14/02/2018 12h40

Ponta Porã- Retratos de uma história: Adão Bueno, 75 anos e as memórias da fronteira

Por: Prof. Yhulds Giovani Bueno

RETRATOS DE UMA HISTÓRIA. ADÃO BUENO 75 ANOS DE VIDA E AS MEMÓRIAS DA FRONTEIRA.

"A memória é o perfume da alma" George Sand.

MEMÓRIAS DA IMPRENSA E RÁDIO.

 
 
Imagem Arquivo pessoal de Adão Bueno: Radio Comercial União. 1963Imagem Arquivo pessoal de Adão Bueno: Radio Comercial União. 1963

Será realizada uma narrativa historiográfica de um determinado período da região de fronteira, através da perspectiva de quem viveu nessa época e tem muitas informações para repassar. Ao longo de seus 75 anos de vida dedicada ao desenvolvimento político e sócio cultural, ocupando vários cargos e funções no setor público, politica e no desporto, o senhor Adão Bueno através de suas memórias tem muitas histórias para contar.

O senhor Adão Bueno buscando em sua memória que diga se de passagem, é um acervo de informações de fatos vivenciados por ele, ressalta que antes de surgir emissora de radio em Ponta Porã, já existia dois serviços de autofalantes desde a década de 50, um deles com sua imponente torre que se destacava no horizonte, localizava se na esquina da Rua Marechal Floriano com a Rua Presidente Vargas, no antigo jardim, que nesse período denominava se Praça Presidente Dutra, futuramente mudara de nome para Praça Lício Borralho esta se localizava ao lado de onde hoje é o atual terminal de transporte urbano de Ponta Porã, outra torre de serviço de autofalante se localizava na Rua Paraguai, no terreno do senhor Adolfo Araújo, tinham como função transmitir serviços de utilidade publica, noticias, publicidade, curiosidades e entretenimento, segue fato curioso desse tempo, que todos os habitantes da fronteira já sabiam quando alguma morte ou tragédia acontecia, pois antes de dar a noticia, o som de fundo era a musica sacra Ave Maria, já preparando os cidadãos para ouvir as noticias ocorridas na região.

Em 1963 o senhor Adão Bueno é convidado para trabalhar como locutor da rádio Sociedade Ponta Porã, locutor nessa época não tinha regalia ele fazia tudo desde sonoplastia a redator e editor do programa. Essa rádio funcionava em um dos salões da Casa Pinto Costa uma revendedora de automóveis da época, de propriedade do senhor João Pinto Costa, a mesma se localizava em frente da antiga Praça Lício Borralho, essa praça já não existe mais, no lugar, se instalaram os camelódromos e os cacilheiros, nesta radio o senhor Adão Bueno tinha o programa denominado noticias populares, buscando as mais variadas noticias e mantendo sempre informado o publico fronteiriço, a mesma foi transferida para União Tênis Clube, neste mesmo ano foi inaugurada também a rádio Comercial União Brasil, esse serviço de rádio funcionava na residência do senhor Adolfo Araújo, na Rua Paraguai na faixa de fronteira, Adão Bueno foi convidado por Adolfo Araújo para ser locutor, com o programa Martelo da Justiça, sempre em busca da verdade e de matérias polêmicas para época, um período que o Brasil passara, em plena ditadura militar, as duas rádios foram lacradas e fechadas no final de 1964, por ordem do governo militar, por serem consideradas clandestinas e não passarem pelo crivo da censura, foi uma época delicada conta o senhor Adão Bueno.

No final dos anos 60 o senhor Adão Bueno lançava na fronteira um programa de auditório no antigo Cine Teatro Cruzeiro, que além de reproduzir filmes da época servia como teatro, e aos domingos para o programa de auditório, Cine Cruzeiro se localizava ao lado do edifício Cinelândia, na Avenida Brasil, hoje neste local funciona uma Igreja. O programa de auditório apresentava várias atrações, mas o grande foco era o concurso de calouros que levava a plateia presente ao delírio, torcendo por seus cantores, o maestro da época, era o musico Willian Portela e sua banda, que faziam o musical pra os calouros, tudo isso acontecia ao vivo ressalta o senhor Adão Bueno, onde o talento de quem participara era essencial, pois recursos tecnológicos nesses tempos não existiam.

O senhor Adão Bueno relembra que foi o primeiro locutor internacional, pois foi convidado pela radio paraguaia ZP15AM em espanhol se pronuncia (ZETAP15AM), no inicio dos anos 70, nesta radio ele tinha o programa Adão Bueno sem fronteiras e Bola na Rede, programas considerados lideres de audiência nesses tempos. Segue vasculhando suas memórias, dentre elas relembra, que o primeiro jornal impresso em Ponta Porã foi o jornal Correio que funcionava na Casa Comercial Sacadura, que nesta época se localizava na Rua Marechal Floriano, tinha como editor o senhor Arcy Lima Marques conhecido por todos da região de fronteira como (Cuca Marques). Adão Bueno segue relembrando que atuou como repórter investigativo e fotográfico, buscando noticias inéditas da região de fronteira no jornal Correio do Povo que pertencia neste período ao senhor Byro Medeiros e Lourival Alves Silva (Nenê).

MEMÓRIAS CULTURAIS.

 
Fotos: Arquivo pessoal Adão Bueno desfile cívico 1971Fotos: Arquivo pessoal Adão Bueno desfile cívico 1971

A grande maioria da população que todos os anos vão prestigiar o desfile cívico realizado na Avenida Brasil em Ponta de Porã não tem ideia de que maneira era feito nem ao menos onde acontecia em outras épocas, este breve relato vem realizar uma retrospectiva deste evento em nossa cidade. Voltaremos a data de 07 de setembro de 1971, Avenida Marechal Floriano lotada a população local aguardando com euforia o início do desfile daquele ano, o palco das autoridades já estava montado todo em madeira no centro da avenida a transmissão era realizada do alto do sobrado da loja "Casa Buri" de propriedade o senhor Benoni (Tio Benoni), que sedia o local no andar superior de sua loja para que o mesmo servisse de bancada para os locutores, (atualmente nesse mesmo local funciona a loja de sapatos Genesis). Avenida Marechal Floriano toda enfeitada seus paralelepípedos limpos ao longo das calçadas os postes de madeiras também recebiam adornos e fechamento de cordas para segurança da plateia, os locutores da época Srº Adão Bueno e Srº Velocindo da Silva (Velo) transmitiam o desfile através de alto falantes instalados no sobrado e na extensão da Avenida, o desfile começava próximo a Praça Lício Borralho onde hoje se localiza os box das novas lojas dos camelôs na linha internacional, seguindo em direção a parte alta da Avenida, segundo relatos do senhor Adão Bueno que transmitiu o desfile por muito tempo, quem teve o privilegio de fazer parte deste período histórico percebe o quanto a cidade de Ponta Porã se desenvolveu, a juventude de hoje não tem tais informações não sabe que por baixo desses asfaltos da avenida Marechal Floriano existe blocos de paralelepípedos que foram colocados para modernizar e deixar o centro comercial da cidade mais limpo em outros tempos.

Buscando em sua memória o senhor Adão Bueno ressalta que esse período era de plena ditadura militar e para que fosse realizada a transmissão do desfile o mesmo deveria ter toda logística e autorização monitorada do 11º Regimento de Cavalaria. Os locutores autorizados nesse período pelo comando militar eram o senhor Adão Bueno e Velocindo Silva (velo). Vale lembrar que o senhor Velocindo Silva (velo) continuou transmitindo o desfile por muitas décadas, voz conhecida nas transições por todos na cidade, como também no cerimonial da Prefeitura Municipal, já o senhor Adão Bueno que tinha seus programas de rádio voltou se mais a dedicar se para politica e ao esporte, dirigindo várias equipes na cidade e em outras regiões do Estado e atuando como assessor político e dentro de Ponta Porã como também em outros municípios de Mato Grosso do sul.

MEMÓRIAS ESPORTIVAS.

 
Foto: Arquivo pessoal Adão Bueno, na imagem Adão Bueno abraçado com uma das atrizes da peça: Delante de dios todas son madres, participavam da peça Sonia Cintas e Chico Gimenes de terno preto. Peça teatral dirigida por Albeto Morelo famoso na região de fronteira por produzir dirigir e formar grupos teatrais amadores fronteiriços. Foto: Arquivo pessoal Adão Bueno, na imagem Adão Bueno abraçado com uma das atrizes da peça: Delante de dios todas son madres, participavam da peça Sonia Cintas e Chico Gimenes de terno preto. Peça teatral dirigida por Albeto Morelo famoso na região de fronteira por produzir dirigir e formar grupos teatrais amadores fronteiriços.
 
Foto: Arquivo pessoal Adão Bueno, equipe campeã da Copa Morena.Foto: Arquivo pessoal Adão Bueno, equipe campeã da Copa Morena.

Quem viveu na década de 1980 e gostava de assistir um bom Futebol de Salão, nome dado na época para o esporte que hoje e conhecido como Futsal, vai resgatar de suas memórias a grande equipe do CRI da então famosa fazenda Itamarati, que foi na década de 1980 um polo pioneiro da agricultura brasileira em cultivo no cerrado, situada no nosso estado de Mato Grosso do Sul na região de fronteira dentro dos limites no município de Ponta Porã, iniciativa do empresário empreendedor Olacyr Francisco de Moraes.

O surgimento desta equipe se deu nesse período por incentivo do engenheiro responsável e administrador da Fazenda Itamarati na época Drº Nomura, amante do desporto apaixonado por um bom Futebol de Salão, Palmeirense de coração, tendo jogado nas equipes de base do clube no estado de São Paulo na sua juventude. O convite foi feito para o srº Adão Bueno desportista para ser o técnico da equipe da Fazenda Itamarati, com autonomia de buscar jovens talentos como também atletas renomados para compor esta equipe que marcou história dentro e fora de Mato Grosso do Sul disputando campeonatos e se consagrando vitorioso em muitas disputas realizadas ao longo do tempo.

Adão Bueno já era nome conhecido no desporto da fronteira por longa data membro da LDMPP - Liga Amadora de Desporto de Ponta Porã, como também dirigente e técnico de equipes de renome dentro e fora do município de fronteira, atuando também com equipes do lado paraguaio, com esse Curriculum e vasta bagagem, despertou interesse do Drº Nomura que queria formar uma equipe competitiva levando o nome do grupo Itamarati principalmente da ITASUL aos quatro cantos do Brasil.

O primeiro grande feito da equipe de futebol de salão da Itamarati foi ter se consagrado campeã da IV Copa Morena em 1982, campeonato esse com um sabor fronteiriço, pois a grande final emocionante e ainda viva na memória de quem teve o privilégio de assistir como também fazer parte deste momento épico, que foi televisionada pela emissora TV Morena na capital Campo Grande uma final onde duas equipes da fronteira disputavam o titulo de melhor do Estado, CRI Itamarati e Ponta Porã.

Cada equipe com seu elenco de fazer inveja a qualquer técnico de seleção brasileira com nomes de peso, jogadores de primeira linha, conhecidos em todos os meios desportivos da época. O Srº Adão Bueno se lembra de todos os fatos e acontecimentos desta data vívido em sua memória esse embate futebolístico histórico, onde no primeiro tempo de jogo a equipe de Ponta Porã ganhava de dois (2) gols de diferença, no intervalo o repórter esportivo perguntou a Adão Bueno e agora o que você vai fazer? Calmamente Adão Bueno respondeu: empatar e virar esse placar ao meu favor desacreditando que este fato pudesse ocorrer, o repórter e comentaristas fizeram suas tirinhas!

Passados 36 anos Srº Adão Bueno revela os bastidores desse momento esportivo, no vestiário acalmando seus atletas após ter estudado a grande equipe adversária de Ponta Porã e perceber suas falhas, conversou com cada jogador mudando sua tática muito pouco realizada na época por ter uma forma diferenciada.

A tática tinha como método principal realizar a rotatividade dos atletas, jogando sem jogador fixo em quadra algo corriqueiro para quem entende de futebol de salão sabe o funcionamento do fixo, alas e pivô, mudando fazendo os jogadores se revezarem em quadra e pedindo a cada jogador que mudasse a forma de chutar a gol, ou seja, se te marcarem á direita chute com a esquerda eles não vão esperar você fazer isto, invertendo totalmente e confundindo a marcação do adversário, segue relembrando o Srº Adão Bueno.

Não foi fácil, mas impossível também não seria, e no segundo tempo uma virada histórica aconteceu, quatro (4) gols selaram o destino da equipe de Ponta Porã, que tinha em seu elenco jogadores renomados como: Flávio Kayatt, Carrocine, Juan Vilhalba e os Irmãos Vegas, entre outros que compunham a equipe de Ponta Porã, quem foi desta época vai relembrar desses grandes atletas e o técnico dessa fabulosa equipe de Ponta Porã era o então saudoso Roberto Urizar (Acostinha) nome consagrado no Desporto fronteiriço e no Estado. O CRI ITAMARATI consagrou-se Campeã da 4ª edição da copa morena, algo inédito, com gols que foram declarados pela mídia como pinturas, foi dado o primeiro passo, para levar o nome desta equipe antes não muito acreditada, como uma equipe de renome e peso dentro das quadras, realizando excursões fora do estado, jogando contra equipes de renomes no Brasil como: E.C. Tachinha, Citrosuco, Uracam, Palmeiras, Corinthians, consagrando-se campeão e ganhado todos os jogos realizados neste período histórico, todos os resultado registrado em súmulas originais.

Chamando atenção de muitos esportistas da época, Itamarati virou sinônimo de bom futebol de salão, esses fatos históricos todos registrados e comprovados com documentos e reportagens da época, ressalta Adão Bueno, com saudosismo desta época, mas com orgulho de ter escrito juntamente com tantos outros seu nome na história esportiva de Mato Grosso do Sul. Lembra com carinho de seus atletas como: Vírginio, Cezar, Reinaldo Colmam, Darinho, Carlinhos bagaço, Carlitos goleiro, Chico, Ortiz, Azunil e Juvenal. A equipe da Itamarati-CRI repetiu o feito conseguindo dois títulos da Copa Morena, a fase da equipe se estendeu por longa data na década de 80. Consagrando se campeão do campeonato Estado de Mato Grosso do Sul. Vale saber que atletas da seleção brasileira jogaram defendendo o clube CRI, exemplo do melhor atleta da época DOUGLAS jogador renomado e campeão pela seleção do Brasil, que seria se comparado, nestes tempos o falcão do futebol de salão.

 
Foto: Arquivo pessoal Adão Bueno. Na imagem o Senador Lúdio Coelho e o Carlos Fróes (in memoriam) nesta época Deputado EstadualFoto: Arquivo pessoal Adão Bueno. Na imagem o Senador Lúdio Coelho e o Carlos Fróes (in memoriam) nesta época Deputado Estadual

MEMÓRIA POLITICA.

O senhor Adão Bueno, recorda na sua juventude de comícios e reuniões politicas na fronteira em épocas passadas, esses eram eventos de grande porte, onde autoridades renomadas se faziam presente, o palanque costumeiramente era montado na esquina da Rua Presidente Vargas com a Rua Marechal Floriano, nessa época existia nesse local a Praça presidente Dutra, os partidos políticos de maior representatividade da época em Ponta Porã era UDN e PDT, reuniam se no palanque políticos de grande representatividade na região de fronteira, podendo ser citados alguns de muitos, sendo eles: Drº Rachid Saldanha Derzi, Atamaril Saldanha, Armindo Derzi, Carlito Roncatti, Juvenal Fróes, Alexandrino Marques (Tio Cota Marques), Hélio Pelufo, Adê Marques, Drº Neri Azanbuja, Drº José Issa, engenheiro Agrônomo Lício Borralho, dentre tantos outros que se faziam presente nesses eventos fronteiriços, que ficaram marcados na memória de alguns que ainda se fazem presentes nos dias de hoje, pois muitas dessas lembranças se perderam com os anos, só mesmo quem viveu ou ouviu falar através de relatos de pessoas que estavam presentes, contando as façanhas ocorridas desses saudosos tempos.

Adão Bueno relembra que os discursos eram inflamados por seus grandes oradores, senhores políticos da região defendendo seus ideais e propostas, a multidão acompanhava e vibrava a cada fala, mas não diferente dos dias atuais nessas épocas também existiam os famosos entreveros (desavenças, discussão) entre os correligionários que acompanhavam seus políticos, o senhor Adão Bueno relembra que nesses tempos comício era ponto de encontro entre os compadres e comadres e demais amigos da região, que vinham para se atualizar dos acontecimentos políticos, segue lembrando que certa vez depois de vários discursos inflamados ouve um grande entrevero, no qual partidários de ambos os lados para defender seus ideais políticos foram até as "vias de fato" muita briga, discussão entre tapas e empurrões, e a turma do deixa disso, mas também aproveitava e entrava no entrevero e como nesse período politico tinha que ter sua habilidade especial, para dentro dessa situação tirar seu proveito, nesse entrevero sobe no palanque o Drº Rachid Saldanha Derzi, e com um discurso épico, apazigua o entrevero, pois até os contrários paravam para escutar esse grande político de outrora que tanto representou a fronteira.

Agradecimento especial esse ícone da política, imprensa, cultura e desporto da fronteira, o senhor Adão Bueno que fará 75 anos de vida dia 18 de fevereiro. Tenho orgulho de ser filho e aprender sempre com suas lições de vida, exemplo a ser seguido sempre.

 
Pesquisador: Prof. Yhulds Giovani Bueno. Pós Graduado em Ensino de História e Geografia. UNIVALE Fac. Integradas do Vale do Ivaí. Mestrando PPGDRS/UEMS/UNIDADE PONTA PORÃ-MS.Pesquisador: Prof. Yhulds Giovani Bueno. Pós Graduado em Ensino de História e Geografia. UNIVALE Fac. Integradas do Vale do Ivaí. Mestrando PPGDRS/UEMS/UNIDADE PONTA PORÃ-MS.