24/02/2018 05h50

A renitente miséria da família, produz o bandido por José Alberto Vasconcellos

Os políticos de hoje — com pequenas exceções — são os mesmos de outros tempos.

Por: Tião Prado
 
 

A polícia interrogava o rapaz com idade entre dezessete e dezoito anos, não mais. Magro, com dificuldade para encontrar as palavras, reconhecidamente analfabeto, sem nenhuma habilidade profissional, tendo como único meio de sobrevivência, os assaltos e a mais rentável atividade: o tráfico de alucinógenos, constituídos de cocaína adulterada, maconha, crack e qualquer outra porcaria, que possa apaziguar as lombrigas de um viciado.

Esse meliante detido pela polícia, consumindo e traficando entorpecentes, quando criança teve seu direito à saúde, à escola e à merenda roubados por bandidos, disfarçados de políticos. Nasceu, viveu e conviveu com a miséria, agregado a uma prole numerosa, no seio de uma família paupérrima, desprovida da mais ínfima cultura e à míngua de quaisquer dos direitos garantidos pela Constituição, editados em nome da solidariedade humana.

O chefe da família, precursor da situação de miserabilidade e abandono agora vivida pelo filho detido pela polícia, nunca teve uma única chance de melhorar as condições de sobrevivência e dar à sua prole, o mínimo que ela necessitava, para integrar-se à sociedade como gente, porque a maioria dos políticos, preocupados apenas com os próprios interesses, atribuem aos pobres, o mesmo valor que os pobres dão aos seus votos, quando elegem, irresponsavelmente, sacripantas que se preocupam tão só com a corrupção. Os votos inconseqüentes, que legitimam o poder dos ladrões do Erário, voltam-se contra os próprios eleitores, eternizando a. miséria de quem só têm o dia e a noite!

Os políticos de hoje — com pequenas exceções — são os mesmos de outros tempos. Ligados por parentesco ou compadrio, tradicionalmente, tem como atividade principal roubar os recursos públicos, com pouco ou nenhum interesse em saber onde seriam aplicados, se na saúde, na educação ou na segurança pública.

Esses "homens públicos" nunca executaram com lisura, suas funções à testa dos órgãos públicos a que estão vinculados. Nunca mostraram um vintém de solidariedade humana, para com esses miseráveis, dos quais tiram os votos de que precisam, para continuarem empoleirados nos órgãos públicos, assessorados por uma chusma de apadrinhados, que ajudam a roubar o que deve povo, que ele diz governar. Abusam, sem remorso, da simplicidade e da falta de memória dos eleitores.

Sem nenhuma condição ou assistência pública, para sustentar as próprias existências, essas famílias, corroídas pela miséria, apenas mantém viva a prole, sem nenhum controle familiar, acossados por todos os problemas que os políticos fingem ignorar.

Omissos e desinteressados, os políticos concorrem para agravar, ainda mais, a existência dos pobres, quando rouba-lhes a saúde, a escola e até a merenda, que representa, para a criança, a principal refeição do dia. Desnutrida, abatida pela inanição, a criança tem seu desenvolvimento intelectual prejudicado, decorre daí a incapacidade de assimilar qualquer ensinamento escolar. Adulta, num País onde a segurança é discutível, vai viver à margem da sociedade, praticando crimes, para não morrer de fome nalguma calçada, onde dorme.

Entre a miséria absoluta de numerosas famílias e o vergonhoso fastio dos homens públicos — exceto um punhado de políticos honestos, tradicionalmente vencidos e ignorados pela maioria — testemunha-se o traumático e nefasto processo que revoga a eqüidade, corrói o País e envergonha a Nação

Além dos Órgãos Colegiados, temos o Executivo que dispõe do dinheiro público, como se dele fosse, até para salvar a própria pele, quando no ato de um perjúrio, é surpreendido prevaricando no exercício da função.

Temos por fim o Judiciário, que em muitas ocasiões, entoa cantilena semelhante à dos outros Poderes, mostrando ao seu modo, "ad argumentandum tantum" rebuscados acordes para, também abocanhar, indevidamente, recursos públicos. Como amostragem, tem-se o caso do juiz Mirko Vincenzo Giannotte, da comarca de Sinop (MT), que recebeu no mês de julho de 2017, o valor de R$503.928,79 (mais de meio milhão) como salário mensal. Interpelado, respondeu: "— Eu não tô nem aí!" (ISTOÉ, ed. 23.08.2017, pág. 24). Muitos outros magistrados beneficiam-se, sem precisar, do auxílio moradia, vantagem inconcebível e vergonhosa aos olhos daqueles que ganham salário mínimo!

O jovem que a polícia inquiria, com suas respostas desconexas, demonstrava retardamento mental, provocado pela inanição durante a infância. Hoje esses jovens formam multidões de milhões, dedicados ao crime para sobreviverem, assolando a sociedade e assassinando pessoas úteis ao País e indispensáveis às famílias que os perdem. É o legado da corrupção à Nação brasileira!

08-11-17/20.02.2018- (4800) - Membro da Academia Douradense de Letras. (josealbertovasco@yahoo.com.br)

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