realizada pelo Instituto Methodus, em 2010, para avaliar se o eleitor se sentia influenciado a mudar o seu voto em função das pesquisas, apontou que somente 10% cogitavam mudar de candidato. “Isso é muito pouco”, afirma o diretor do instituto, Jefferson Jaques. O cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Jairo Nicolau, afirma que outros países também já verificaram que as pesquisas apresentam pouca influência para mudar a decisão de voto. “Na verdade, a maioria dos eleitores toma a sua decisão sincera. E um número pequeno deixa de votar na sua primeira opção por conta de resultado de pesquisa”, esclarece Nicolau.
Ainda que as pesquisas não interfiram diretamente nas convicções do eleitor, o professor de Direito Constitucional da Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP), Eduardo Carrion, ressalta que elas podem direcionar o eleitor a realizar o chamado “voto útil”. “Em muitas vezes, reorientamos o nosso voto em nome de um certo realismo eleitoral”, explica. O especialista destaca que, no Brasil, isso pode ocorrer com maior significância pelo fato de não existir, na sua opinião, um eleitorado cristalizado com posições políticas.
O diretor do instituto Methodus destaca que as pesquisas são supervalorizadas. “Acho que (os eleitores) dão importância demais. Parece um clichê quando se diz que pesquisa é um retrato do momento. Mas ela é. Quando foi divulgada, já está até velha, porque ela foi coletada muitas vezes em até sete dias antes. Ela é um retrato daquele momento”, explica Jaques.
O professor Carrion defende as sondagens de opinião e acredita que elas são positivas para esclarecer o quadro eleitoral. “A partir de resultados, o eleitor pode melhor situar-se no quadro eleitoral e eventualmente direcionar o seu voto a partir até de uma opção pretensamente racional”, pontua. No entanto, o constitucionalista declara que não se pode responsabilizar as sondagens de opinião. “Elas refletem um quadro em movimento, elucidando para o eleitorado as principais tendências, possibilitando eventualmente que esse eleitor até reveja o seu posicionamento em face dos resultados”, complementa Carrion.
Para além da percepção do eleitor sobre as pesquisas, o professor Nicolau certifica que as sondagens já se consolidaram e são instrumentos fundamentais tanto para os financiadores de campanha quanto para as próprias organizações dos partidos. “É impossível pensar uma democracia sem as pesquisas”, defende. Mas o especialista observa que o problema estaria em “absolutizar o resultado”.
Estatístico critica metodologia utilizada pelos institutos de pesquisa
O método estatístico aplicado pelos institutos de pesquisa, que utilizam as conhecidas expressões “empate técnico” e “margem de erro”, não é defendido por todos os especialistas. O professor de estatística da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Filipe Zabala, com a tese de mestrado “Desempate técnico”, condena o molde aplicado às pesquisas eleitorais principalmente pelo fato de impossibilitar o cálculo de probabilidades de cenários eleitorais futuros.
“O método utilizado (pelos institutos) não funciona tecnicamente. Ele viola um princípio básico de probabilidade ao desconsiderar que a soma dos percentuais deve fechar 100%.” Segundo o professor, enquanto os institutos afirmam que há um empate técnico, por um único ponto, sabe-se que a probabilidade de vitória de um candidato que está na frente é de 97,5%. “Isso desconstrói um pouco a maneira que se vê os intervalos de confiança hoje em dia, a maneira com que se avaliam os cenários eleitorais. É um método que permite que não se conclua nada. Quando se declara empate técnico (dos institutos), estamos declarando que não sabemos o que vai acontecer, mas, na verdade, nós sabemos. Poderíamos calcular a probabilidade com um método um pouco mais sofisticado e que nos tiraria completamente a dúvida de quem tem maior ou menor chance de ganhar.”
Já para o constitucionalista e professor da Fundação Escola Superior do Ministério Público Eduardo Carrion, as pesquisas eleitorais não conseguem responder sobre probabilidades de cenário. “Não podem, em uma sondagem de opinião, em um certo sentido, prever o futuro. Não podemos cobrar de uma pesquisa eleitoral o que ela não pode oferecer. Sobretudo em um cenário variante como o nosso”, destaca. Porém, Zabala aponta que, se o método conhecido como Bayesiano fosse utilizado pelos institutos, seria possível falar em probabilidade de cenários eleitorais. O utilizado pelos institutos, chamado de Inferência Frequentista, não responde esta pergunta. Diretor do Instituto Methodus, Jefferson Jaques rebate: “Usamos todas as regras da teoria estatística”.
Maior amostra tende a reduzir margem de erro
Diretor do Instituto Methodus, Jefferson Jaques aponta que o primeiro passo para a realização de uma pesquisa é definir o tamanho da amostra e a metodologia que será aplicada. “Quanto maior a amostra, menor a margem de erro”, afirma. Depois, são sorteadas as cidades que vão ser contempladas com a pesquisa nas sete regiões do Estado.
O perfil do entrevistado já é traçado antes mesmo dos pesquisadores irem a campo: o número de mulheres e de homens (se há muita diferença, um dos sexos terá um número maior de entrevistas), média de idade, renda e escolaridade. “É melhor realizar uma pesquisa com objetivo do que entrevistar 10 mil pessoas que passam na Esquina Democrática, porque quem passa por lá pode ser mais jovem do que velho, mais rico do que pobre e pode ocasionar um desvio.” Sobre as pesquisas realizadas nacionalmente, o professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro Jairo Nicolau demonstra preocupação quanto ao pequeno número de institutos. “(O problema) é que nós temos um oligopólio, poucos institutos que fazem pesquisas nacionalmente. Nos Estados Unidos, há os (institutos) locais e regionais.”
Texto: Vitória Famer


