Onde estavam barracos, hoje são casas

Conhecida também por “favelinha”, área federal ocupada é território dominado onde impera o silêncio dos inocentes

Um território onde impera o silêncio. Assim pode ser descrita a “Cidade de Deus”, ou “favelinha”, batismo dado à área da antiga Rede Ferroviária Federal S/A e ocupada ilegalmente desde o final dos anos 2000, quando famílias sem teto – a maioria de nacionalidade paraguaia – instalaram barracos de lona e foram criando um núcleo urbano sem qualquer infraestrutura, sem atenção do Poder Público até mesmo por conta da situação irregular.

Hoje mais de 100 famílias vivem na localidade, situada em ponto estratégico próximo da Vila Áurea (um dos maiores bairros de Ponta Porã) e vizinha do Che Rogami.

“Cidade de Deus” tem suas próprias regras básicas de convivência. Em dois dias de andança pelas vielas e conversando com moradores, a reportagem do CJS constatou que a lei do silêncio é a mais forte e mais respeitada dentre os seus moradores. Ninguém fala nada sobre as regras impostas pelos pequenos grupos que dominam o território.

“Recebemos frequentemente ordens de não falar muito e obedecer o toque de recolher às nove da noite”, diz um morador, sentado na sombra de uma frondosa árvore. Desconfiado pelo fato de um desconhecido fazer algumas perguntas, logo ele se despede.

Foram as poucas declarações que um morador efetuou. Na área, existem pequenos comércios que abastecem os moradores com alimentos e produtos do dia a dia. A caderneta de conta da semana é paga todo sábado religiosamente.

E a inadimplência é comunicada aos `líderes´ que têm a missão de efetuar a cobrança e pelo serviço recebem um percentual.

Pequenas vielas formam o núcleo urbano da “Cidade de Deus”. Um dos primeiros moradores do local conta que os barracos foram sendo instalados aleatoriamente. Sem ter o nome citado, ele fala que as famílias foram chegando e dois líderes do movimento de ocupação coordenaram as divisões das famílias, que pagaram um valor X para ter direito a entrar na área federal.

E assim, a ocupação foi crescendo e chegou até a extensão da rua General Osório, logo após a antiga estação ferroviária, hoje sede da Fundação de Cultura e Esportes de Ponta Porã. A invasão, inclusive chegou até perto dos trilhos ao fundo do prédio da estação e não avançou mais por conta da decisão de servidores municipais impedirem, conseguindo garantir uma área para a prática de esportes.

Sobre a regra da lei do silêncio, ninguém fala nada. Nem um piu. Um morador disse que a imposição “é dos líderes”. Mais nada. O toque de recolher impõe fechamento das casas e comércio às nove horas da noite.

Nem um minuto a mais. Aos finais de semana, a uma tolerância. Quem quebra a regra pode ser punido caso seja flagrado.

As exceções são para quem trabalha até mais tarde, existindo um controle.

Reflexo de anos de abandono e descaso, a área que foi um dos principais impulsionadores do desenvolvimento de Ponta Porã, a Estação Ferroviária, foi transformada numa pequena “favela”.

As casas de hoje – antigos barracos – possuem rede de água e energia. Não existe rede de esgoto, até pela situação irregular da ocupação. A instalação desses serviços começou atra´ves de um mecanismo jurídico via Defensoria Pública e hoje os moradores têm água e luz.

A área pertence à União. A América Latina Logística S.A. (ALL), concessionária de toda a rede binária em todo o Brasil, abandonou Ponta Porã diante da desativação da linha férrea e do natural desinteresse econômico pelo ramal fronteiriço.

Uma das últimas informações divulgadas relata que a ALL devolveu a concessão e a gestão do local ficou sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

O certo é que a “Cidade de Deus” existe em Ponta Porã com suas próprias regras e dificilmente o Governo Federal consiga retirar as famílias moradoras dessa área da União. É um problema social grave na cidade onde todas as autoridades fecharam os olhos e deixaram o tempo correr.

Os ocupantes aproveitaram dessa situação e criaram o núcleo urbano, hoje uma realidade no município. FONTE: Conjecturasppms

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