02/05/2015 09h
Ato de apoio a professores em greve e contra a repressão da Polícia Militar ainda pediu o “Fora Richa” ao governador
Terra
O verde e o amarelo dos atos anti-Dilma de março e abril foram substituídos pelo preto em Curitiba, nesta sexta-feira, feriado pelo Dia do Trabalhador. Dessa vez, o protesto, de apoio a professores estaduais e contra a repressão policial da última quarta-feira, também não teve Hino Nacional: os coros, em sua maior parte, puxaram um “Fora Beto Richa” que se estendeu da Praça 19 de Dezembro, ponto de concentração, até o Centro Cívico, onde fica o palácio-sede do Governo, o Iguaçu. O secretário de Segurança Pública do Estado, o ex-delegado da Polícia Federal Fernando Francischini, também foi lembrado pelos manifestantes.
O sindicato dos professores estaduais do Paraná, a APP Sindicato, estimou em 10 mil pessoas o número de participantes; a Polícia Militar falou em cerca de 3 mil. O ato lembrou a violência de quarta-feira, quando professores da rede estadual, em greve, além de outros manifestantes, foram impedidos de entrar na Assembleia Legislativa para acompanhar a segunda votação do projeto que altera a previdência dos servidores estaduais.
Os 31 deputados que votaram a favor do projeto – encaminhado à Casa pelo governador Beto Richa (PSDB) – foram lembrados no ato: cada um teve a foto colada em uma cruz de madeira com a mensagem “Inimigo da Educação”; já os 20 parlamentares que votaram contra a proposta ganharam foto na cruz com a mensagem “Amigo da Educação”. Alguns participaram do ato, assim como membros de partidos de esquerda, como PSTU e PSOL.
Entre as lideranças partidárias estava a ex-deputada federal e ex-candidata à Presidência Luciana Genro, uma das mais assediadas em pedidos de fotos e selfies por parte dos manifestantes. Para ela, Richa “não tem mais condições de continuar à frente governo do Paraná”. “Um governo que precisa cercar a Assembleia Legislativa não tem mais hegemonia política na sociedade; precisa da força bruta.
Queremos a apuração da violência policial e a punição de todos os envolvidos dos excessos terríveis que foram cometidos”, definiu. O que significa o não ter mais condições políticas? “O povo do Paraná que deve decidir o que fazer. Nós temos esse diagnóstico político, porque usar a violação dos direitos humanos contra os professores agride o conjunto da sociedade paranaense”, concluiu.
No meio dos manifestantes, havia inclusive eleitores de Richa que protestaram contra a corrupção no governo federal, de verde e amarelo, nos atos realizados em várias capitais e outras cidades brasileiras nos dias 15 de março e 12 de abril deste ano. Um desses casos é o do casal Milton Markie, 39 anos, e Ana Neri, de 33, respectivamente ferramenteiro e autônoma. Eleitores de Richa em outubro passado, eles têm parentes professores e contaram ter ficado “indignados” com as cenas de violência de quarta passada.
“Minha irmã e meu cunhado são professores. Nossa indignação contra governo corrupto não é de hoje; votei no Beto Richa e me arrependo bastante. Porque hoje vejo que ele mentiu na campanha, e eu aprendi que a mentira é o pai do diabo”, afirmou Markie, que disse ter ido aos dois protestos recentes “com camisa da seleção e tudo”. “Os protestos passados foram sérios, mas este de hoje tem um sabor diferente, mais amargo. Colocar Tropa de Choque para cima de professor é covardia – que arma pode ter um professor? Além do mais, entendi isso como uma retirada do direito nosso de ir e vir. É muita indignação”, constatou.
Em frente à Assembleia, dirigentes da APP chamaram os manifestantes para outro ato, marcado para a próxima terça-feira, e que deve acontecer em outras cidades brasileiras. “Esse foi um 1º de Maio histórico – lutamos contra a perda de direitos dos trabalhadores”, afirmou Hermes Leão, presidente do sindicato. “Esse governo ditador feriu de morte os trabalhadores; o que vimos foi um massacre contra pessoas desarmadas”, completou.
Leão lembrou do apoio que a categoria vem recebendo de entidades de defesa dos direitos humanos nacionais e “até da imprensa internacional” e reforçou o pedido para que os casos de agressões sejam denunciados. O trabalho de apuração é feito pelo Ministério Público estadual, que instaurou procedimento criminal no mesmo dia do protesto.
Em agosto de 1988, outra manifestação de professores grevistas terminaria em violência: homens da Tropa de Choque sob então governo do hoje senador Alvaro Dias (PSDB) avançaram sobre os professores e ao menos dez se feriram. No ato de quarta, foram mais de 200 pessoas feridas. Dias, no entanto, seguiu carreira política posterior no Senado, onde está, sucessivamente, desde 1999. O que faz os manifestantes pensarem que, no caso de Richa, o episódio terá consequências políticas distintas do outro tucano? “A gente não perde a esperança, e construir uma consciência política coletiva é fundamental. Claro, porém, que hoje as redes sociais ajudam muito mais a não deixar algumas coisas caírem no esquecimento”, analisou Tereza Lemos, dirigente estadual do sindicato.




